RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quarta-feira, Julho 08, 2020

Um dia diferente com Toshack – Futebol, golfe e tostas


São 9 horas e trinta minutos. A temperatura é amena, mas o céu promete um dia cinzento. John Toshack surge no «hall» do hotel. É a hora marcada. Um dia na vida… portuguesa do galês treinador do Sporting a ser cumprido na companhia da «Foot». Os hábitos e os costumes de um técnico estrangeiro, para mais solitário, em Portugal, iam ser dissecados numa mão cheia de horas sem futebol. Ou, com o menos possível.

Toshack nada programou para a «Foot». O dia ia ser, pois, apenas mais um dia dos muitos que já passou no nosso país e no Sporting. Afinal, um dia calmo, normal, que começou assim: «O tempo não está muito bom para as fotografias.» O Pimentel faz o que pode. Toshack é exigente consigo próprio, quando sente o matraquear da máquina. Sorri, é amável e cumpre à risca a sua condição de figura popular.

Pouco depois, estamos em Alvalade onde o treino da manhã tinha de ser cumprido. Toshack entra, já praticamente equipado. Saúda quem o saúda, sorri pelo mesmo objectivo e brinca com um ou outro garoto que o interpela. Pouco depois está no relvado secundário, a dirigir uma sessão de treino da melhor equipa de futebol do clube «leonino». Dá-nos, pois, tempo para recordar a razão que o leva a viver num hotel, em detrimento de um apartamento. Exactamente, a solidão. Toshack explicara-nos como a detesta, como sente a falta da família: «O hotel permite-me não estar só, vejo gente a passar constantemente, vou ao bar, converso, enfim, não me sinto tão só. Num apartamento aborrecia-me. Não sabia o que fazer ao tempo livre. É que não estou com a minha mulher e os meus três filhos. Sinto muitas saudades deles. Quando cá estiveram, de férias, algum tempo, ficámos na Quinta da Marinha…»

Os olhos, pouco expressivos de Toshack, brilharam então. Dentro de dias, iria passar um curto período de férias a Inglaterra. la rever a família, que uma semana depois retribuiria a «visita» a Toshack, em Portugal. O Campeonato parava por causa da selecção nacional e este galês, corpulento, não podia falhar.

Lá longe, no relvado, assistia e comandava a «pelada» dos seus pupilos. Íamos já perto das 11 horas e recordámos o diálogo de uns dias atrás: «Mister, então fica combinado que não o largaremos um só instante? »

– Ok!

– Às oito horas, no hotel, não é? Toshack abanou a cabeça: «No, no. At 8.00 is so early. Tão cedo não, por favor. É escusado. »

O treinador do Sporting, afinal, não é madrugador. Como nós!

Os jogadores recolhem aos balneários. Toshack olha de novo o céu e não parece satisfeito:

«Estou sempre à pensar ir jogar golfe para o Estoril, mas o tempo… Espere aqui um pouco que volto já. Depois vamos ao hotel para eu mudar de roupa e seguimos para o Estoril. O fotógrafo vai lá tirar fotos, não vai?»

– Vai sim, mister. Mas… e o almoço?

Toshack já não ouvira mas, pouco depois, ficávamos a saber que íamos jejuar um almoço.

De regresso ao hotel:

«O tempo “não estar bom”, um pouco de vento, mas, mais importante ainda é poder estar ocupado durante algumas horas, antes do jogo particular que vamos fazer logo a noite. »

– O almoço, mister?

«Eu sei, aqui em Portugal é que se pode ocupar o tempo a comer. Não havia problema, bastava ficar o tempo todo a comer» (sorri).

Um ar de reprovação e depois:

«Não, almoçar não, uma tosta mista sim, e, depois, Estoril. Os hábitos aqui são muito diferentes. Eu gosto muito de comer em Portugal. Boa comida, bom peixe, “very good fish’ (repete para si). Mas comer duas vezes num dia é muito.»

– Muito?

«Sim, eu gosto de jantar só uma tosta, uma salada, quando almoço bem. Mas também não gosto de almoçar muito e, depois, o jantar é demais para mim.»

Aquilo intrigava-nos. Será que no País de Gales não se come?

Toshack explica-nos, no seu português, com «excertos» da sua língua natal: «Se almoço bem não janto, se não almoço, janto bem, mas nada em excesso.»

«Por exemplo – questiona – não é normal aqui em Portugal comer-se às 17 horas, pois não? Sim, os hábitos aqui são muito diferentes».

