RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quinta-feira, Agosto 06, 2020

José Roquette em Grande Entrevista em Julho de 1999

ENTREVISTA AO PRESIDENTE DO SPORTING

ENTREVISTA DE JOÃO MARCELINO

– O Sporting anunciou um acordo com o Banco Comercial Português (BCP) e assinou-o, há poucos dias, no local onde comemorou a passagem do 93º aniversário. Ao que julgo saber, esse acordo tem duas vertentes. Uma é a conglomeração do passivo nessa entidade; a outra terá a ver com um acordo para dez anos que ainda aparece aos sportinguistas como algo difuso. Gostaria de começar esta entrevista com o esclarecimento dessa operação.

– A primeira parte é realmente como refere. Há, por parte do BCP, um acordo no sentido de que funcione como banco do Sporting. Trata-se da concentração de um passivo que está em diluição muito rápida. Em relativamente pouco tempo o Sporting deixará de ter passivo.

– Neste momento o passivo ascende a quanto?

– Está mais ou menos à volta do que sempre esteve: na zona dos seis milhões de contos.

– Quanto à segunda parte do acordo…?

– Tem a ver com um protocolo. Conhecendo o BCP – que passa a ser o nosso principal interlocutor nesse sector – o planeamento financeiro e de tesouraria do Sporting a um prazo largo, o protocolo garante o apoio do Banco; cumprido que seja esse planeamento, claro. É, no fundo, uma planificação transformada em protocolo. Amarra o Sporting ao cumprimento escrupuloso de um plano e garante ao clube o apoio financeiro de uma instituição importante da vida portuguesa. Fará, por exemplo, com que dentro de três anos o Sporting – o Sporting-instituição; não estou a falar da SAD – não tenha défice; que haja uma conta de exploração equilibrada.

– Esse cumprimento rigoroso de uma política financeira supervisionada por um protocolo com um banco não poderá vir a influir na política de investimento desportivo?

– Não! Porque nesse planeamento está previsto, inclusive, o apoio do Sporting à Sporting SAD em termos de eventuais aumentos de capital. Aliás, está previsto que esse aumento de capital possa ocorrer algures ainda este ano.

– Esteve previsto para Fevereiro, não esteve?

– Poderia ter acontecido. Nesta altura está previsto que possa acontecer no último trimestre do ano. Mas poderá também não acontecer. Depende das necessidades da SAD e de como as coisas forem evoluindo. Nesse aspecto, está tomada a decisão de que quem constrói o centro de estágio e o novo estádio é o Sporting Clube de Portugal. E essa equação financeira já tem a respectiva solução.

– Essa solução passa de alguma maneira por esse acordo com o BCP?

– Não exactamente. Esse é um quadro de tesouraria corrente.

– Já agora: qual a prioridade entre centro de estágio e novo estádio?

– O centro de estágio. Por uma razão simples: sem o centro de estágio estar pronto não podemos começar a construir o novo estádio, que será implantado na zona onde actualmente se encontram os campos de treino.

– Ainda no que respeita ao acordo com o BCP: é a primeira vez que uma instituição bancária dessa grandeza, em Portugal, está junta a uma SAD, ainda que por via indirecta do protocolo com o clube maioritário. O que significa, em termos gerais, para o Sporting, este protocolo? Trata-se de um investidor institucional que traz confiança ao mercado, não é verdade?

– Bem, neste caso, o BCP não funciona na qualidade de investidor e está junto ao Sporting-instituição.

– Que…

– Que, é evidente, directamente e através da Sporting SGPS, se assume como accionista controlador da Sporting SAD. Mas o BCP, em relação à SAD, não tem um envolvimento especial que outros bancos não tenham.

– De qualquer forma, a Sporting SAD tirou dividendos desta associação do clube ao banco. Ou não?

