RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quarta-feira, Julho 28, 2021

Foi, de facto, uma Grande Época

Ouve o artigo

É verdade. Foi, de facto, uma grande época. Uma época cheia de conquistas para o Sporting Clube de Portugal, digna de registo e que reforça o estatuto do Clube enquanto maior potência desportiva nacional. Uns dizem que foi a melhor da História do Clube, embora outros argumentem que não foi a que trouxe mais títulos, ao que os primeiros contrapõem que o título de campeão nacional de futebol acrescenta um peso especial a esta época.

Sinceramente, é-me irrelevante qual é a melhor época da História do Sporting. Todas as épocas torço para o Sporting vencer nas modalidades todas, portanto, o ideal era mesmo fazer o pleno constante. Porque, como muito se ouve dizer por aí, os títulos serão sempre do Sporting Clube de Portugal e não dos presidentes.

É um conceito bonito e, fundamentalmente, verdadeiro. Realmente, os títulos ficam no Museu do Sporting, não vão para casa do líder máximo do Clube. É também, no entanto, um conceito que já se tornou desgastante de ouvir, por tantas vezes ser usado pelos “moderados” como pretexto para não ter de admitir uma ou duas coisas sob pena de inquinarem a sua ligação com alguém.

Seria muito mais fácil para toda a gente aceitar o atual estado das coisas e dar mérito à atual Direção do Clube, se a mesma não fizesse do revisionismo histórico uma das suas principais armas comunicacionais desde o início do mandato.

Torna-se muito complicado não falar dos méritos da Direção anterior, quando a atual tudo faz para que as massas se esqueçam do trabalho de base que foi feito. Era totalmente impossível ao Sporting, hoje, vencer os títulos que vence nas modalidades de pavilhão sem o investimento que foi levado a cabo pela Direção anterior. É assim tão difícil reconhecer isto?

É a tal história, tão batida, da “herança pesada”. A herança que eu vejo é a de plantéis competitivos em toda a linha, de uma cultura desportiva eclética e exigente e, principalmente, de uma almofada financeira que permite à atual gestão investimentos loucos em treinadores e jogadores, muitos deles completamente ao lado, sem que o Clube (ainda) tenha sido arrasado financeiramente.

A Direção que tinha em “Unir o Sporting” o mote da campanha eleitoral, tudo tem feito para agravar as clivagens. Desde a expulsão de sócios, à forma sonsa como todos os contestatários têm vindo a ser tratados ao longo dos últimos anos, passando pelo reconhecimento nulo do bom trabalho que foi feito anteriormente e pela inexistente democracia que vigora para os lados de Alvalade.

Tendo isto em conta, é perfeitamente natural que haja uma larga fatia de adeptos e sócios que não se revê neste estilo propagandista, revisionista e ditatorial, e que continue a querer os Órgãos Sociais fora do Clube o mais depressa possível. Que haja quem consiga viver bem com tudo isto que se passa, não é problema meu. Cada um sabe de si, e cada um tem liberdade para aceitar melhores ou piores condições e tratamento enquanto associado. Não podem é querer fazer parecer ilegítimo haver quem esteja cada vez mais desidentificado com a vivência Sportinguista, pela constante política de perseguição, mentira e soberba que vigora agora no Clube.

Mais, é completamente desonesto alegar que é interesseiro e mesquinho ser opositor da Direção depois de uma época com sucesso desportivo, quando tivemos um Presidente destituído depois de o Clube se sagrar campeão nas principais modalidades de pavilhão todas, com a agravante de o ter sido, pela primeira vez em muitos anos, em casa própria.

Alegar que o sucesso desportivo impede a contestação é ser-se exatamente igual aos benfiquistas que só começaram a contestar Luís Filipe Vieira depois de a bola deixar de entrar. Vieira foi o primeiro bandido da História que só começou a perder na vida depois de se meter pelos caminhos do crime. Na cabeça dos adeptos do rival, enquanto o benfica fazia tetracampeonatos, não havia qualquer problema, Vieira era um homem honesto e o benfica ganhava de forma limpa. Agora, que atravessam um momento crítico, é que veio à tona que afinal Vieira não é um homem assim tão “de bem”. Curioso.

Um dos movimentos mais hipócritas de que tenho memória. Não é esta a mentalidade que desejo no meu Clube.

