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Quinta-feira, Abril 02, 2020

Mário Wilson. “Até um coxo marcava golos no Sporting dos Cinco Violinos”

FUTEBOL – Mario Wilson, treinador e antigo jogador do Benfica, Sporting, Academica e da Seleccao Nacional de Portugal. (ASF/MIGUEL NUNES)


Avançado do Sporting nos anos 50 e primeiro treinador campeão português no Benfica em 1976. Uma viagem no tempo com o velho capitão

Mário Wilson é uma figura castiça. Pode parecer pleonasmo, mas não. É mesmo uma figura do futebol português, como primeiro treinador campeão português pelo Benfica, entre outras coisas igualmente relevantes. E castiça, porque acrescenta sempre um pormenor divertido a uma resposta. A ideia de o entrevistar já vem de longe. Desde Novembro, quando o i fez uma memória com a sua única expulsão em Portugal, num Sporting-FC Porto em Outubro de 1951. No dia seguinte, a recepção do i recebe um telefonema de Wilson que pergunta se pode falar com o autor do texto.

Encontrado o jornalista, Wilson dá o seu espectáculo a juntar ainda mais informação à crónica. Na troca de números de telefone para uma futura conversa, o jornalista dá-lhe o seu e Wilson dá o dele. Quando o jornalista repete o número para evitar equívocos, Wilson não é homem de comentários banais como “é isso” ou “está certo”. Ele simplesmente é diferente, e canta “tchan, tchan, tchan tchaaaaaan”. É desde então que cresce o interesse em entrevistá-lo, a ele, uma figura tão entusiástica e romântica, dos tempos pré-Cristo, como o próprio se define. E que melhor altura que agora, em jornada de Sporting-Benfica? Sporting, o clube que lhe abre as portas em Portugal, corria o ano de 1949; Benfica, o seu primeiro amor, desde o berço.

Sei que jogou no Sporting mas li que é do Benfica. Mais um caso típico de jogador melancia?

É. Pode ser [risos]. Em Moçambique já era do Benfica. Até porque jogava no Desportivo de Lourenço Marques, filial do Benfica. Mas antes, muito antes, já era do Benfica. Através de uma revista “Stadium”, comecei a criar uma relação muito profunda com o desporto e também com o Benfica. Nessa revista aparecia gente ilustre, casos de Espírito Santo, campeão do salto em altura e da velocidade, Paquete, campeão dos 100 metros, Matos Fernandes, campeão em barreiras. Esses todos fizeram história no desporto português e agarraram-me, por assim dizer, ao Benfica, uma relação que, admito, já era de berço. Foi o meu primeiro amor.

E o segundo foi o Sporting?

Não, não…

Mas foi contratado pelo Sporting para jogar em 1949, não foi?

Sim, cheguei a Lisboa para substituir o Peyroteo.

Como é que chegou a Lisboa?

De barco. No Mouzinho de Albuquerque. Já foi há muito tempo. Estou a falar praticamente dos anos pré-Cristo [risos].

Veio sozinho?

Não, vim com o Júlio Cernadas Pereira [Juca], outro elemento de grande valor da selecção, que se confirmaria no panorama português, como jogador e depois como treinador. Não esquecer que ele foi o treinador mais novo a ganhar o campeonato nacional, com 33 anos de idade, em 1966.

Então os dois vinham para o Sporting?

Sim. Eu para substituir o Peyroteo nos Cinco Violinos.

O grande Peyroteo?

Exactamente. Esse mesmo, o ainda hoje melhor marcador de sempre do campeonato nacional [330 golos, mais dez que Eusébio]. Outro ilustre moçambicano, como eu e o Júlio Cernadas Pereira. Fomos para o Sporting porque um senhor, dono da Papelaria Progresso, era adepto do Sporting e sempre nos disse que ia indicar-nos ao Sporting. E lá fomos.

E do que se lembra?