– Tira, mas pela via do Sporting-instituição. Isto é mais importante do que se o protocolo dissesse respeito à Sporting SAD. – Porquê? – Porque representa que o Sporting Clube de Portugal tem realmente a credibilidade, e a estabilidade económica e financeira, necessária ao estabelecimento de um protocolo deste tipo. Isto decorre de um processo que teve prioridade absoluta: a recuperação do clube em termos patrimoniais, económicos e financeiros. Objectivo esse que está atingido. – … – Não só em termos do presente, como numa projecção a dez anos, período que cai no âmbito do protocolo. É bom que se diga, de resto, que o Sporting não contactou apenas o BCP. Auscultámos, também, outros grupos financeiros.

TROCAR PATRIMÓNIO

– Porquê, no final, o BCP?

– Foi o banco que nos apresentou as soluções concretas para concretizarmos as nossas necessidades. E o Sporting sabe agora, depois de fazer uma projecção de tesouraria a dez anos – num estudo que tem a ver com o clube e com as sociedades participadas -, que pode contar com o apoio do BCP no sentido de as tornar sucessivas realidades até 2009. Esses compromissos, para além dos eventuais aumentos de capital previstos na SAD, são balizas que o Sporting pode e vai respeitar. Isto não se trata de meter números num papel; trata-se de uma coisa seriamente pensada e articulada do ponto de vista profissional e que tem obviamente como base aquilo que no Sporting é hoje muito importante: o património imobiliário. É este que permite as opções estratégicas importantíssimas que o Sporting está a tomar, entre elas a construção do novo estádio. O Sporting vai trocar algum património imobiliário pela construção do estádio.

– Já está definida qual a área de terreno que será trocada?

– Não. Mas terá a ver com a área total de que o Sporting disporá na altura em que o estádio actual for demolido. Nós vamos continuar a utilizar o estádio actual até ao fim da época de 2002. Nessa altura o estádio novo estará construído, o outro será demolido, e ficaremos com uma autorização de mais cerca de 120/130 mil metros quadrados, para além do restante património imobiliário. O Sporting não é, à partida, uma instituição vocacionada para gerir ou promover o património imobiliário – que, ainda por cima, não é estratégico, é tradicional, sejam metros quadrados de habitação, de escritório ou de espaços comerciais. Por isso o trocaremos. O Sporting pretende um património imobiliário que esteja ao serviço daquilo que no clube é nuclear, ou seja, o futebol profissional.

– A expectativa é construir o novo estádio em três anos?

– Exactamente.

– A engenharia financeira para viabilizar esse projecto passa, então, pela troca de património. E passa por que outros apoios? Do Governo, já se sabe, com 4,3 milhões de contos. E também da Câmara Municipal de Lisboa (CML)?

– Da Câmara não. A CML o que deu, e muito importante, foi a aprovação por unanimidade na assembleia municipal, o que é notável, do projecto imobiliário do Sporting para aquela zona. Isso também diz da credibilidade e profissionalismo com que o Sporting tratou da questão.

– E o que significa essa aprovação?

– Olhe, que por exemplo a qualidade de vida na zona vai melhorar muito. Essa foi a ideia-base da nossa apresentação. E, obviamente, a decisão da CML criou as condições para que o Sporting pudesse, por si próprio, avançar com a construção do novo estádio.

O CUSTO DO ESTÁDIO

– Qual é o custo global estimado do novo estádio?

– Cerca de 15 milhões de contos.

– Do Governo virão 4,3 milhões. E o restante só da troca de património?

– Não. Teremos os chamados accionistas fundadores. Serão doze.

– Já estão definidos alguns?

– Há contactos, alguns bastante adiantados. É relativamente simples: trata-se da mesma estrutura aplicada no ArenA de Amesterdão e noutros estádios. Os doze serão encontrados entre uma Pepsi Cola e uma Coca Cola, entre uma TMN e uma Telecel, entre a Unicer e a Centralcer e por aí fora. Obviamente um desses accionistas fundadores poderá vir a ser o BCP, que passaria a ter instalações dentro do estádio do Sporting.

