RUGIDO VERDE

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Quinta-feira, Maio 28, 2020

Entrevista a Morato em 1985: «Escolhi o Sporting porque foi o primeiro»


Há cerca de sete anos atrás, um miúdo, de 13 anos de idade, dava, talvez, o passo mais importante, na pi sua carreira de futebolista. Naquele dia, em Loures, mesmo às portas de Lisboa, o miúdo, simples, humilde, conservador de amizades, chorava «baba e ranho», a despedir-se dos outros putos, colegas e amigos, que com ele, no modesto Grupo Desportivo local, haviam passado bons tempos aos chutos na bola. O passo dado, aparentemente curto, redundou afinal, num palmilhar gigantesco. De Loures a Lisboa, ao Estádio José Alvalade, distam apenas uma meia dúzia de quilómetros que, sete anos volvidos, representam, agora, o titularidade no Sporting, a internacionalização mais apetecida, o sucesso, a fama, a popularidade, o… dinheiro.

A choradeira dos 13 anos foi contudo, sentida e ainda hoje, MORATO, o novo «líbero» do futebol português, um dos jovens valores em quem ninguém põe já dúvidas ao seu talento, recorda aquele momento, como se o estivesse, exactamente, ainda a viver: «Fartei-me de chorar quando tive de sair de Loures. Aquilo custou que nem calcula. Despedi-me dos meus amigos lavado em lágrimas».

Alguns deles, hoje, então com Morato, algures em Loures, a discutir o banal da juventude, o importante e, nos grandes intervalos, a «discutir póquer» com essas pequenas máquinas refinadas do jogo que é (foi) de cartas.

Afinal de contas, Morato continua «preso» a Loures e aos seus amigos de sempre. Em nada, pois, a viagem a Lisboa, e ao estrelato, modificou a personalidade do jovem, do homem, que um dia se fartou de chorar quando teve de sair, não de Loures, mas do Desportivo.

Curiosamente, o pai de Morato, que lhe deu o nome, não foi tido nem achado para a decisão do miúdo, em aceitar o convite acenado pelo Sporting. Apesar de Morato (pai) ter, anos atrás, deixado o seu nome bem vincado no futebol português, no Sporting, e também na Selecção Nacional.

Está, assim, revelada, uma das facetas mais importantes, da personalidade, do jovem Morato, hoje, com vinte anos, casado, pai, e que, sabendo o que sabe hoje, era capaz de voltar a chorar, se tivesse de sair de novo do Desportivo de Loures.

António Maurício Farinha Henriques Morato divide, actualmente, a sua vida entre os treinos, os jogos, a família e os mesmos amigos de sempre.

Recorda-nos que foi Aurélio Pereira, quem um dia o viu jogar, precisamente contra o Sporting e o convidou para Alvalade. «Mas havia também o Benfica, só que eu optei pelo primeiro que me convidou e não por amor clubístico. Talvez que o facto de o meu pai ter jogado no Sporting tenha tido algumas influência. Eu gosto do Sporting, mas naquela altura não era coisa que me preocupasse».

Morato fala-nos ainda daqueles tempos. Com ele, também jogou no Desportivo de Loures o seu irmão, Rogério Morato, hoje com 22 anos e jogador do Bucelenses. «E olhe que ele é mesmo um grande jogador. Até é mal empregue estar naquele clube. É médio, mas nunca se interessou por aí além. Só que desde que me viu subir no futebol profissional começou a encarar as coisas mais a sério. Agora é apenas uma questão de sorte. E como ele está a cumprir os últimos seis meses de contrato com uma companhia de seguros… pode ser».

Enquanto isto, Morato leva já à sua conta e, pelas suas contas, 49 internacionalizações. «É verdade, mas os jornais dizem que só tenho 41».

E o jovem Morato passa a explicar que regista tudo o que se escreve a seu respeito. «Bem ou mal, note-se. A minha mulher recorta tudo e eu desde que vim para o Sporting que também tenho tudo arquivado. Até do Loures, só que em menor escala, claro».

