RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Sexta-feira, Agosto 07, 2020

A Nova Normalidade

Caro leitor, no meu último texto, cujo título foi “Desconfinar o Sporting”, abordei a necessidade e a premência de desconfinar o clube para, a seu tempo, retomarmos a normalidade que foi interrompida por um processo que ainda hoje lesa o Sporting Clube de Portugal, em credibilidade, em orgulho e em massa crítica (expulsão de sócios).

Após termos todos consciência do que significa o desconfinamento do clube, resta-nos começar a preparar o regresso à normalidade, caso a direcção actual caia, ou, no caso da sua manutenção, o mais provável, será o aparecimento em Alvalade da nova normalidade.

E que estado é este que apelido de “nova normalidade”, caro leitor? 

É, nem mais nem menos, o retomar de algumas ideias peregrinas – os cantos de sereia – que, na sua forma, através de discursos polidos, passam a mensagem de que o clube precisa de ser modernizado estatutariamente, será necessário a venda da SAD, necessita do voto electrónico e, hélas, não precisa daqueles que tanto, ao longo dos anos, têm feito para apoiar os rapazes de verde e branco, onde quer que estes estejam com o leão rampante ao peito, almejando a glória para o clube – as claques.

Já no seu conteúdo, estas ideias, mais não querem do que esvaziar de poder os verdadeiros donos do Sporting Clube de Portugal, os seus sócios.

Abordarei os quatro temas de que falo em cima, caro leitor, talvez os mais importantes e aqueles a que, com atenção, deveremos emprestar mais cuidado na sua análise.

A tão falada necessidade de modernização do estatutos, cujo impulsionador, Rogério Alves, tantas vezes refere, pode até vir a ser necessária, mas teremos de ter muita atenção em relação aquilo que se pretende reformar. De que estaremos a falar? De uma maior equidade na distribuição dos votos dos associados, que em bom rigor, na altura do sufrágio, gera sempre controvérsia? Da necessidade de uma segunda volta eleitoral, em caso de inexistência de maioria, para se evitar situações análogas a última eleição? O fim do Conselho Leonino? A alteração do modelo do Conselho Fiscal e Disciplinar, para algo proporcional e independente dos restantes órgãos sociais e com autonomia para se pronunciar e agir sobre pedidos de AG extraordinárias? Enfim, há, em cada associado, uma série de alterações que podem revestir o clube não só de modernidade, mas, também, de transparência e equilíbrio. O que não pode, liminarmente, é deixar que o actual presidente da  mesa da assembleia geral faça tábua rasa da constituição sportinguista e interprete de forma pessoal, parcial e discriminatória os estatutos.

A necessidade imperiosa da venda da SAD, parcial ou cedendo a maioria do seu capital, como forma de nos aproximarmos “aquilo que é feito lá fora”,  “aos rivais” e outros delírios do mesmo género. Aquilo que em termos de gestão, a última direcção do Sporting Clube de Portugal, presidida por Bruno de Carvalho, nos mostra, até à contratação de Jorge Jesus, é a possibilidade de  manter o clube competitivo apostando na formação e colmatando de forma rigorosa e criteriosa e madura as necessidades do futebol profissional. Aponta também o caminho para a manutenção no clube do valor captado pela quotização, como forma primeira de financiamento das modalidades, que tanta importância têm junto dos associados e que tanta alegria nos têm dado. Teremos, através de estes dois simples e importantes exemplos, de saber dizer não 
à venda da SAD, e da sua tentativa semântica de se alojar nas mentes mais incautas.

O voto electrónico, esse maná da modernidade e da transparência, que, por comparação com os sufrágios existentes no país e no mundo é na sua esmagadora maioria feito presencialmente (quando electrónico, no local, o votante recebe o voto em papel), não deve sequer ser discutido só por isso. Se se quiser abrir a discussão, seria avisado e prudente começar por nomear uma entidade independente na matéria, que garanta de forma peremptória e em qualquer espaço para dúvida, que não existe a possibilidade de adulteração de resultados.

Quanto ao erradicar das claques, julgo que o silêncio vivido em Alvalade nos últimos jogos com público, não distante, a espaços, ao silêncio deste jogo sem público, será um bom pronúncio para se iniciar a discussão e acabar com ela em poucos segundos. As claques são importantíssimas no apoio ao clube, dentro e fora de portas, no estádio e pavilhão. Querer confundir as coisas, através do ruído criado com base no tratamento irresponsável, discriminatório e humilhante, como os episódios, lamentáveis, dos sócios descalços em Alvalade, é uma vergonha e resume o carácter de quem “lidera” a instituição centenária Sporting Clube de Portugal.

Termino, caro leitor, com a seguinte observação ao acto simbólico a que temos assistido nas tribunas presidenciais dos três grandes clubes em Portugal: os presidentes, sozinhos, de máscara, numa tribuna vazia. 

Se a imagem é impactante por aquilo que representa, no nosso Sporting Clube de Portugal é mais do que isso: representa a solidão de uma liderança que não vê, não ouve e não se faz notar, a não ser daquela forma. Como vivemos em tempo de contradições, ao ver Varandas na tribuna, fiquei com saudades de ter um presidente no banco, ainda mais, nestas circunstâncias. 

Saudações Leoninas.

Viva o Sporting Clube de Portugal!

fotografia © António Cotrim/Pool/Lusa

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