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Segunda-feira, Maio 25, 2020

Entrevista a Saucedo em 1985: O futebol português é muito lindo


Uma semana antes do último Natal, dois argentinos prendiam as atenções dos adeptos do Sporting. Um, Yazalde, já afastado dos relvados, mas não do coração dos «leões»; outro, SAUCEDO, novidade e candidato, precisamente, ao lugar que um dia foi daquele seu compatriota. Yazalde chegou a Alvalade, cumprimentou todo o Mundo, deu entrevistas, apresentou Saucedo, e foi-se embora de volta à sua Argentina.

Saucedo, esse, ficou uma semana, num hotel de Lisboa, aguardando o resultado das negociações entre o Sporting e o seu clube equatoriano, Desportivo Quito. Só, sem falar nem compreender a nossa língua, sem conhecer ninguém, Saucedo desesperava entre os treinos, no Estádio de Alvalade e um quarto de hotel. Assim:

– Foi terrível aquela semana. A pior que passei em toda a minha vida. Nem imagina o que me custou a passar. Longe da minha família, sem conhecer nem perceber ninguém. O Natal a chegar e eu já não podia mais. E ninguém resolvia o meu problema. Não sabia se ficava se me ia embora, ninguém me dizia nada. Até que, já desesperado, louco mesmo, falei com Pedro Gomes e pedi para me ir embora. Pode crer que, naquele momento, nem que me dessem uma fortuna eu ficava. Peguei no bilhete do avião, na mala, e fui direito ao Aeroporto para… não mais voltar.

Como?

– É verdade, já não pensava voltar. A falta da família era insuportável e como o Natal estava a chegar eu nem imaginava que o passasse longe dela. Depois, não via o meu caso resolvido, já não pensava, de facto, voltar a Portugal.

Mas voltou, e o mais curioso, veio a seguir:

– É verdade, cheguei à Argentina, passei o Natal com a minha gente, fiquei feliz e, dois dias depois, recebi um telefonema de Portugal. Resultado, em poucos minutos acabei por decidir e saber que sempre ia para o Sporting, o que afinal não tinha acontecido durante uma semana naquele hotel. Já nem quero pensar nisso.

Sérgio António SAUCEDO é assim mesmo, um jovem simples, sedento de amizades e que cultiva um sentimento familiar já fora do vulgar. Recebe-nos em sua casa, num momento em que nos acabamos de cruzar com a família Eldon. Aliás, a casa lisboeta de Saucedo, nas traseiras do Estádio José Alvalade, tende a seguir o rumo daquelas onde viveu na Argentina e no Equador: «Parecia a República», tal a afluência das visitas.

A mulher, e os 16 meses da Mari Fé, tal e qual a cara do pai, «só lhe falta o bigode», brinca a mãe, fazem as honras da casa. SAUCEDO, 25 anos de idade, natural de Zarate, uma pequena cidade a 80 quilómetros de Buenos Aires, fala então, de si, da sua carreira, do Sporting, do futebol na Argentina, de Maradona, de Rinaldi, dos seus amigos e… da sua família. Conta-nos, que começou no clube da sua terra, com 17 anos, que aos 20 passou-se para o Quilones e que três mais tarde, aceitava o convite para jogar no Equador e no Desportivo de Quito. E, agora, O Sporting:

– Conhecia o Yazalde, sabia que aqui no Sporting estavam a precisar de um ponta-de-lança e aceitei vir tentar a experiência. O meu passe pertencia ao Quito, o Sporting interessou-se, contactou o Quito, e, agora, aqui estou para cumprir mais três anos e meio de contrato.

A Europa era a meta deste gentil argentino, de simpatia extrema e com a palavra amizade sempre a bailar-lhe no cérebro. Uma jovem família cativante.

Conhecia o Sporting de nome e Yazalde ajudou-o, melhor que ninguém, a conhecer a importância do clube «leonino» no futebol do nosso país e na Europa. «A experiência foi contudo bastante positiva. Mister Toshack disse que eu satisfazia as suas pretensões e pronto».

Em Portugal, «onde estou desde 31 de Dezembro», Saucedo já se sente bem: «Parece que estou em casa, tenho bons companheiros, gente que me apoia, só me falta a família, de resto, tudo bem». E o Sporting?

Creio que o Sporting está a fazer um bom campeonato, mas o Porto está óptimo. Aliás, na Argentina já levava 10 pontos de avanço. O Porto só perdeu um jogo e isso é óptimo. Mas sei que para o Sporting não é bom estar em segundo lugar. Mas a esperança não morre e o Sporting possui excelentes jogadores.