Pelos vistos a Paula Cristina Morato, de 19 anos, mulher do jovem futebolista há dois anos, vai ter muito que recortar nos próximos anos.

«Ela está satisfeita – diz-nos com orgulho – com a minha carreira e ajuda-me imenso, como por exemplo, o ano passado, quando tive aquela arreliadora lesão que me obrigou a estar afastado 11 meses».

Foi há seis anos que Morato conheceu a Paula Cristina. Na escola secundária de Loures (obviamente). «Ela chegou a ser da minha turma».

As coisas «complicaram-se» e, depois de quatro anos de namoro veio o «casório» e, uns meses mais tarde, a Cátia Sofia, agora com 15 meses. Ambos tomaram a iniciativa, quer para arrumarem os trapinhos, quer para trazer ao Mundo a pequena Cátia. Um namoro tradicional que teve o início de tal «complicação quando Morato entrou em casa da Paula para ser apresentado aos seus futuros sogros.»

Loures continua a ser o «habitat» do jovem casal. A apenas 500, metros dos pais de Morato, que todos os dias visita. «Além do mais não tenho telefone. Estou à espera há dois anos e pelos vistos vou continuar a estar».

Morato leva uma existência, calma, tranquila. Como ele gosta. «Treino, almoço fora, ou em casa, e à tarde vou dar um passeio com a minha mulher e a minha filha. Se tiver bom tempo claro, caso contrário fico em casa, a brincar com a minha filha. A noite, sempre que posso vou ao cinema.»

Morato adora o cinema, o «póquer» com os amigos e as máquinas, e de brincar com a pequena Cátia. A Paula Cristina trata da casa.

«Eu não ajudo em nada. Fico com a miúda, tomo conta dela, brinco com ela, só não consigo é mudar-lhe as fraldas. E não sei porquê. Não consigo, pronto».

E surge a revelação:

– Eu queria um rapaz, mas ela não quer mais. Diz que quem sofre são elas e não nós. De facto, o parto custou-lhe um: bocado, mas enfim, pode ser que com calma, eu lá consiga chegar ao rapaz. Conversamos bastante, de tudo e de nada. De politiquices não, até porque não vamos falar daquilo que não percebemos. Ouvimos música, vamos a casa dos meus pais, como já disse e a casa da minha sogra.

Morato é assim, um jovem simples que se define «como um pouco nervoso».

«Só estou bem onde não estou. Sou muito ambicioso, quero sempre mais e melhor. Quero sempre fazer outras coisas».

E como jogador ?

– Penso que tenho boa visão de jogo, bom sentido posicional no terreno, boa velocidade e boa técnica. O jogo de cabeça é que é o meu fraco. É a minha maior dificuldade.

Morato segue em direcção ao carro do seu irmão. «Ele emprestou-me o dele, pois tenho o meu (Ford Escort) na oficina». Fala-nos no desejo de comprar um «Buggy»«O Verão aproxima-se e a família vai gostar».

Aos vinte anos, casado, um passo importante na carreira de um jogador de futebol?

Penso que não é isso que é importante. Se fosse solteiro, fazia as mesmas coisas. Depois dos treinos tenho de descansar, e nos meus tempos livres, lá estou com os meus amigos e vou ao cinema. Aliás nunca foi muito dado a noitadas. Nem as aguento.

Morato também não gosta de ler. «Dá-me sono. Só jornais e poucos.»

Quanto a estudos, ficou-se pelo 9.º ano de escolaridade, mas queria seguir o curso de Educação Física. Ainda não desistiu da ideia, «mas agora é impossível».

Lá em casa toda a gente está de acordo?

Sim senhor. Ninguém tem influência. Nem o meu pai. A propósito, mesmo em relação ao futebol, e às minhas actuações, tenho de ser eu a puxar a conversa, caso contrário ele nunca diz nada. Talvez seja para não me influenciar. Mas ele acompanha os meus jogos em Lisboa e arredores. A minha mulher só vai a Alvalade.

Fonte: «Revista Foot»

Data: 17/05/2020
Local: Revista «Foot» Maio de 1985
Evento: Entrevista a Morato

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