RUGIDO VERDE

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Sexta-feira, Agosto 14, 2020

Rodrigo Tiuí: «Assim que toquei na bola senti que era a minha final»


O amuo de Simon Vukcevic em tarde de trovoada e bafo quente no Jamor – irritado por ser suplente, o montenegrino esforçou-se depois por aquecer mal e ser definitivamente riscado por Paulo Bento – foi passadeira que se estendeu para a glória de Rodrigo Tiuí. A 18 de maio de 2008, o ponta de lança que hoje representa o Náutico assinou os dois golos que valeram a 15ª e última Taça de Portugal ganha pelo Sporting, pondo milhões de adeptos leoninos aos pulos. O herói improvável foi lançado no primeiro minuto do prolongamento (na vez de Abel) para trocar as voltas a um FC Porto entretanto reduzido a dez unidades (por expulsão de João Paulo), mas o brasileiro, como agora conta a O JOGO, logo sentiu que aquela era a tarde dele – e a segunda finalização bem-sucedida, a que arrumou a discussão, fica para a história dos golos mais bonitos da prova.

Aquele pontapé de bicicleta com que selou o último triunfo do Sporting no Jamor teve mais de intuição ou de inspiração?

Foi inspiração pura. Num cruzamento da esquerda, a bola sobrou para mim e fiz aquilo. Foi muito bonito, mas depois dessa também tive uma execução parecida num jogo no Brasil – acho até que foi mais difícil. Mas naquela final de Taça, foi um golo importante. O troféu era nosso!
O que é que Paulo Bento lhe disse na altura de o mandar para dentro de campo?

O treinador sabia como é que eu estava a treinar, a evolução que estava a ter. Uma semana antes da final da Taça, eu já tinha feito um golo importante, contra o Boavista; valeu a confirmação do apuramento para a Liga dos Campeões. Por isso estava confiante, e Paulo Bento pediu-me apenas para repetir o que vinha a fazer de bom. Logo na primeira vez que toquei na bola, senti que aquela poderia ser a minha final; lembro-me de que fiz um remate de fora da área e a bola não entrou por muito pouco. Joguei apenas o prolongamento, mas estava com muita vontade, com muita disposição… e fiz dois golos. O mérito, porém, também é da equipa, que tinha jogadores de qualidade. Ter contribuído para essa conquista foi bom de mais. Está na minha memória, jamais vou esquecer essa final.
O Jamor foi pequeno para as suas emoções? Sentiu-se como se fosse o melhor jogador do mundo?

O melhor, não, mas senti-me grato à equipa e importante por ter ajudado a enriquecer o historial do clube. Nunca ganhei um título tão grande. Ganhei Estaduais no Brasil, mas a Taça de Portugal foi o troféu mais prestigioso que consegui.
Quantas vezes é que o DVD com os golos dessa final já foi visto e revisto? Mais de uma centena de vezes?

Seguramente. Volta e meia revejo esse jogo. E não me canso disso! Mas não sou só eu; todos os meus familiares fazem o mesmo. É uma coisa linda, que fica para sempre. No mínimo, foi um dos melhores dias da minha vida.
Nos festejos do primeiro golo, apanhou um susto valente: por detrás do painel publicitário sobre qual ia saltar estava a escadaria do túnel. Arrependeu-se a tempo, mas saiu-lhe caro.

Nem fale nisso! Acabei por partir a câmara fotográfica de um repórter. Por sorte, era uma pessoa simples, aberta ao diálogo. Eu próprio falei com ele e disse-lhe que lhe pagava a máquina.
Quanto é que lhe custou esse golo?

Não sei, não me lembro. Foi o Sporting que tirou o dinheiro diretamente do meu salário e pagou por mim, depois de eu ter dado o OK.
Essa foi a noite que desejou nunca acabar?

Foi uma loucura! Depois do Jamor houve festa rija em Alvalade. Com aquela agitação toda, até era impossível adormecer. Tinha tudo na cabeça, foi gostoso ficar acordado até quase de manhã. Quando se ganha um troféu destes, nem há vontade de dormir; só pensamos em festejar.
E quando acordou, foi à papelaria e “limpou” os jornais todos…

[risos] Por acaso não fui eu; quem os comprou foi a minha mãe, mas vai dar ao mesmo. Depois, quando cheguei a Bauru, fui recebido em clima de festa por familiares e amigos. Toda a gente estava feliz por eu me ter saído bem no Sporting.

Como Tiuí deu a 15ª taça aos leões

18-05-2008 Sporting, 2 – FC Porto, 0
111′ [1-0]

O golo inaugural é de grande sentido de oportunidade, aparecendo Rodrigo Tiuí, de surpresa, nas costas da defesa portista para dar sequência a um passe a rasgar de Romagnoli, que, à direita, fora solicitado por Miguel Veloso. Em corrida, Tiuí completa a diagonal com um remate de pé direito, na passada, perto da quina da pequena área. A bola ainda bate no corpo de Pedro Emanuel, deixando Nuno sem reação.
117′ [2-0]

Bola aliviada pela defensiva do Sporting. Rodrigo Tiuí capta sobre a direita do ataque e toca atrasado para Romagnoli. Ainda no seu meio campo, o argentino arranca em contra-ataque e, já perto da área, descobre Yannick Djaló na esquerda. O 20 cruza, Lino afasta, mas de forma incompleta, para Tiuí armar o remate de bicicleta e matar o jogo.

“O Sporting vai acabar a época em beleza”

Puro, simples e franco, Rodrigo Tiuí não alinha em dissimulações só para ficar bonito na fotografia, quando se lhe pergunta se costuma ver os jogos do Sporting. “Agora jogo no Brasil e estou meio desligado do futebol português. Mas de vez em quando acompanho, sim. Está com uma grande equipa e vai acabar a época em beleza no Jamor. É um clube com tradição e tem todas as condições para reerguer o troféu. Torço pelo Sporting e por todos os amigos que deixei lá”, admite o esquerdino que, pese o cometimento protagonizado na final de 2008, saiu de Alvalade pela porta das traseiras. “Não guardo rancor, porque também não esqueço que foi este clube que me abriu as portas do futebol europeu. Agora estou no Náutico por empréstimo do Terek, equipa russa que representei durante quase dois anos. Foi bom, mas o frio é muito rigoroso e chega uma hora em que bate a saudade”, conta o ponta de lança, fazendo planos a uma boa temporada no Brasil: “Julgo que o Náutico pode ser uma agradável surpresa. A equipa é boa, e os dirigentes estão fazer boas contratações. Há matéria para se fazer um ótimo campeonato.”

Fonte: Jornal ojogo

Data: 18/05/2008
Local: Estádio do Jamor
Evento: Final da Taça de Portugal

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