Ora, eu recuso-me a levar esta forma de pensar na minha vida quotidiana. A minha contestação a Varandas começou quando o fisiatra se candidatou a eleições que não estavam marcadas, sequer. Até me podia oferecer a Lua. Nada está em causa além de valores que me recuso a negociar, seja sob que circunstâncias for.

Disputas políticas à parte, a época desportiva 2020/2021 foi, de facto, uma grande época. Nunca tinha visto o Sporting ser campeão nacional de futebol, e estava convicto que não era esta época que iria ver. Depois de batido o recorde de derrotas numa época futebolística, a equipa guiada por Rúben Amorim conseguiu, contra todas as expetativas, vencer o Campeonato. Um feito merecido, apesar de eu achar que todos os astros estiveram alinhados a nosso favor para que esta conquista acontecesse.

O campeonato de futebol - talvez a conquista mais aclamada da época.
Campeões Nacionais de Futebol, dezanove anos depois.

Tivessem algumas equipas da nossa História tido um décimo da fortuna que tivemos nesta temporada, e teríamos, certamente, muito mais títulos destes. Temo que na próxima época não beneficiemos de tantos golos caídos do Céu nos últimos instantes das partidas e que isso, aliado a dois rivais sedentos, torne a repetição da conquista muito mais difícil do que já foi a deste ano.

Contudo, para infelicidade dos nossos rivais, pontas de sorte não são ilegais. Fazem parte do desporto, e, segundo o ditado, protegem os audazes. Foi, talvez, o triunfo mais querido pelos adeptos, que já ansiavam por celebrar um título destes há duas décadas e foram privados de o fazer tantas vezes.

Aliás, e rebobinando a cassete até à primeira temática deste texto, uma das maiores desonestidades intelectuais que vi por aí, na altura desta conquista, foi usar este título para enaltecer o atual mandato, em comparação com os da anterior Direção. Entristece-me ver Sportinguistas com memória muito curta. Sportinguistas que, em 2015/2016, viram uma das equipas que melhor futebol praticou na era moderna do futebol do Sporting ser completamente roubada de um título de campeão nacional pelo Polvo dos emails e dos vouchers. Sportinguistas que, para denegrir por comparação uma Direção do Clube, fingem que não sabem porque é que o Sporting não se sagrou campeão formal sob a vigência da Direção de Bruno de Carvalho.

As palavras de Bruno de Carvalho<br /> que deram origem ao caso dos vouchers  - Benfica - Jornal Record
Bruno de Carvalho denunciou os vouchers que o benfica oferecia aos árbitros, ao vivo na TVI 24, numa altura em que o Sporting se distinguia pela luta contra a corrupção no futebol português.

Ainda bem que fomos campeões de futebol este ano, mas é muito feio ver adeptos do meu Clube fazer de conta que não sabem porque é que a Direção anterior não foi campeã em 2015/2016 e, diga-se, até em 2013/2014. Mais, quem diz estas épocas, pode também falar de 2006/2007, por exemplo, em que o Sporting terminou o Campeonato a um ponto do vencedor, tendo perdido um jogo com um golo marcado com a mão.

É certo que o título escapava há demasiado tempo, mas apesar de a Direção de Frederico Varandas ter sido a que trouxe de volta esse troféu ao Clube, é fundamental não esquecer que não fizeram à equipa de 2020/2021 o que fizeram a muitas outras equipas do Sporting no passado.

Sabendo que proferir isto, principalmente no clima de euforia que se vive atualmente, é o suficiente para ter centenas a cair-me em cima, ninguém me tira da cabeça que uma das maiores razões pelas quais este ano não assistimos a um total furto do título de campeão nacional é a associação cada vez maior a Jorge Mendes – tema abordado e explorado até à exaustão.

Atualmente, no mundo do futebol, tudo tem um preço. O anterior Presidente do Sporting (e, consequentemente, o próprio Sporting) pagou um preço enorme por não aceitar associar-se a Mendes nem ceder às suas exigências em 2018. Tenho absoluta convicção que se Bruno de Carvalho tivesse enchido os bolsos a Jorge Mendes através de negócios com vista à venda dos rescisores, as coisas se tinham passado de forma muito diferente. Como a prioridade foi a defesa dos interesses do Clube, levando os rescisores a tribunal e exigindo o valor das cláusulas, foi-lhe feita a cama.

Ou os Sportinguistas acham mesmo que a intransigência de Bruno de Carvalho, nesse aspeto, não foi a principal causa de tudo aquilo que aconteceu a seguir ao “ataque” à Academia?

