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Quarta-feira, Janeiro 20, 2021

O jogo que durou dois minutos e outros azares do leão em Chaves

Sporting volta amanhã a Chaves, com más memórias. A mais insólita é a da desgastante visita de há 21 anos, para jogar 2.21 minutos. Carlos Xavier e Norton de Matos recordam-na

Recordo-me perfeitamente do que aconteceu. Só no futebol português é que podia ocorrer algo assim”. Carlos Xavier tem a memória fresca – afinal, está a falar um dos episódios mais insólitos da história do desporto-rei em Portugal. Há 21 anos, Desportivo de Chaves e Sporting encontraram-se para jogarem dois minutos, tempo que faltava de uma partida iniciada 12 dias antes. É o momento que se recorda, quando os leões voltam à cidade transmontana – amanhã (18.15, Sport TV1) para a 17.ª jornada da I Liga e terça-feira (20.15, Sport TV1) para os quartos-de-final da Taça de Portugal.

O Sporting raramente foi feliz nas visitas ao Desportivo de Chaves: em 14 jogos, perdeu quatro e apenas ganhou três. Ainda assim, de todas essas partidas, realizadas entre 1986 e 1999, nenhuma fez correr tanta tinta como aquela que se estendeu ao longo de 12 dias, em 1995/96.

Tudo se deveu – dizem as crónicas da época – a um apagão dos holofotes do Municipal de Chaves, a 30 de dezembro de 1995. O jogo entre transmontanos e lisboetas foi interrompido a 2.21 minutos do fim, com 1-1 no marcador. E, com forte contestação dos leões, a sua continuação só foi reagendada para 11 de janeiro de 1996, dois dias antes de o Sporting receber o FC Porto (que liderava a I Liga com seis pontos de avanço e mais um jogo concluído).

“Não fazia sentido fazer aquela viagem de Lisboa a Chaves para jogar dois minutos. Foi algo difícil de assimilar e com pouca lógica, como nunca tinha vivido na minha carreira desportiva”, diz, ao DN, Luís Norton de Matos, que então era diretor-desportivo do emblema verde-e-branco. “Eram cordelinhos que alguém sabia mexer… e o Sporting acabava sempre prejudicado”, nota, por sua vez, Carlos Xavier, jogador que tinha marcado o 1-1, ainda antes da interrupção – “tenho essa memória gravada: foi um livre direto sobre o lado esquerdo e coloquei a bola ao ângulo [superior] direito.”

“Tivemos de fazer uma nova viagem quando podíamos ter jogado à luz do dia, na tarde seguinte. Foi uma comédia que nos deixou revoltados. Na segunda vez, nem foi o plantel todo, foram só os que estavam a jogar [as equipas eram obrigadas a respeitar a ficha de jogo original e os leões já tinham esgotado as substituições]”, conta o ex-futebolista. Em dois minutos “de pressão constante”, como recorda Norton de Matos, o Sporting já não conseguiu desfazer o empate e manteve o atraso para o FC Porto, que se alargaria dois dias depois (0-2).

“Foi uma viagem longa que deixou marcas”, admite o antigo diretor-desportivo – até porque aquele “mini-jogo” foi vivido num clima de tensão entre os adeptos flavienses e a comitiva leonina, devido à polémica que se arrastara nos dias anteriores. “Tivemos de nos sujeitar ao que nos mandaram. Havia um certo desgaste, mais psicológico do que físico”, acrescenta Carlos Xavier.

De resto, esse episódio caricato não foi caso único. O Sporting sempre sentiu muitas dificuldades em Chaves, da estreia (0-0 em janeiro de 1986) à última visita (2-2, em janeiro de 1999, num jogo com uma arbitragem polémica de Jorge Coroado, que admitiu ter ficado com “um grande azia”, após a partida).

“Lembro-me dos jogos quando o Chaves era treinado por José Romão, com David, Rudi e outros jogadores muito rápidos, e era muito forte no contra-ataque. Era muito difícil ganhar naquele campo. Além disso, não me recordo de ir a Chaves no verão. Fazia sempre muito frio, de cortar à faca. Eles estavam habituados a isso, nós não, até porque tínhamos muitos brasileiros. Íamos de comboio até ao Porto e depois de autocarro. Não havia autoestradas, era uma viagem longa e muitas vezes chegávamos lá enjoados”, conta Carlos Xavier.

A essas dificuldades juntava-se o brio transmontano. “O Chaves tem uma caraterística muito especial: representa não só uma cidade como uma região. Quanto maior for a dificuldade mais o transmontano se transcende. Quando o estádio enche, há um fervor clubístico enorme”, sublinha Norton de Matos, que treinou o clube em 2014/15. É o que o Sporting terá pela frente, em dose dupla, amanhã e terça-feira.

Fonte: DN

Data: 13/01/2017
Local: DN
Evento: Notícia

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