Foi uma longa viagem, num barco cheio. O Júlio Cernadas Pereira era um galã de cinema, de uma elegância extraordinária. Nos bailaricos o Júlio era o rei [risos]. Nós, os africanos, éramos segregados, punham-nos de parte.

E em Lisboa, o Sporting?

Grande equipa. Lembra-se daquela frase que soltei no Benfica: “Qualquer um a treinar o Benfica arrisca-se a ser campeão”?

Sim, claro. Como esquecer?

No Sporting daquele tempo era o mesmo. Qualquer um ganhava o campeonato. Lá até um coxo marcava golos. Então está a ver: Jesus Correia, Vasques, Travaços e Albano. Fosse eu ou outro qualquer a fechar este quinteto, era vitória certa. Isto sem esquecer os lá atrás, como Canário, Veríssimo, Passos, Barrosa.

Mas a verdade é que o Mário Wilson fez cinco hat-tricks na primeira época de 1.a divisão. Algum mérito teria…

Muito bem, obrigado! Sim, costumava cabecear bem e até marcava golos artísticos, de pontapé de bicicleta.

E foi o melhor marcador da equipa na primeira época.

Sim, e só não fui o melhor do campeonato [23 golos] porque havia o Julinho, do Benfica [29].

E em Lisboa, a sua vida?

Morava na Praça do Chile, treinava três vezes por semana e estudava nos Olivais.

Jogava e estudava?

Sim senhor. O meu pai sempre quis que eu estudasse, porque o futebol era coisa passageira. E, aliás, sempre insistiu que eu tirasse o curso em Coimbra.

Por isso é que foi para a Académica?

Ah, pois é.

Mas as transferências naquele tempos faziam-se com esse à-vontade?

Não, as transferências eram de facto impossíveis. Havia a famosa lei de opção, mas beneficiei de um parêntesis, através do Pires de Lima, ministro da Educação. Como era estudante, o ministério abriu-me um precedente.

E aquela história de ser um goleador no Sporting e depois tornar-se um defesa-central na Académica?

Não, as pessoas associam essa metamorfose à minha ida para a Académica, mas eu comecei a jogar a central no Sporting.

Como passou de avançado-centro a defesa-central? Ainda por cima naquele tempo, em que era tudo mais estanque.

Compreendo o espanto, mas sabe que naquele tempo também havia polivalência. Nós queríamos era jogar. Como nos meus tempos de menino em Moçambique. Na rua ou nos recreios, nós queríamos era jogar futebol. Descalço ou calçado. À frente ou à baliza. Tanto nos dava. Éramos todos polivalentes, como o Fábio Coentrão [gargalhadas comedidas]. Nessa situação específica, comecei a jogar como defesa-central na Taça Latina-51. Antes do jogo de terceiro e quarto lugares, com o Atlético Madrid, o Passos lesiona-se. Não tinham outro defesa-central e perguntam-me se era menino para fazer o lugar do Passos. Claro que sim, disse eu. Até porque já jogara a central na despedida do Peyroteo e sentia-me bem nessa posição, a abrir o livro [mais gargalhadas, agora sonoras]. Portanto, quando chego à Académica, já vou com a cabeça feita para jogar a central.

E sai do Sporting nesse ano, em 1951?

Sim, para a Académica.

O Sporting campeão nacional, certo?

Certo. Mas a Associação Académica de Coimbra é uma coisa fantástica. Uma experiência de vida extraordinária, cheia de valores individuais cativantes e vibrantes. Estou lá com os meus dois irmãos, um psiquiatra, outro radiologista. Instalo-me numa república, onde estava o Almeida Santos. Foi maravilhoso.

A falar assim até parece que é amor.

Pois, é o segundo amor. Costumo dizer que isto é como a música do Marco Paulo “eu tenho dois amores”: o Benfica e a Académica.

A Académica lembra-lhe o quê?