Talvez achem. Afinal, estamos a falar de uma massa adepta que criticava o “carrossel”, os “mendilhões”, as vendas do rival a preço de tabela, mas que, curiosamente, quando vê o Sporting a dever cada vez mais a empresários (nomeadamente à Gestifute) e a negociar quase exclusivamente com clubes desse mesmo “carrossel”… tenta arranjar desculpas para justificar esses factos. Ou acham que o Sporting é um Clube especial para Mendes, e que connosco as coisas são feitas de forma diferente?

Para perceber o quão integrado o Sporting está no “carrossel”, basta olhar para a mais recente contratação do Sporting, Rúben Vinagre, a quem desejo tudo de bom com a camisola leonina vestida. O Sporting adquire apenas 50% do passe do jogador pela quantia de 10(!) milhões de euros. Vinagre vem do… Wolverhampton, depois de estar emprestado ao… Famalicão (de quem, como se ouve falar, o Sporting também quer 50% de Ugarte) e ao… Olympiacos. Lembre-se que, pela mão de Mendes, já tinha sido levado a custo-zero do Sporting para o… Monaco.

Penso não ser necessário fazer um desenho.

A mais recente contratação do Sporting, Rúben Vinagre.

Pede-se aos Sportinguistas mais juízo, atenção e, àqueles que têm plataforma para isso, clareza e presença de espírito para alertar os outros.

É uma temática que já me faz sentir repetitivo na minha escrita. A forma como muitos dos Sportinguistas com voz, seja nos meios de comunicação social ou nas redes sociais, não a aproveitam para chamar a atenção dos demais para estas práticas nocivas a longo-prazo e que cheiram a esturro por todos os lados. Dá-se preferência a temas para “encher chouriços”, fala-se de futilidades, tudo o que não ponha em causa reputações e amizades. Conteúdo relevante? Zero.

É o que é. E não é por eu continuar a bater nesta tecla que assim vai deixar de ser. É uma das máximas da criação de conteúdos: enquanto houver quem os consuma com o gosto com que vejo os Sportinguistas consumir futilidades e distrações, não há como dizer que os conteúdos não fazem sentido. É uma questão de mentalidades.

Deixando para trás este aparte, é hora de mencionar as restantes modalidades do Clube.

Naturalmente, o objetivo não é alongar-me numa análise profunda a cada modalidade, até porque o ecletismo do Sporting Clube de Portugal não me permitiria fazê-lo sem dissertar por linhas sem fim. Quero, no entanto, manter a toada do texto até então, louvando as imensas conquistas desta época e deixando alguns avisos que considero necessários.

Indo por partes, primeiro quero destacar os títulos europeus (re)conquistados pelas secções masculinas de futsal e hóquei em patins. Voltaram a reinar na Europa e, principalmente o futsal, sem deixar qualquer margem para dúvidas sobre qual é a melhor equipa do Velho Continente. Mostraram a força do Sporting Clube de Portugal e elevaram o nome do Clube ao mais alto nível possível. Simplesmente brutal.

Mais que isso, conseguiram fazê-lo tanto na Europa, como a nível nacional, vencendo também os respetivos campeonatos nacionais (sendo que o futsal venceu ainda a Taça da Liga).

Histórico e épico! Sporting faz reviravolta incrível e sagra-se campeão  europeu de futsal - Futsal - SAPO Desporto
A conquista da UEFA Futsal Champions League foi o ponto máximo de uma época sublime do nosso futsal.

São duas modalidades muito pujantes e que, se for mantido o investimento em jogadores de qualidade para substituir os que forem saindo e, principalmente, se tudo for feito pela manutenção dos treinadores que já deram mais que provas suficientes da sua capacidade vencedora, têm tudo para continuar a trazer alegrias aos Sportinguistas.

Estas conquistas europeias (bem como as de 2019) são a prova de que o investimento que vinha a ser feito nas modalidades de pavilhão pela anterior Direção é o caminho a seguir. Muito se falou dos valores que o Sporting investia, muito ruído houve à volta daquilo que era, ou não, razoável… A verdade, é que sem esse investimento, estas equipas não teriam a capacidade de conquistar as provas mencionadas. Os títulos são do Sporting, e se a Direção atual tiver interesse em manter esta linha vitoriosa (tendo, obviamente, em conta que não é possível ganhar sempre), terá de manter o investimento. Caso contrário, é impossível competir a este nível. “Fazer mais com menos” é conversa para tolos. Um Clube como o Sporting Clube de Portugal tem de fazer mais com… mais.

