RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Domingo, Dezembro 08, 2019

Entrevista a José Mendes: «Vamos fazer melhor do que o ano passado, mas quanto ao título é cedo para pensarmos…»

José Mendes, durante o treino.

O Sporting, a equipa que comanda o campeonato, está a ser precisamente a turma que menos jogadores tem na selecção nacional, exactamente seis, sendo três na «A e três nas «Esperanças», o que nos parece bastante significativo até por estarmos a ver na turma de José Maria Pedroto algumas figuras que pouco rendimento têm estado a dar nos seus clubes. Para os interesses sportinguistas pois este facto é sobremaneira positivo, pois melhor pode Jimmy Hagan trabalhar o seu «timinho» ao contrário do seu compatriota Mortimore que chegou há dias a ter apenas três pedras para treinar o que praticamente não valia a pena.

De entre os «AA» do Sporting encontra-se precisamente, o nosso entrevistado de hoje. Quisemos trocar com ele algumas palavras, mais sobre si e a equipa de que faz parte mas não podíamos, compreensivelmente, deixar de focar o assunto selecção.

Após termos aguardado o banho reparador depois de mais uma «coça made in Hagan», a primeira pergunta surgiu:

– Gostávamos que nos dissesse como se sente, no aspecto físico, como justifica a sua boa forma e da equipa do Sporting e o porquê da sua opinião. Poderá sintetizar-nos estes temas?

– Concerteza. No que respeita ao meu caso sinto-me totalmente bem, como todos os meus colegas do Sporting. E uma nota ainda mais positiva é que este estado não se circunscreve apenas é parte física, como, até, no aspecto moral e psíquico.

– Quer isso dizer que houve uma boa adaptação aos sistemas de Jimmy Hagan?

– Sim, adaptámo-nos bem, isto apesar de ser um treino bastante diferente aquele a que estávamos habituados.

– Ao referir «treino bastante diferente ao que estávamos habituados» que quer dizer?

– Que na realidade os processos de Hagan diferem muito do que fazem a maioria dos portugueses. Repare, por exemplo, neste caso. Enquanto os técnicos nacionais, na sua grande maioria, dividem o treino semanal por fases, fazendo-se em cada dia apenas uma coisa, o nosso treinador faz tudo durante cada treino. Desde o simples correr, passando pelo treino individual com bola, ao treino de conjunto, isto já não falando na parte da ginástica, que como ainda há momentos viu é bastante rija, de um poder físico enorme e, ao mesmo tempo permite que não nos cansemos durante o treino com o repetir de exercícios quantos deles maçudos. Essa diversidade de obrigações diárias, aliadas ao espírito de camaradagem e de boa disposição que o «mister» imprime ao treino dá-nos uma auto-confiança cujos resultados positivos parece estarem à vista.

– Sendo assim estão satisfeitos, apesar do cansaço a que são sujeitos diariamente?

– O cansaço foi apenas nos primeiros dias. Alguns de nós andávamos mesmo nas «lonas», ou julgávamos que andávamos. Hoje, todos nós, habituámo-nos e fazemos o treino com a maior das facilidades, nada de esquisito se passando, bem pelo contrário. Nos mais pequenos pormenores da nossa vida sentimos as enormes vantagens do sistema que o técnico nos tem dado e que nos faz manter o mesmo ritmo do princípio ao fim no decorrer dos encontros.

Com a bola nos pés, Mendes apenas pensa na baliza adversária. Ei-lo na preparação de mais um ataque do Sporting.

– Mas no Montijo a coisa parece não ter corrido lá muito bem. Teria sido por culpa do terreno excessivamente encharcado?…

– Em parte foi – diz-nos sorrindo como compreendendo bem onde queríamos chegar – mas não se tratou de perda de força da equipa. Terreno pesado (que aguentamos bem), adversário complicativo, repare que o Porto já lá tinha perdido um ponto, e nem sempre as coisas correm pelo melhor. O que não foi, isso nunca, foi falta de poder da equipa.

– Diz-se que o Sporting está a ser a equipa dos últimos quarenta e cinco minutos. Concorda com este ponto de vista?

– Tenho lido isso nos jornais. Aceito todas as opiniões mas com essa discordo, e discordo porque já realizámos boas partidas na primeira e na segunda parte e nalguns casos nesse período final não fomos nada famosos. Essa imagem deve ter ficado em muitos pelo que se passou com o Benfica aqui em Alvalade. Não encontro outra justificação.

A conversa continuava. Sporting mantinha-se como «vedeta». Daí nova pergunta sobre a turma leonina».

KEITA DEU À EQUIPA A ACUTILÂNCIA DE QUE NECESSITAVA

– Que influência lhe parece ter tido a entrada de Keita na sua equipa?

– Keita como todos nós sabíamos, é um jogador excepcional de grande craveira e que veio trazer mais acutilância ao ataque, exactamente aquilo de que necessitávamos.

– E o Camilo, que muitos pensam ser esquecimento imperdoável o seleccionador tal a maneira como está a actuar na sua equipa?