– E daí virão…?

– Três milhões de contos. O resto sairá do património imobiliário do Sporting.

– E a quem competirá a gestão futura desse espaço?

– Ao Sporting-instituição como proprietário. E a exploração ficará a cargo da Estádio de Alvalade, SA, empresa que hoje em dia já faz a exploração do estádio actual.

CENTRO DE ESTÁGIO

– Vamos ao centro de estágio. Porquê Alcochete?

– Estudámos alguns locais e chegámos à conclusão que, por razões de acesso e transporte, e também ambientais e de proximidade, Alcochete era a zona adequada. Além do mais, temos a expansão assegurada se, no futuro, viermos a precisar de ocupar mais área. E é, claro, uma zona de forte implantação sportinguista.

– Quanto vai custar esta obra?

– Aproximadamente um milhão de contos.

– …

– Este centro de estágio, além de permitir a construção do novo estádio, representa uma alteração estrutural importantíssima na gestão do futebol profissional do Sporting. Hoje o trabalho que é feito em Alvalade implica, na maior parte dos casos, meio dia de trabalho. Os jogadores chegam, fazem o treino e regressam a casa. Ora o tipo de trabalho que é necessário fazer implica um espaço muito mais largo. Um espaço não apenas dedicado ao treino físico, mas de 6/7 horas dedicado a muitas mais coisas. Já é assim em muitos outros grandes clubes europeus. O centro de estágio não é, apenas, a construção de meia dúzia de campos relvados. É um projecto muito mais abrangente.

BOLSA E DIVIDENDOS

– Regressemos à SAD: alguma vez irão ser distribuídos lucros?

– Não tenho qualquer dúvida. Existem, aliás, disposições regulamentares que obrigam a que essa questão seja, pelo menos, colocada aos accionistas. A SAD do Sporting poderá apresentar resultados positivos neste exercício e, nesse caso, uma determinada percentagem deles tem de ser proposta como dividendos, embora não seja forçoso que essa distribuição se faça. Os accionistas podem aprovar um destino diferente. Acontece muitas vezes que esses dividendos são reinvestidos.

– As grandes empresas cotadas em bolsa distribuem anualmente dividendos…

– Acredito que dentro de alguns anos essa prática possa ser uma rotina na Sporting SAD. Poderá fazer parte, também, de um enquadramento mais normal das Sociedades Anónimas Desportivas no mercado de capitais. Serão os accionistas quem terá de o determinar. E o Sporting, como accionista maioritário por via directa ou indirecta, deverá ter alguma preocupação de colher da parte dos accionistas exteriores ao Sporting – a maioria dos quais, acredito, são sportinguistas – a sua opinião e o seu desejo.

– Não lhe pergunto se acredita que uma SAD pode algum dia aspirar a ser admitida ao primeiro mercado da Bolsa de Valores de Lisboa – obviamente que me responderia “sim”. Pergunto apenas: qual o prazo, realista, para que isso possa acontecer?

– Não considero isso uma coisa fundamental.

– Numa primeira fase já o considerou importante.

– Já, porque na altura o arranque por essa via nos daria eventualmente um maior impacto. Contudo, a partir do momento em que foi possível assegurar o funcionamento em contínuo, mesmo no segundo mercado, para todos os efeitos deixou de haver diferenças. Mas também lhe digo: no primeiro mercado, se calhar, há empresas com menos padrão do que eventualmente podem ter as duas SAD’s que estão cotadas no segundo mercado. Volto, no entanto, a repetir: esta questão não é estratégica nem deve ter qualquer tipo de prioridade. Inclusive devemos aceitar que o número de acções transaccionadas nas duas SAD’s cotadas é relativamente baixo.

– Esse é um problema inultrapassável?

