RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quinta-feira, Abril 22, 2021

Once Upon a Time: Sporting Clube de Portugal

Esta não é uma história de encantar, não é um conto de fadas, embora contenha bruxas, feiticeiros e feitiços, nem é uma história que se conte às crianças para adormecerem, embora os seus protagonistas tenham adormecido e deixado acabar a história, seja por ignorância, negligência ou simplesmente por serem mansos, crédulos e ingénuos.

Esta é uma história que no que resta dos tempos se vai contar no passado, tal como na Guerra das Estrelas “a long long time ago”. Será um conto nostálgico e que provavelmente fará parte dos compêndios, um clássico, um exemplo que se dá na escola de como não fazer as coisas.

Era um vez, há muito muito tempo, um clube chamado Sporting Clube de Portugal. Esse clube vivia numa luta interna permanente, entre os seus ditatoriais governantes que achavam que o clube era o seu clube de campo, a sua casa de chá, de pasto, e um conjunto de sócios e adeptos da plebe. Estes segundos, no entender dos primeiros, eram uns fedorentos e uns malcriados. “Escumalha”, como em tempos foram chamados.

Estes últimos bem que faziam barulho e tentavam correr com os nobres e burgueses de lá mas estes, alapando-se como polvos preguiçosos e teimosos não saiam, socorriam-se de todos os mecanismos possíveis e imaginários para se eternizarem na liderança da instituição.

O grosso dos adeptos, contudo, em nada se preocupavam com isto, não faziam ideia do que se passava, só seguiam futebol, era a única coisa que lhes interessava, e naquele momento a bola até estava a entrar na baliza, como tal não se podia dizer nada. Criticar? Estamos a ganhar, sacrilégio! Lutar por um clube melhor gerido, com finanças mais saudáveis e baseado na vontade dos associados? Heresia, estamos a ganhar isso é que interessa!

As contas estavam péssimas, devia-se a toda a gente, até ao gato do cozinheiro, já não havia dinheiro para pagar salários, mas isso pouco interessava, afinal a bola estava a entrar na baliza e por isso estava tudo bem.

Começou-se a cortar nas modalidades do clube. Primeiro foi o ciclismo, mas a maioria dos adeptos nem sabia andar de bicicleta, o futebol estava a ganhar, que interessava o ciclismo?

Depois foi a canoagem. Canoagem? Mas que raio interessa isso, uns barquitos? Mas isto é algum clube náutico? Pessoal a remar? Que parvoeira, who cares.

Depois foi o atletismo, pessoal a correr e a saltar, a suar em bica, que coisa tão pouco elegante! Ainda por cima sempre em trajes justos e menores. Que pouca vergonha!

A seguir o judo, pessoal à porrada? Cruzes, credo, isso é tão coisa de bairro social, não tem lugar numa instituição elegante e de bem como a nossa! Em que somos todos amigos uns dos outros e vivemos em paz e harmonia!

Finalmente tudo o resto, o ténis de mesa (Ténis é em courts de excelência, não é em mesitas no café!), o tiro ao alvo (Armas? Mas isso não é proibido? Já chegámos à América?), a esgrima (Espadas? Que coisa tão medieval…), foi tudo fechando, mas não interessava porque o futebol estava a ganhar.

Finalmente a sangria chegou às modalidades de pavilhão. Acabou o vólei, o andebol, o basket, o hóquei, o futsal. Bem, o futsal foi pena, era um mini futebol, jogado dentro de portas, simpático de se assistir quando chovia. Mas o futebol maior, o mesmo a sério estava a ganhar, que interessava isso?

Pelo meio despediram-se funcionários, mas estava-se a meio duma pandemia gripal global, uma chinesa, muito parecida com uma espanhola 100 anos antes.

A comunicação social era amiga, só dizia bem, toda a gente só dizia bem, não tínhamos inimigos, todos gostavam de nós, éramos como no secundário sempre sonhámos, os mais populares!

Quando se chegou ao fim da competição no futebol, a tal que se ganhou matando um borrego de décadas, celebrou-se, o povo saiu à rua vestido de verde, os cachecóis e as bandeiras foram desfraldados ao vento, os dirigentes incompetentes foram glorificados e deusificados.

O clube, esse, estava afogado em dívidas e sem quaisquer fontes de receita. Não havia receitas de bilheteira por causa da tal pandemia, as receitas televisivas já tinham sido todas antecipadas, os prémios pela tal vitória foram todos absorvidos por dívidas emergentes, negócios ruinosos feitos para gáudio de todo o tipo de abutres, desde os dirigentes glorificados até empresários, intermediários e comissionistas.

À beira do abismo financeiro e da insolvência iminente o clube acabou vendido a investidores salvadores, foram feitas promessas demagógicas, juras de solução para todos os problemas, e os sócios e adeptos, babados pela recente vitória no futebol cederam, acreditaram.

Mas os tais investidores de salvadores nada tinham, não passavam duma cambada de mafiosos, que se limitaram a usar o clube para uma série de negócios escuros e pouco recomendáveis. Pretendiam salvar-se as eles próprios unicamente. Acabaram por levar à falência e encerramento da instituição.

Os adeptos ficaram indignados, tanta expectativa, tanta promessa, tanta esperança após aquela vitória gloriosa e afinal tudo se esfumou, Eles estavam convencidos, tal como nos 40 anos mais recentes, que daquela vez é que era! Daquela vez é que iam finalmente crescer e ser a maior potência desportiva do mundo. Mas não foi. E então quiseram eleições, substituir os dirigentes.

Manifestação Sporting

Mas era tarde demais, o clube já não era deles, já não eram eles, já não precisava deles. O futebol que tanto tinham seguido e apoiado pertencia agora a uns credores com uns nomes estranhos, o clube tinha acabado, já não existia.

Vários foram os iluminados a fazerem barulho, tinham acordado do feitiço, bramaram pelos tribunais mas os tribunais não os ouviram. Pediram responsabilidades aos seus ditatoriais ex-governantes mas estes responderam “who cares”.

E assim termina uma deprimente e triste história. Que alguns lutaram arduamente para que não tivesse este desfecho. Foram descriminados, marginalizados, insultados, ofendidos. Eram escumalha, eram terroristas, não eram sportinguistas. Foram perseguidos sem dó nem piedade, considerados proscritos da sociedade.

Os seus nomes foram apagados dos anais da história. Apenas uns poucos escritos clandestinos sobrevivem ainda e relatam fielmente a dedicação e a paixão destes bravos lutadores, que arriscaram tudo em prol do clube.

Clube esse que ficará na história, para todo o sempre, como um dos que mais lutou contra os sistemas corruptos instalados e um dos que mais ambicionou ser tão grande como os maiores da Europa, e que se bateu sempre com esforço, dedicação e devoção sem contudo, infelizmente, atingir a glória.

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1 Comentário
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Luís Galo

Infelizmente, acho que é o que vai acontecer. E já não há nada a fazer.