Saucedo está satisfeito com a sua rápida adaptação ao futebol português e ao seu clube. Recorda a sua estreia contra o Guimarães e enaltece o apoio dos seus colegas de equipa. E diz: «Dar um passe para o golo é tão importante como marcá-lo».

O futebol português?

– É lindo. É um futebol de nunca baixar os braços, que se corre durante os noventa minutos. Do final de cada jogo podemos sair satisfeitos. Eu vinha de um ritmo completamente diferente. E Portugal tem magníficos jogadores, um prestígio a defender, um óptimo futebol e um terceiro lugar no Europeu.

Csernai não é da mesma opinião?

– As derrotas da selecção não querem dizer nada. Csernai não tem razão. O terceiro lugar no Europeu não acontece por acaso. A Argentina também foi campeã do Mundo e agora está um pouco apagada. Não, não concordo com o sr. Csernai. Aliás, se Portugal tivesse um futebol de segundo plano também eu não tinha vindo. Ou será que eu não sabia ao que vinha?

Mas o futebol do Equador não tem projecção internacional e você jogou lá?

– De facto assim é, mas lembro que o futebol equatoriano não é fácil. Outros estrangeiros estiveram lá e fracassaram.

Saucedo revela, então, que no Equador os clubes pertencem a mecenas, não existem sócios e que o dinheiro reverte da publicidade. «Cerca de 100 mil dólares anuais». Fala da dificuldade de um estrangeiro em triunfar no Equador, o qual «se falha, quase o matam». E Saucedo triunfou. Melhor goleador do ano, melhor jogador do ano e o interesse do Quito em mantê-lo nas suas fileiras, são alguns dos pontos de honra de Saucedo na sua passagem pelo Equador.

«Regressa» à Argentina para nos falar da sua confiança numa boa campanha da selecção no México, «onde espero que jogue contra Portugal» de Maradona, «um fenómeno» que já jogou contra ele, e de Jorge Rinaldi que esteve na agenda de Fernando Martins: «Conheço-o, é um excelente jogador, mas não acredito que venha para o Benfica. Vale muito dinheiro, é jovem, (22 anos), está na selecção e actua num grande clube, o S. Lorenzo».

E Saucedo?

– Eu, bem, eu sou um jogador razoável. Não sou habilidoso, não tenho muita técnica, mas tenho um bom poder de elevação, sou rápido e tenho um remate forte. Mas prefiro jogar para a equipa, isso sim, é que é futebol. De momento estou a integrar-me, penso, por isso, que para o ano já vai ser diferente. Mas é uma grande responsabilidade vestir a camisola do Sporting.

Qual?

– Até agora não sei, a 9, a 10, ou a 11, logo se verá.

Depois daquela famigerada semana, antes do Natal, Saucedo já se dá bem com Portugal e com os portugueses. Gosta de cabrito e fica até surpreendido por ser já reconhecido em… Vila Real de Santo António. Gosta de Cascais e do Estoril e dos futebolistas que actuam em Portugal, fala-nos de Ribeiro (Académica), Tonanha (Salgueiros), de Isima (Guimarães) de Futre, «um jovem com muito futuro», e de Litos, «que grande futuro vai ter!»

No estrangeiro ganha-se dinheiro mas perde-se outras «coisas» de grande valor

Saucedo, já o dissemos, não esquece os amigos e a família. «Impossível esquecê-los», Tem saudades da Argentina, mas atenua-se escrevendo 200 a 300 cartas por ano, e recorda os amigos que deixou no Equador.

Um episódio: «Contra o Penafiel, o jogo não me correu bem, a equipa esteve mal, eu pior, e à uma hora da madrugada recebi uma chamada. Levei as mãos à cabeça, pensei que fosse alguém a dizer mal de mim, mas afinal era a minha mãe, a telefonar-me de Mar Del Plata».

«No estrangeiro – conta-nos – ganhamos dinheiro, prestígio, e tudo o mais, mas também perdemos outras coisas de valor incalculável. Os meus pais, ficam mais velhos, as minhas irmãs também e eu depois vejo o que perdi, os anos que desperdicei, na ausência deles».

A melancolia na sua voz é gritante, Para matar as saudades da família, Saucedo envia todos os recortes de revistas e jornais que falam de si.

«Tudo o que faço e o êxito que tenho penso nos meus pais. Envio tudo, quero que sintam orgulho em mim. A minha cidade, Zarate, também quer saber coisas de mim. Isso é muito importante».

Saucedo, o argentino do Sporting é assim: A «Foot» já deve ir a caminho da Argentina.

Fonte: Revista «Foot» Abril 1985

Data: 21/04/1985
Local: Revista «Foot» Abril 1985
Evento: Entrevista a Saucedo

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