– Não, não é. Neste momento já se fala, e eu acho isso inevitável, numa bolsa pan-europeia. E numa bolsa a funcionar a nível europeu as coisas mudarão muito para as SAD’s. E porquê? Porque se iriam encontrar com outras instituições do mesmo tipo, e do mesmo sector, com mais experiência. Isso seria positivo para nós.

– Está a falar de um cenário a não menos de dez anos…

– Acho que não. Vão acontecer coisas muito depressa nessa zona.

– Quando as SAD’s apareceram na Bolsa pensou-se que as oscilações de cotação se fariam muito mais em função dos resultados desportivos. Ora, curiosamente, a SAD do Sporting recuperou nas últimas semanas em função do negócio, fosse ele a venda de Simão Sabrosa (que permitiu um encaixe de 2,8 milhões de contos), as renovações de Delfim e Duscher ou o protocolo com o BCP. Que significado retira desta realidade?

– Devo dizer-lhe que nunca achei que os resultados desportivos imediatos pudessem vir a ser a origem de grandes flutuações. A tendência dos resultados desportivos, essa, sim. Uma trajectória claramente ascendente ou descendente nunca deixaria de provocar alterações. Por isso mesmo, é natural que numa altura em que o Sporting prepara um plantel altamente competitivo isso tenha reflexos na cotação em Bolsa. Assim como, de resto, todos os acordos que promovam uma boa gestão, a começar pela gestão do plantel, como esses dois que referiu; e houve outros.

GENTE DE QUALIDADE

– O grande público conhece os rostos do futebol do Sporting, em especial Paulo Abreu. Eu pergunto-lhe: quem são as pessoas que estão consigo por detrás da concepção e realização do projecto empresarial do Sporting?

– O Sporting é hoje nessa vertente uma instituição diferente; até diferente dos concorrentes mais directos, o que por sua vez determina um presidente diferente.

– Embora no caso do presidente talvez já tivesse sido mais diferente do que é hoje…

– Talvez… Mas noutra perspectiva que não nesta que estava a referir. O Sporting tem hoje no Conselho Directivo e nos Conselhos de Administração das várias empresas do grupo gente de enorme qualidade, tanto em termos nacionais como internacionais.

– Em “full time”?

– Também em “full time”, mas isso é consequência. Estava a falar do António Dias da Cunha, do João Ribeiro da Fonseca, do Paulo Abreu, do Nuno Caldeira da Silva, do dr. Oliveira Martins, do eng. Correia Sampaio, entre outros, não esquecendo as pessoas que estão no Conselho Directivo, como Nuno Galvão Telles, Isabel Trigo Mira, Mário Moniz Pereira, Reis Pinto, etc. É tudo gente de grande qualidade e grande padrão. E gente que não é remunerada. Não há remunerações ao nível do Conselho Directivo ou dos CA da Sporting SAD ou da Sporting SGPS. E ter essa gente neste projecto é fundamental, até porque comanda automaticamente o nível dos Quadros. Aí há, também, gente de grande valor, como é o caso do dr. Diogo Gaspar Ferreira, director-geral do Sporting. Depois repare: quando esta gente se senta à volta de uma mesa para tomar decisões, sejam de tipo estratégico, de planeamento, ou de gestão diária, as coisas têm de funcionar por consenso. Neste contexto não há espaço para um presidente-ditador, ou inevitavelmente as pessoas sairiam porque estão habituadas a relações de qualidade. Ora bem, penso que isso é uma grande mais-valia do Sporting – e também só por isso conseguimos atingir a grande velocidade a que as coisas hoje se estão a passar no Sporting-instituição. Caso contrário, como acontece noutras sedes, tudo estaria limitado ao tempo do presidente. Isso, repito, é uma grande força deste Sporting e ficou demonstrado na rapidez com que conseguimos promover e gerar as soluções que estão a começar a ficar à vista e permitirão um futuro risonho ao clube. Neste contexto não há lugar a ditadores, a mecenas ou a outros desvios.

