RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quinta-feira, Maio 28, 2020

O AMOR NOS TEMPOS DE COVID

Tal como no brilhantíssimo livro de Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera, aqui também se falará de amor. Um amor distante e retraído mas, simultaneamente, esperançoso e obsessivo. Em comum com o livro, para além de vos escrever durante uma pandemia, também existe a esperança sempre presente de em breve poder rever o meu amor e o “abraçar”.

Este meu amor pelo Sporting dura já há 46 anos e dizem-me que foi com os cromos dos jogadores do clube que aprendi a ler, ainda muito prematuramente. Nesse tempo as figuras eram Lito, Manoel, Manuel Fernandes, Keita, Virgilio, Freire, Nogueira, Damas, Bastos, Laranjeira, Barão, Fraguito, Zezinho, Inácio e tantos outros.

Foi (é) um amor para toda uma vida.

Saboreei com prazer todos os grandes momentos e feitos do clube. Carlos Lopes, Fernando Mamede, a Taça dos Campeões de Hóquei em Patins… ainda hoje sei de cor a equipa: Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento. Joaquim Agostinho, os 7-1 ao eterno rival quando tinha apenas 12 anos, vibrando com os golos de Manuel Fernandes. Infelizmente, o seu caráter enquanto pessoa é inversamente proporcional à qualidade enquanto jogador de futebol. Era uma alegria e uma festa sempre que se faziam 200 km para ir ao velhinho Estádio de Alvalade, nunca um sacrifício. Vivi intensamente os tempos de João Rocha, do ecletismo, do aparecimento da Juventude Leonina. No fundo, sentia um verdadeiro orgulho e privilégio em ser do grande Sporting Clube de Portugal.

A partir dos anos 80, afastados dos títulos e com equipas cada vez mais fracas, viveram-se anos muito duros. O clube decaía a olhos vistos. Foi o tempo em que se sucediam Presidentes que nem para gerir o condomínio serviam, com interesses obscuros e com muito pouco amor pelo clube. Inclusive duvido que fossem todos adeptos do Sporting apesar do cargo. Por esta altura o amor esteve muito perto de se desvanecer.

La memoria del corazón elimina los malos recuerdos y magnifica los buenos, y que gracias a ese artilugio logramos sobrellevar el pasado

Entravam e saiam jogadores sem qualidade, o prestígio do clube esmorecia e por arrastamento as modalidades e o seu ecletismo, nucleares para a grandeza do clube, definhavam. Delapidava-se todo o património do clube mais rico e mais titulado de Portugal. Era um fartar vilanagem. Fechavam-se modalidades, o clube passou a ser um hub para negociatas e servir o clube deu lugar a servir-se do clube. Isto não era amor como eu sentia: um amor desinteressado. 

Muita gente enriqueceu à conta do Sporting e centenas de amigalhaços lambuças viviam por conta do clube. Dava para tudo. Nada lhes saía do próprio bolso. Foram tempos negros que quase me levaram a desistir. Pelo cansaço, pela tristeza, pela profunda desilusão. Questionava-me cada vez com mais frequência se essa gente seria mesmo do Sporting. Se sentiam o mesmo amor pelo clube que eu, porque razão o destruíam de tal forma? Porque razão o delapidavam todos os anos? Porque razão se serviam do clube para proveito próprio? Cintra, Gonçalves, Soares Franco, Santana Lopes, Dias da Cunha , Roquette, Bettencourt… E se assim era, tal como o meu coração me dizia, porque razão é que os sócios com amor genuíno pelo clube o deixavam decair a olhos vistos?

La mayoría de los socios tomaban aquellas disputas como los pleitos matrimoniales, en los que ambas partes tienen la razón” 

Uma coisa posso garantir: o amor deles pelo clube, se existiu, era e é muito diferente do meu. Eu não quero nada do clube para além de títulos, orgulho e alegria. Não quero fazer do Sporting um trampolim para negócios ou para melhorar a minha vida, muito menos enriquecer à custa de um grande amor. Que tipo de pessoa explora um amor verdadeiro? É isso que nos diferencia; é isso que nos distingue. É esse sentimento de amor desinteressado que diferencia um coração de uma pedra. 