Infelizmente, no andebol e no voleibol não se tem tido o mesmo nível de sucesso. São duas modalidades que têm descido de nível a olhos vistos. O voleibol conseguiu uma Taça de Portugal, mas, por muita felicidade que esse título (me) tenha trazido, é importante admitir que essa vitória foi uma exceção à regra daquilo que foi a temporada – o desnível para o maior rival ainda é muito grande.

Vejo alguns críticos da anterior Direção dizer que a quebra no andebol se deve aos elevados contratos de jogadores com alguma idade. A verdade, é que foram esses jogadores que nos deram o bicampeonato e as boas prestações europeias. É injusto dizer que se pensou no presente e não no futuro, quando, efetivamente, no presente ganhávamos e do futuro… essa Direção foi privada através da injustiça de 2018.

A dualidade entre estas duplas de modalidades pode dar a entender uma coisa – as duas que foram mais mexidas pelos atuais dirigentes, são as que estão pior. Será um caso de “toque de Midas inverso”? Esperemos que não, porque, inevitavelmente, vai ser preciso mexer mais nas outras modalidades todas. Penso que a próxima época vai ser o tira-teimas em relação, tanto ao futebol, como a algumas modalidades de pavilhão.

Para completar o pentágono das principais modalidades de pavilhão, tenho de felicitar o basquetebol que, neste caso, é exclusiva responsabilidade da atual Direção. Foi uma aposta pós-Bruno de Carvalho com que eu não concordei, pois ao mesmo tempo que floresceu esta equipa, viu-se outras modalidades enfraquecer, cujos protagonistas não mereciam esse enfraquecimento.

No entanto, os nossos basquetebolistas conseguiram uma “dobradinha” com competência e perseverança, depois de terem começado muito bem a época e de, a meio da mesma, terem tido uma quebra que assustou os adeptos. Louvo as conquistas e espero ver mais do mesmo na próxima época.

Num campeonato disputado até ao fim, o Sporting sagrou-se campeão, conquistando uma “dobradinha”.

De resto, e porque o texto já vai (muito, muito) longo, felicito também, de forma breve, todos os intervenientes, masculinos e femininos, nas conquistas do atletismo, ténis de mesa, râguebi e tantas outras que fizeram desta época, uma época inesquecível para os adeptos do Sporting Clube de Portugal.

Finalizo insistindo em pontos que considero absolutamente cruciais para os Sportinguistas, nos dias que correm:

  • Não deixem que a euforia de conquistas vos tolde o raciocínio. O sucesso desportivo é, naturalmente, o fator mais importante de avaliação do trabalho dos profissionais responsáveis. No entanto, é importante perceber que essa avaliação tem de ser feita num todo e não com base numa época apenas. Basta pensar que há duas épocas estávamos a bater recordes de derrotas no futebol. Pode significar que houve evolução, mas também pode significar que as coisas são feitas com base na fé e no “E se corre bem?”. Coisa que, a longo-prazo, vai inevitavelmente dar asneira;

  • Tenho muita curiosidade para ver se, no futebol, o sucesso é repetível. Acho que na próxima época, com mais jogos, outras expetativas e a impossibilidade de surgir mais uma dezena de golos nos descontos, vai ser trazida ao de cima a real valia da equipa técnica e do plantel (o que pode ser positivo, ou negativo).

  • Os títulos serão sempre do Sporting Clube de Portugal. Tenho apenas pena que isso sirva como desculpa para deixar passar em claro políticas revisionistas e de desprezo para com quem fez tanto pelo Clube;

  • Como adepto, não tenho obrigação de dar descontos nenhuns a gente cujos valores são diametralmente opostos aos meus. Não sou adepto de pazes podres, nem de baixar as calças quando sou maltratado e ignorado enquanto sócio do SCP;

  • Estou cada vez mais em paz comigo próprio por saber que faço o que posso, e que o rumo que o Sporting tomar, vai ser sempre o que a maioria dos sócios e adeptos permitir. Se decidirem fechar os olhos ao óbvio e deixar as coisas rolar, o Clube tornar-se-á num entreposto oficial de Jorge Mendes. Pior, poderá vir a dar-se a venda da SAD a dada altura. E, nessa mesma altura, dar-se-á o fim da minha identificação com aquele que tem sido, ao longo de 23 anos, o grande amor da minha vida.

Viva o Sporting Clube de Portugal. Sempre.

Artigos relacionados