CUMPRIR MANDATO

– O seu mandato é de mais quanto tempo?

– Mais dois anos e qualquer coisa.

– Espera levar o mandato até ao fim?

– Tenciono, claro. Foi um compromisso assumido com os sócios e hoje acho que o posso cumprir numa perspectiva mais tranquila.

– Faço-lhe esta pergunta porque, há uns meses, apareceram rumores de que o senhor poderia estar a organizar a vida do Sporting, desportiva, financeira e empresarial, para depois passar o testemunho…

– Isso nunca foi posto nessa perspectiva de eu poder afastar-me do Sporting. Aliás, eu estarei no clube só enquanto os sócios o quiserem, independentemente do compromisso que haja. Se em função de alguma assembleia geral (AG), ou de algum sentimento generalizado, se chegar à conclusão que não devo ser presidente do Sporting, eu não fico nem mais um dia.

– Não é esse o caso. Estava a falar de uma saída em função da sua própria vontade.

– Eu sei. Mas é importante que diga isto. Sabe porquê? Porque realmente é outra vantagem competitiva do Sporting: são os sócios, reunidos em AG, que são a sede do Poder no clube. Quando não é assim há sempre manipulações de Poder. Se fizer a história das decisões que foram tomadas nos últimos anos, verá que, repetidas vezes, e muitas delas sem necessidade, nós pusemos à apreciação dos sócios as decisões fundamentais a serem tomadas. Isso aconteceu com o património imobiliário, até mais que uma vez – de maneira que os sócios poderiam até dizer “nós já decidimos isto, já foi aprovado”. Mas nós entendíamos, e entendemos, dever marcar muito bem este caminho. A sede do Poder, por cultura interna, tem de ser a AG. Assim se evitam muitas tentações e, até, manifestações desadequadas fora da AG do clube.

– Concluindo e resumindo: garante que vai cumprir o mandato até ao fim…?

– E com muito mais tranquilidade hoje. Aqueles rumores que há pouco referiu têm a ver com a tremenda pressão resultante da vida de todos os dias.

– Neste caso a oriunda dos resultados da equipa de futebol…

– Não é só isso. É mais o tentar conciliar em 24 horas a vida profissional, familiar e o Sporting Clube de Portugal. Isso é difícil. E gera, inevitavelmente, problemas.

– O Sporting, estou a ver, foi um grande choque na rotina, chamemos-lhe assim, da sua vida, principalmente a familiar?

– Indiscutivelmente. Foi e continua a ser. É qualquer coisa que tenho de gerir e provoca tensões. Na minha actividade de empresário felizmente tenho uma equipa organizada e posso contar com a excelente colaboração do dr. Dias Loureiro, se não teria problemas muito complicados para gerir um grupo de indiscutível dimensão. Estrategicamente a Plêiade participa sempre de forma activa em empresas-líder dos respectivos sectores e, portanto, essa liderança implica um conjunto de obrigações que não existiriam no caso de sermos investidores passivos. E como até aqui a minha vida se distribuía, em termos de carga de trabalho diária, a 80% para o Sporting, as tensões criaram-se.

– E o que mudou?

– Hoje, pela organização e pela qualidade das pessoas que servem o Sporting, pela forma como o projecto do clube foi tratado, sinto-me muito mais tranquilo em relação ao futuro e em relação aos anos que faltam para o final do mandato. Esse tempo já está muito bem planificado. Vou ter uma carga de trabalho muito menor do que aquela que tive até agora.

– Estando o futuro estratégico e empresarial do clube a seguir o caminho estabelecido, pode dizer-se que já só lhe falta agora o essencial: o êxito no futebol. E faço a ponte para o futebol começando pela época passada…

– [Interrompendo decidido] Vamos lá a isso.

O LUTO COMO LIÇÃO

– Não considera que o luto foi uma luta falhada?

