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Segunda-feira, Dezembro 09, 2019

Da Caparica para Belfast com brilhantismo e muita brilhantina, para sempre Travassos ficou o “Zé da Europa”

Estava de férias quando foi convocado para a selecção da Europa, ao lado de Buffon, Boskov, Puskas e Kopa. E ficou conhecido como o Zé da Europa.

Travassos, o segundo a contar da esquerda.

Nasceu em 1922 na Quinta do Lumiar, onde estava erguida a bancada nova do antigo Estádio José Alvalade, como José Travassos, e morreu em 2002 como Zé da Europa, por ter sido o primeiro português a jogar na selecção da Europa. E é disso que se trata o 13 de Agosto de 1955. O dia em que Portugal entrou para a história do futebol internacional, antes dos Magriços de 1966.

Disso mesmo deu conta um determinado jornalista inglês, que escreveu: “Portugal não figura entre os seis primeiros países da Europa do futebol, mas possui um interior-direito, Travassos, que vale quatro mil contos. Travassos, com um penteado impecável, é tão brilhante com os pés como o seu inalterável penteado de brilhantina.
E continuou. “É injusto que não seja mencionado quando se fala dos grandes futebolistas mundiais, quando alguns dos que o são, em Portugal e no mundo, talvez o não mereçam tanto como ele.

Em pleno Verão de 1955 de férias na Costa de Caparica, Travassos recebe um telegrama surpreendente e até aí inédito no futebol nacional a convocá-lo para a selecção da Europa que, em Belfast, iria defrontar a Grã-Bretanha na festa do 75º aniversário da Federação Irlandesa de Futebol.

Com um pouco de jogging na praia e muita ansiedade pelo meio, Travassos preparou-se afincadamente para o tal jogo. Afinal, a época 1954-55 acabara há quase dois meses – a 12 de Junho, com a conquista da Taça de Portugal (2-1 ao Benfica) – mas sem o fulgor de outros tempos, a avaliar pelo reduzido número de golos (seis) em 30 jogos.

Travassos, o primeiro em baixo a contar da direita.

Aos 33 anos, Travassos já não era o mesmo de antigamente, mas o número 10 do Sporting era dele, e só dele. E assim se manteve na Irlanda do Norte.

Em muitas culturas, treze é número de azar, mas foi o dia da sorte para Travassos. O português integrou uma frente de ataque luxuosa com Kopa (França), Sorensen (Dinamarca), Vukas (Jugoslávia) e Jean Vincent (França). Naquela selecção europeia estavam também nomes sonantes como o austríaco Ocwirk, Vujadin Boskov, Trapattoni e Buffon, pai do actual guarda-redes da Juventus.

35000 pessoas encheram o Windsor Park, para celebrar o desporto-rei e a equipa da rainha até começou melhor com um golo de Johnstone aos 25 minutos. Mas como uma verdadeira união europeia, o dia estava destinado a ser do resto da Europa, e o francês Vincent empatou passados dois minutos e o 1-1 manteve-se quase até ao final, mas aos 77’ o jogo ganhou um herói acima de todos os outros, o Jugoslavo (hoje seria Croata) Vukas deu a liderança ao resto da Europa, mas não ficou por aí, apontando mais dois golos antes de acabar o jogo com um Hat-trick e o titulo de homem da tarde.

Foi a vingança perfeita do resto da Europa, do 6-1 do “jogo do século” de 1947 quando 130000 pessoas assistiram em Glasgow à vitoria da Grã-Bretanha ao resto da Europa, no jogo que celebrava a entrada para a FIFA dos países britânicos.

Como alinharam as equipas:

Grã-Bretanha: Jack Kelsey; Peter Sillett; Danny Blanchflower; Bertie Peacock; Stanley Matthews; Roy Bentley; Billy Liddell; Jimmy McIlroy; Jimmy Johnstone; John Charles; Joe McDonald.

Resto da Europa: Lorenzo Buffon; Bengt Gustavsson; Alfons van Brandt; Ernst Ocwirk; Robert Jonquet; Vujadin Boskov; Jorgen Leschly Sorensen; Bernard Vukas; Raymond Kopa; José Travassos; Jean Vincent.

Envergando a camisola 10, Travassos não marcou, mas esteve em grande plano no encontro, com duas assistências para golo! E o violino para sempre ficou conhecido como o Zé da Europa.
Ao lado de monstros já consagrados, o Zé da Europa destacou-se pela sua brilhantina e qualidade de jogo.

Travassos, exibe orgulhosamente a camisola do jogo ao filho.

No final da partida, Travassos foi peremptório. “Na segunda parte, o nosso domínio foi total. Ganhámos por 4-1, mas podíamos ter dado dez à Inglaterra! Os senhores Puskas e Kopa, muito pessoalistas, pareciam querer evitar o desastre britânico. Confesso que cheguei a afinar. Se tivesse melhor preparação poderia ter feito um brilharete dos diabos e talvez ser considerado o melhor em campo. Mas antes assim, joguei para a equipa, fui felicitado por todos e o Ocwirk até me deu um beijo“, afirmou na altura.

Quando aterrou em Lisboa, com uma multidão à sua espera no Aeroporto da Portela, Travassos era um homem novo, com uma alcunha nova. Passou a ser o Zé da Europa e assim o foi até acabar a carreira, em 1959, com 122 golos em 312 jogos no Sporting, acumulando oito campeonatos nacionais, três Taças de Portugal e mais 35 internacionalizações pela selecção.

O número 10 desse jogo em Belfast ainda hoje é uma das atracções do museu do Sporting.

Data: 13/08/1955
Local: Belfast
Evento: Grã-Bretanha - 1 x Resto da Europa - 4

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