Quando o amor que sentia era já somente um pequeno resquício de outrora, quando já muito pouco sobejava, quando me encontrava muito perto de desistir, surgiu uma nova esperança. Surgiu um “novo João Rocha” que, por incrível que possa parecer, vivia e sentia o clube da mesma forma que eu. Apenas com amor. Como se esse “apenas” fosse pouco, quando na verdade era tudo. 

Durante 5 anos conheceu-se um Sporting diferente. Via-se e sentia-se essa realidade nas bancadas, no estádio, no pavilhão. O orgulho Sportinguista estava de volta. Um Sporting que nos fazia vibrar e orgulhava novamente. O grande Sporting estava de volta. No entanto, os lambuças não descansaram até atingirem os seus fins. 

Pero sabía, más por escarmiento que por experiencia, que una felicidad tan fácil no podría durar mucho tiempo” 

A inveja e o ressabiamento em relação a alguém que movimentava massas e tinha carisma não lhes caía bem no estômago ávido de buffets. Alguém que não lhes permitia fazerem do clube o centro das suas negociatas. Acabava-se-lhes a mamata. Não descansaram até o destruir. 

O problema é que com isso deixaram milhares de Sportinguistas órfãos de paixão, dispostos a lutar por um Sporting que se pensava ser apenas parte de uma história cada vez mais distante. Agora, sabe-se que existe alternativa ao que nos foi dado a conhecer durante décadas. Alternativa à venda do clube. Alternativa a entregar o seu destino a mãos alheias. Como foi conseguido? “Apenas” com amor, pois este amor quando genuíno gera dedicação, devoção e só se contenta com a glória. O esforço não basta. 

En todo caso, la tragedia fue una conmoción no sólo entre su gente, sino que afectó por contagio al pueblo raso, que se asomó a las calles con la ilusión de conocer aunque fuera el resplandor de la leyenda” 

Enquanto essa ausência de amor perdurar, jamais viverão à conta do clube novamente sem terem oposição. Agora que sabemos que existem alternativas às eternas fatalidades com que preenchem o vazio que eles representam, agora que conhecemos o “outro lado”, jamais nos renderemos. Jamais deixaremos vender o clube sem lutarmos até à última gota de sangue. Jamais passaremos cheques em branco a essa corja de lambuças e aos seus amigos. Jamais voltaremos a votar quais as modalidades que ficam, e quais as que se extinguem.

Eles venceram a primeira batalha, mas tenho a certeza que enquanto houver Sportinguistas com amor, com amor genuíno, nunca vão conseguir ganhar a guerra. Vão perdê-la, não tenho a mais mínima dúvida. Falta-lhes o carisma próprio dos líderes, algo que é inato a quem sente “apenas” esse amor.  Não se compra, não se copia, não se simula. 

Não conseguem nem mesmo mobilizar a própria família sem iscos materiais, quanto mais milhares de Sportinguistas movidos “apenas” por amor. É isso que lhes dói na alma disforme, e por isso são invejosos, supérfluos e vingativos.

Falta-vos amor, e por isso, falta-vos tudo o que mais importa. 

Tal como García Márquez, também eu vos escrevo em tempos de pandemia, e da mesma forma que Florentino Ariza ficou longe de sua Fermina Daza, também eu me encontro distante deste Sporting. Bem como em O Amor nos Tempos de Cólera também neste O Amor nos Tempos de Covid aprendi uma coisa: quando o amor é verdadeiro, no limite pode adormecer ou hibernar temporariamente, mas jamais se extinguirá. É a esperança e o orgulho que se viveu no período entre 2013-18 que me faz aguardar, para poder “abraçar” novamente o meu amor. Só espero que tal como no livro, não seja preciso tardar 53 anos; mas, Florentino, também eu serei capaz de esperar.

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Neca Pinto

Um belo texto, Leão Africano.

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