Já no hotel, dirigimo-nos ao bar. Toshack pede duas tostas e dois cafés e solicita-nos mais uns minutos para ir mudar de roupa. Foram mesmo uns minutos. As tostas duraram pouco tempo. Toshack não deitou açúcar no café: «Eu já sou suficientemente doce, não preciso de mais açúcar.»

Falamos de muita coisa. De futebol, de lesões, enfim, Toshack lamenta com um encolher de ombros, a «falta de sorte» que tem batido à porta de Alvalade. Durante todo o dia, aliás, Toshack compara as diversas situações que se nos deparam, com o futebol. No automóvel, no golfe, na esplanada do Estoril e por aí fora.

«Em 25 jogos, duas derrotas: Penafiel, que ainda não entendo e, em Minsk, pouca sorte.»

Penafiel e Minsk estão, de qualquer das formas «atravessadas» no espírito do técnico «leonino». Mas diz que é futebol «e um treinador que não tem sorte tem de ir procurá-la».

«Os portugueses falam cedo demais. Se o treinador vence os 10 primeiros jogos, logo dizem que é o melhor do mundo, mas e se perde os 10 jogos seguintes? Que vão dizer, depois? Afinal, só no final do Campeonato se pode falar, analisar e dissecar a temporada.» Toshack fala dos seus jogadores e dos maus hábitos que alguns tinham quando chegou ao Sporting. Justifica (talvez) com o campeonato anterior. Cita apenas Damas, para si, o melhor guarda-redes português. As tostas já lá vão. Toshack dirige-se à recepção e vem de lá com um «sacão» enorme, repleto de tacos de golfe. Um saco à profissional.

O recepcionista atira-lhe uma «boca», aos maus resultados do Sporting. O técnico procura responder. Esta cena deve-se repetir, diariamente, no «hall» daquele hotel.

Já dentro do seu automóvel, um Opel 1604, curiosamente verde, Toshack fala de golfe: «Em seis meses em Portugal, esta é à quarta vez que vou jogar golfe. O futebol não me deixa tempo e eu gosto bastante de jogar. No Verão é que jogo mais vezes.»

E joga alguma coisa?

«Tenho um handicap 10» (os entendidos deverão perceber).

O técnico galês procura sempre exprimir-se em português: «mas é uma língua difícil, só que é muito importante para um estrangeiro que está em Portugal falar o português. E é simpático. Eu não falo bem, mas já me faço entender.»

Uma travagem brusca lembra-lhe que «o condutor português também é difícil» (sorri).

«Quando estamos parados no vermelho, assim que cai o verde, logo buzinam. E eu faço (o gesto) calma, o futebol é um jogo de paciência. »

– Em Inglaterra, o volante é à direita…

«Pois é mas eu estou habituado. Já passei férias em Espanha e vinha muitas vezes a Portugal. Estou habituado. Volante à esquerda para mim não é problema… Pode ser é para os outros» (volta a sorrir).

Na auto-estrada, Toshack volta a pedir explicações de português para se referir a determinado pormenor que lhe chamou a atenção. Uma vez mais vem à baila a dificuldade da nossa língua. E explica:

«O português tem muitas palavras para dizer a mesma coisa. Não é nada fácil. »

– Diz-se que o mister fica zangado quando o tratam por inglês?

«Não, não fico zangado, mas você também não gostaria que eu lhe chamasse espanhol, pois não?» Fala-nos do País de Gales, das semelhanças com Portugal, «até no pequeno tamanho, que faz as pessoas mais unidas».

Só se for em Gales: «isso é política? Bem, eu prefiro futebol, mas quando quero tomar uma decisão, voto. Política é para os políticos e o futebol é para as pessoas do futebol. Só que, às vezes, a política interfere no futebol. Mas em relação aos galeses e portugueses, penso que existem muitas coisas em comum. Seja como for são dois países pequenos. Podem-me chamar “british”, por exemplo, que não está errado, mas prefiro ser galês, e pronto. Ibérico também não lhe soa bem, pois não?»

Entramos na marginal. Toshack prefere à música calma de Dione Warwick que uma cassete reproduz.

«Quando cheguei a Portugal sabia dizer “sim”, “por favor e “obrigado”. Por tudo e por nada estamos a dizer, “sim”, “por favor e “obrigado”. São as palavras mais usadas e importantes. Em todas as línguas.»

Conta-nos que os seus primeiros dias úteis em Portugal passou-os ao volante de um automóvel, sem destino certo: «Assim fui conhecendo os caminhos e hoje é para mim muito fácil ir para qualquer lado.»