Isso agora… Muita coisa. Convivi com tanta gente… Como jogador e como treinador. Lidei com matéria-prima bruta, como os juniores Artur Jorge, os irmãos Campos, Toni, o Artur ruço. São tantos, tantos… Eles quase não ganhavam dinheiro nenhum. Aquilo era amor à camisola, amor ao futebol. Jogadores que, depois dos cursos em Coimbra, futebolística e academicamente falando, se transferiram para o Benfica, o FC Porto, o Sporting.

Também treinou a Académica, como adjunto ou principal?

As duas coisas. Fui adjunto do Janos Biri, Oscar Tellechea, Cândido de Oliveira, Alberto Gomes, José Maria Antunes, ou melhor, o Dr. Antunes, formado em Coimbra, José Maria Pedroto.

Pedroto. Jogou contra ele?

Também, sim, é verdade. Na minha primeira época, o Sporting perdeu em Vila Real de Santo António com o Lusitano. Foi 2-0 e um dos golos foi do Pedroto. Ele era um médio rijo, e com técnica.

E como treinador?

O seu trabalho é meritório, a todos os níveis.

A sua relação com ele?

Boa, enquanto treinador-adjunto. Telefonávamo-nos, conversávamos e íamos ao café juntos para debater ideias sobre temas como a independência das colónias portuguesas.

Mas…

Eu estava muito mais identificado com o espírito académico. Ele era ganhar, ganhar. Era competitivo, demasiado até. E diferente naquele ambiente de Coimbra. Mas cada um é como qual.

E aquela troca azeda de palavras em 1979, quando o Mário Wilson era seleccionador nacional e o Pedroto treinador do FC Porto? Convocou oito jogadores do FC Porto para um particular com a Espanha, a oito dias do Milan-FCP para a Taça dos Campeões.

Houve sempre rivalidade entre nós. Além disso, os nossos valores eram diferentes, em futebol, em espírito competitivo, em quase tudo. Ele só pensava em ganhar e foi acumulando pequenos ódios.

Já em Coimbra?

Sim. Uma das suas máximas era “morrer por morrer, que morra o meu pai que é mais velho”. Dizia isto para dar a volta a situações adversas, para se motivar.

Pedroto sai da Académica a bem?

O adeus de Pedroto está intimamente ligado a um episódio fora dos relvados. O FC Porto foi jogar a Coimbra e ganhou [2-1, a 1 de Março de 1964]. Um jornalista escreveu que “o jogo já estava perdido antes de começar”. O Pedroto foi ao café onde se reuniram os teóricos, viu o jornalista e perguntou-lhe: “Escreveu isto?” Ele respondeu: “Sim, porquê?” E o Pedroto deu-lhe um murro no queixo.

O FC Porto insurge-se contra o poder de Lisboa quando Pedroto vai para o FCP?

O Porto queria que os comandos de arbitragens e outras coisas passassem para o Norte, porque os de Lisboa, Benfica e Sporting, dominavam tudo.

Então quando você chega ao Benfica esse clima já estava instalado.

Sim, mas o Benfica era tremendamente forte.

E foi campeão nacional. O primeiro treinador português a sagrar-se campeão nacional pelo Benfica, em 1975-76. Depois de si, só Toni e Jorge Jesus.

E sabe que estive para recusar o Benfica?

Então?

Pagavam-me o mesmo que na Académica.

E como é que foi lá parar?

O meu filho [também Mário Wilson, que também jogou no Benfica, lançado por John Mortimore em 1977] telefonou-me para casa a perguntar-me se era verdade o interesse do Benfica em mim e eu disse-lhe que estava a pensar em recusar a proposta do Benfica, ao que ele me diz: “Ó pai, não se diz não ao Benfica!” Lá aceitei. Bem, acho que já lhe dei pano para mangas. Tenho de desligar. Mas quero o jornal. Envie-me para casa, se faz favor

Muito bem.

Se falhar, há porrada. O treinador principal sou eu. E não joga domingo.

Que figura. E castiça. Já tínhamos dito?

Fonte: ionline.pt

Data: 19/02/2011
Local: Jornal i

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