RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quinta-feira, Setembro 24, 2020

Pedro Gomes. “O John Toshack mandava cada pastilha, vai lá vai!”


Na época 1984-85, o técnico galês saiu do Sporting com três derrotas em 38 jogos. O seu perfil traçado pelo adjunto, incomodado pela EMEL

John Benjamin Toshack é um nome ligado ao futebol desde os anos 60, quando, como avançado do Liverpool, marcava golos a torto e a direito (mais de 200). No final da década 70, Toshack vestiu a pele de jogador-treinador e subiu o Swansea, equipa do seu coração, da 4.a à 1.ª divisão inglesa em anos seguidos, ao mesmo tempo que levantou três Taças do País de Gales. É nesse registo de vitórias que João Rocha, então presidente do Sporting, ouve falar de Toshack e decide abordá-lo para treinar em Lisboa. O convite é aceite e começa assim a primeira aventura de Toshack no estrangeiro (seguiram-se Real Sociedad, Real Madrid, Deportivo, Besiktas, St. Etienne, Catania e Murcia).

A coisa até corre bem e o Sporting abre o campeonato com cinco vitórias seguidas e 16-4 em golos. Uma derrota em Penafiel (0-2) e a eliminação da Taça UEFA aos pés do Dínamo Minsk nos penáltis não abalam a fé sportinguista. Os problemas só surgem já em 1985, e faz hoje 25 anos que Rocha e Toshack negociaram a rescisão. A culpa é do Rio Ave de Mário Reis, que elimina o Sporting nos quartos-de-final da Taça em Alvalade (1-0) e ainda empata (1-1) para o campeonato, a quatro jornadas do fim, atirando os leões para segundo, atrás do FC Porto. Neste contexto, Toshack está à beira do precipício e dá o passo em frente na semana seguinte, a 19 de Maio, num Sporting-Boavista. O Sporting ganha 2-1 mas Toshack sai. E quem o substitui é o adjunto Pedro Gomes, que nos faz o perfil do galês.

“Era uma pessoa inteligente, com grande sentido de observação. Só tinha 35 anos quando chegou a Alvalade e adaptou-se imediatamente ao estilo de vida português. Morava no Hotel Alfa, na Columbano Bordalo Pinheiro, falava bem castelhano, o que era importante na comunicação, e jantávamos fora umas quatro vezes por semana, no Bairro Alto, em Sintra, nas Avenidas Novas. Era um bom garfo e acreditava muito em mim”, conta Gomes, a falar pelo telemóvel do carro, antes de ser importunado pela senhora da EMEL. “São só mais uns minutos, já saio daqui.”

“Continuando… Ah pois, a contratação do Oceano, que eu treinara no Nacional ficou a dever-se a mim, que o aconselhei ao Toshack, que aprovou o negócio. Mas havia mais pormenores de proximidade. Na véspera de cada jogo, ele perguntava-me ‘qual é a equipa para amanhã?’, ouvia a minha resposta e dava-me uma palmada no ombro em sinal de aprovação. Aliás, há um episódio curioso no desempate por penáltis em Minsk, quando ele me pede os nomes dos cinco jogadores. Eu escrevi, dei-lhe o papel e ele respondeu-me: ‘Era mesmo isto que eu estava a pensar.'”


E como era ele no banco? “Fazia três de mim”, responde Pedro Gomes de imediato. “Uma vez, nas Antas, o Gomes disse alguma coisa para o banco do Sporting e tive de o agarrar senão ele entrava por ali adentro. Nos penáltis em Minsk, é verdade que perdemos [5-3] mas o Toshack confortou o Carlos Xavier [o único a falhar]. Lembro-me tão bem dele a dizer-lhe: ‘Vá, não fiques triste. Eu continuo a acreditar em ti.’ E a verdade é que o Toshack levou o Carlos Xavier para a Real Sociedad, juntamente com o Oceano. Nos treinos, o Toshack também era um prato. Quando se punha a rematar, aquilo era cada pastilha, vai lá vai!”

E a saída do Sporting? “Ele e o Rocha tiveram um problema que desconheço. O Toshack dava respostas tortas a qualquer um, tipo ‘eu é que sei porque quem treina aqui sou eu’ e o presidente, que foi o melhor que vi em toda a carreira [Pedro Gomes jogou no Sporting de 1961 a 1973, com seis títulos, um deles a Taça das Taças], também não se ficava. Quando os dois me falaram da saída de Toshack, eu também apresentei a demissão, algo desaprovado por Toshack: ‘No, no, tu te quedas. Sin discusión.’ E fiquei nos últimos dois jogos [1-3 na Luz e 4-0 ao V. Setúbal em Alvalade]. Nos primeiros dias sem Toshack, ele ainda andava por lá a tirar papéis da secretária e ficou muito espantado com os meus métodos de treino, diferentes dos dele. Perguntou-me o que era aquilo, disse-lhe que era a minha maneira de treinar e acho que ele ficou amuado mas continuámos amigos, tanto que ainda nos falamos. E ele, como eu, ainda tem uma lapela de diamantes do Sporting, oferecida pelo João Rocha. A oferta sensibilizou Toshack, que só foi para a Real Sociedad graças ao Rocha, o presidente que entrava no balneário e abanava as toalhas na cara dos jogadores. Aquilo é que eram tempos…”

Fonte: ionline.pt

Data: 19/05/2010
Local: Jornal i
Evento: Entrevista a Pedro Gomes

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