Chegamos ao golfe. Toshack prepara-se para as fotos da praxe. Dá as primeiras tacadas. Explica-nos o jogo. Fala em 18 buracos e tem dificuldades na pronúncia. Repete, vezes sem conta, «buraca, buraca» e raramente sai dali. O mesmo acontecia com as «pobres» árvores. Por ele tão «maltratadas». Um adepto do Sporting, que conhecia o presidente João Rocha e tudo oferece-se para adversário do técnico galês, que recusa, amavelmente. Prefere jogar só. Dos 18 buracos (ou «buracas») só pretende jogar nove. Não nos atrevemos a lembra-lhe a falta que faz um almocinho. Por mais ligeiro que fosse. Mas o dia era dele, pronto. Surgem as primeiras tacadas. Vê-se que tem jeito, mas pouco treino. Falha o primeiro buraco, naquilo que devia ser uma tacada fácil. E ele compara: «Hum, é mau, pouca sorte, como no Sporting. Mas deve-se insistir sempre, sempre para a frente. Na vida não há lugar para pessimismos.»

Seguimos Toshack como uma sombra. Andamos quilómetros e quilómetros. De estômago vazio. Resistimos (ou tentamos) estoicamente.

Toshack repete, alheio ao «resto»: «A prática é tudo. Quando era jogador de futebol no Liverpool e marcava um golo de cabeça, depois de a bola bater na trave, diziam-me que era sorte, mas eu respondia que não, aquilo acontecia por causa do treino. Se não tivesse praticado muito, se calhar nem acertava na bola. »

E lança uma máxima. Sua: «Todas as coisas vêm para as pessoas que as esperam!»

Já vamos no terceiro ou quarto buraco. De quando em vez, Toshack volta a falhar uma bola fácil e, de quando em vez, surge uma «asneirada», desta feita em bom português.

Volta ao futebol por momentos, para garantir que «é um bom jogo quando… se ganha». interrompe, com a paisagem, magnífica, aliás: «Gosto muito de Portugal e dos portugueses.»

Depois fala de golfe, de Ballesteros – «o meu ídolo» – e de outros golfistas que a nossa ignorância desconhece. Citamos-lhe o exemplo de Humberto Coelho, um possível adversário de Toshack que desconhece «o seu handicap». Handicap? Está bem!

Diz-nos que gosta ainda de ténis e de rugby. «No meu país, todos os estudantes são obrigados a jogar rugby. Por isso é o desporto mais popular e nós somos bons.»

Chegamos, finalmente, ao último buraco. A última tacada. Mais umas explicações de golfe e outras tantas do futebol do Sporting.

Voltamos ao carro. Finalmente, uma esplanada no Estoril permite-nos devorar agora mais uma tosta. Apanhámos a mania. Toshack gosta de Cascais e do Estoril. Gosta de viver fora das grandes cidades e cita o exemplo das casas em que viveu, enquanto jogador de futebol. Hoje, a família vive numa quinta, a 20 quilómetros de Liverpool. Fala-nos, depois de José Torres «que tem afinal mais conjunto na selecção» do que ele no Sporting.

E o melhor jogador português?

«Varia de uma semana para à outra» – responde «Tosh», com ironia.

Uma pausa para voltar a lembrar-me da família. São três filhos, de 10, 12 e 14 anos, respectivamente. De dois em dois anos, parece estudado: «É, foram cinco anos – três filhos e depois… comprei uma televisão!»

E o efeito está à vista. Toshack ri-se e fala com ternura dos filhos: «Somos uma família de desportistas. Os meus filhos de 14 e de 10 anos jogam futebol e o de dez joga também golfe. E olhe que ele é muito bom. A minha filha joga ténis

Minutos depois estávamos, de novo, na estrada. Nos buracos que não eram do golfe. «Aliás, são mais que os 18 do golfe» – diz o técnico «leonino».

O fim da tarde aproxima-se, Toshack sobe de novo ao primeiro piso do hotel. Para descansar. Antes, diz-nos que janta sempre mais tarde que em Gales, e fora do hotel. Também se deita mais tarde que no seu país, entre as 23 horas e a meia-noite. Despede-se, fala ainda de futebol, da «guerra» Porto-Sporting que não entende «como é possível» e lembra que, à noite, tem um jogo particular.

Umas horas depois, lá estava em Alvalade. Para o ritual do costume. Daquela vez ganhou. Precisa de voltar ao golfe!

Fonte: Revista «Foot»

Data: 17/03/1985
Local: Revista Foot nº5 - Março 1985
Evento: Entrevista a Toshack

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