– Não sendo tão credenciado poderei dizer-lhe que o considero um bom jogador, como aliás o tem demonstrado bem todas as suas recentes actuações no primeiro «team».

– Não se compreende bem então a sua dispensa na temporada anterior, não é verdade?

– Não nego que na temporada anterior ele justificasse a chamada à equipa, ou pelo menos um maior número de oportunidades, mas note que o ano passado a sua inclusão se deve ter tornado mais difícil porque tínhamos o Nelson, que ocupava bastante bem o lugar e de quem o treinador de então gostava, e o próprio Chico, quando jogava um pouco mais atrasado e que dava à equipa a força que naquele lugar necessitava. Contudo a sua dispensa não foi bem aceite pela maioria dos colegas que viam nele um moço com valor como aliás está devidamente comprovado.

– Como vê o campeonato, tendo em atenção os resultados que as principais equipas têm estado a alcançar? Acha que o Sporting, apesar de estarmos ainda longe do fim pode já ir começando a preparar as faixas de campeão?

– Nem pensar nisso. Nem eu, nem os meus colegas pensamos ainda numa coisa dessas. O ir à frente neste momento não quer dizer que tudo esteja ganho. A prova é muito extensa, enormes dificuldades, as baixas de forma às vezes surgem quando menos se espera e daí nem nós poder-mos considerar campeões – longe disso – nem as equipas que se encontram nos lugares de despromoção podem dizer que não têm ainda hipóteses de fugir a essa sina.

Digo-lhe mesmo que quer o Benfica, como o Futebol Clube do Porto e até o Boavista que caminha no fecho da classificação, ainda podem vir a fazer um campeonato bastante bom e a subirem até posições neste momento para muitos dadas como impossíveis. O campeonato ainda está longe do fim. Por isso adiantar, seja o que for, ou sonhar alto, como se costuma dizer, é prematuro.

Tema Sporting estava esgotado. Virámos pois de rumo e voltámo-nos para a selecção nacional. Pusemos o problema ao nosso interlocutor que logo nos foi dizendo:

– Para mim o último Portugal – Polónia só teve para a equipa nacional um contratempo: – o estado calamitoso do terreno. Jogar num retângulo daqueles, onde só havia lama, pesadíssimo, defrontarmos um futebol poderoso como o polaco, era fatal que melhor não poderíamos ter conquistado. Aliás os polacos, além do seu poder físico, ainda tinham a vantagem de estar a jogar com um tempo a que estão habituadíssimos, pois lá o inverno é bastante mais rigoroso do que o nosso. Daí pensar que não devem ser assacadas quaisquer culpas a este ou aquele jogador, à equipa no seu conjunto ou ao seleccionador. A culpa foi do estado do tempo de uma ingratidão para nós.

O jogo estava prestes a iniciar-se e Mendes, transportando o esférico, dirige-se para o terreno. A multidão aguarda o início de mais uma vitória.

– Quer então dizer concordar com o «team» arquitetado por Pedroto?

– Absolutamente. Até o meio campo que tão criticado foi me parece ser o meio campo ideal no momento que passa. Aliás, não tenho dúvidas, tão pouco habituado está o jogador português em actuar naquelas condições que fosse qual fosse a equipa o resultado seria mais ou menos o mesmo. Positivo é que me parece que ele não conseguiria ser.

– E se não tivesse chovido?

– Há, isso seria bem diferente. A tal linha média de que tanto falou poderia ter virado totalmente o desenrolar do jogo, especialmente pelas jogadas de mestre que quer Octávio como o Alves são, como pelo muito jogo que certamente dariam à frente. Mas como apenas temos de olhar para as realidades…

– Resumindo: – Você confia no Sporting para o título e quanto à selecção?

– Não é bem assim. No que respeita ao Sporting estou certo de que vai fazer uma carreira melhor do que a época passada e que vai ficar entre as equipas que têm acesso a uma competição europeia. O título, pelo qual todos lutaremos até ao fim está sujeito a muitas contingências que adivinhá-las se torna impossível. No que se refere à selecção nacional, reconheço que o resultado das Antas foi forte machadada das nossas aspirações mas que também nada estará definitivamente perdido. As hipóteses são poucas, não restam dúvidas, mas enquanto há vida à esperança. Os resultados que irão ser alcançados pela Polónia ditarão o fecho de tudo. Se vencer todos os encontros, o do Chipre é mais do que certo, a termos de ganhar lá por mais de dois golos, vai ser difícil, isto se batermos os outros adversários. Mas se escorregar, o que em futebol sempre pode acontecer, cá estaremos mais confiantes e certos de que na segunda volta a chuva não nos fará novamente a partida de querer «assistir» ao encontro.

Falara JOSÉ MENDES, uma das pedras mais influentes no «leader» do campeonato. Das suas conscienciosas declarações algumas ilações se poderão tirar, pelo menos a certeza de que por Alvalade a calma continua, trabalhando-se com os pés bem assentes no chão e não sonhando com coisas que estão ainda sujeitas a tantos e tantos imponderáveis.

Fonte: Revista «Golo»

Data: 17/11/1976
Local: Estádio José Alvalade
Evento: Entrevista à Revista «Golo»

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