RUGIDO VERDE

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Quarta-feira, Julho 08, 2020

Neste dia… em 1976: Damas. Um capitão assobiado, onde é que já se ouviu isto? Em Alvalade…


Damas é um jogo de tabuleiro que se pode jogar a partir dos seis anos de idade e com duas versões: a luso-brasileira, com 64 casas (oito por oito), e a do resto do mundo, com 100 casas (dez por dez). Por cá, em Lisboa, Damas também significa fiabilidade e excentricidade, pelas mãos de Vítor Damas. Mas como qualquer tabuleiro, também este Damas dava as suas casas e era por isso mesmo implacavelmente assobiado pelos adeptos. Há 35 anos, por exemplo.

Capitão e guarda-redes, Damas é uma das referências do futebol nacional, devidamente vincada na alcunha Eusébio do Sporting. Titular desde 5 de Março de 1967 (V. Setúbal-Sporting, 0-2), por troca com o magriço Carvalho, a baliza do Sporting está mais que segura com Damas.

Em Fevereiro de 1976, portanto há dez épocas consecutivas em Alvalade, o internacional português (estreia na selecção com a Suíça, em… Alvalade) recebe uma proposta dos espanhóis do Racing Santander. Como ainda faltam três meses para o fim da época, a resposta é adiada por comum acordo entre o jogador (Damas) e o presidente (João Rocha).

No mês seguinte, o Sporting empata 3-3 com o Académico de Coimbra, em Alvalade, para o campeonato nacional, num jogo histórico de sábado à noite.

Aos três minutos, Rogério bate Damas. Aos sete, é a vez de Vala (0-2). Manuel Fernandes desconta aos 17′, mas Joaquim Rocha faz o 1-3 aos 24′. A confusão está instalada. Mal batido nos lances dos golos, Damas está zangado consigo mesmo e é um alvo fácil para os adeptos. “Com 3-1 no marcador há um remate da Académica que sai ao lado”, conta Tomé, companheiro de equipas e amigo de Damas, “e como os apanha-bolas estão longe, é o próprio Damas que sai da baliza para ir buscar a bola e reatar o jogo o mais rapidamente possível. Aí, o topo sul dá uma valente assobiadela, mesmo daquelas ruidosas. O Damas, que já estava pior que estragado, não faz mais nada: despiu a camisola e atirou-a ao chão. O senhor Juca, treinador do Sporting, substitui-o então pelo Matos. Repare, estávamos no minuto 29, perdíamos 3-1 em casa com o Académico e eu estava lá, a ver tudo bem de perto, porque nesse jogo fui o lateral-direito.”

Substituição no Sporting: sai o capitão Damas, debaixo de um coro de assobios, e entra Matos. No final, os leões empatam 3-3 com Manuel Fernandes a assumir-se como herói. Ao golo da primeira parte, soma mais dois (70′ e 73′) para completar um hat trick, o seu quarto da época depois de U. Tomar, Sp. Braga e CUF. Aqui entra novamente Tomé em acção: “E o pior é que eu falhei o 4-3 no último minuto. Quis dar de primeira e a bola saiu por cima da barra.”

Mas então e o Damas? “Ao intervalo, encontrámo-nos no balneário. Ele já estava vestido, veja lá a rapidez dele em sair dali. Nem me lembro se trocámos algumas palavras ou não… O que é certo é que ele estava chateado com tudo aquilo. Saltou-lhe a tampa e deu-lhe para aquilo, mas também é preciso dizer que, às vezes, os adeptos são injustos com os ídolos. Estamos a falar do Damas, que salvou dezenas, centenas, até milhares de vezes o Sporting, e isso foi esquecido naqueles primeiros 25 minutos com o Académico. Lembro-me que o Damas treinou normalmente a partir daí mas foi castigado pela direcção do Sporting e só voltou a jogar em Maio, nas últimas três jornadas do campeonato, com CUF (1-0 em Alvalade), Benfica (0-3 em Alvalade) e Boavista (1-3 no Bessa). Depois, olhe, depois ele foi mesmo para o Racing Santander, em Espanha.”

Mas Damas voltaria a Alvalade, em 1984, para fazer mais cinco épocas até ao adeus definitivo, em Novembro de 1989, num jogo com o Académico de Viseu.

Vinte anos depois, a baliza do topo sul do novo estádio José Alvalade foi baptizada de Vítor Damas. “O seu a seu dono! É a primeira vez que se presta honra desta forma, e assim esta baliza terá perpetuamente o nome de Vítor Damas. Agora teremos um anjinho-da-guarda por cima dela, ajudando a tornar mais difícil ao adversário marcar golos aos nossos guarda-redes.” As voltas que a vida dá, hein? Parece um jogo de damas.

Fonte: ionline.pt

Data: 15/03/2011
Local: Jornal i
Evento: Notícia

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