– Não! Não considero. Assim como não considero que as razões que levaram o Sporting a enveredar por esse tipo de manifestação, e que tiveram a ver com a defesa da verdade desportiva, tivessem sido as únicas que determinaram a classificação final da equipa em quarto lugar no Campeonato. Houve outras razões, próprias, que, com a maior objectividade, não podemos deixar de considerar. Voltando ao luto digo-lhe: foi uma lição, de alguma forma até para o País. Foi a transmissão clara e objectiva de que há uma grande instituição nacional que se envolve na luta pela verdade desportiva, e de uma forma civilizada. Não se subestime a enorme dificuldade de organizar qualquer coisa de semelhante de forma civilizada e não turbulenta.

– Ainda houve duas ou três pequenas manifestações de intolerância, uma no Estádio de Alvalade, aquando da visita de inspectores da UEFA, e outra junto à CML…

– Tenha paciência, foram dois ou três casos isolados que não retiram o brilho à forma cívica e ordeira como os sócios e simpatizantes do Sporting exprimiram o seu descontentamento e revolta.

– … Lembro-me que o senhor teve, até, de fazer um ou dois avisos em público para segurar os ímpetos dos adeptos mais exaltados…

– Isso não foi no quadro do luto.

– Foi, pelo menos, na sequência dele.

– Não. Isso foi aquando da visita dos fiscais da UEFA, na minha opinião não teve a ver com o luto. De qualquer forma, se quiser, foram acções isoladas que não retiraram brilho à forma cívica e ordeira como o Sporting se manifestou.

– E quanto ao futuro…?

– Não se faz o mesmo tipo de movimentação duas vezes. E, também não estando resolvido o problema da verdade desportiva, o Sporting tem de ter outras opções estratégicas. Em relação à época de 1999/2000, essas opções estratégicas têm de ser de outro tipo e encaixarem-se, igualmente, na personalidade histórica do Sporting.

– Pode dar um exemplo?

– Movimentar e mobilizar o clube, a começar por todos os núcleos espalhados pelo País, de forma a fazer a pressão possível, se calhar em antecipação, no sentido de evitar o que aconteceu na temporada passada.

– Está a dizer-me que o Sporting não está descansado e teme a repetição daquela série de erros de arbitragem da época passada?

– É evidente que não estamos descansados, até porque pomos a fasquia mais alta. Na época anterior dissemos que o Campeonato Nacional não era uma prioridade. Decorrido um ano, essas outras prioridades estão alcançadas. O equilíbrio económico e financeiro do clube é uma realidade. Os resultados desportivos passam a ser o alvo principal da nossa atenção e da nossa ambição, como tem de ser. É para isso que o clube existe e não para ter resultados financeiros. Nós sempre soubemos disso; como sabíamos que sem essa capacidade económica e financeira o atacar a fundo na vertente desportiva seria uma imprudência. Os resultados desportivos passam, portanto, agora, a ser uma prioridade.

LUTAR PELO TÍTULO

– Essa fasquia mais alta é, claramente, assumir a luta pelo título nacional. Ou não?

– É óbvio. A justíssima aspiração do Sporting de ser campeão nacional é uma coisa que até ninguém nos tirava antes.

– Mas houve uma certa abdicação…?

– Foi, como lhe expliquei, sem abdicar do que quer que fosse, um apontar da prioridade noutro sentido. Isso tornou-se é mal entendido. Houve uma lógica clara no caminho que o Sporting percorreu. Os resultados desportivos passam agora a ser prioritários com muito mais possibilidades de serem conseguidos e não, apenas, como manifestação de um simples desejo. De resto, o Sporting, no futebol como nas outras manifestações desportivas, tem o seu nome ligado aos êxitos.

– E é essa a linguagem que, creio, os associados do clube aplaudem aos seus dirigentes. Não aquela que ouviram na época passada…

– Foi uma questão de prioridade, que já expliquei. Os sportinguistas compreenderam. E agora o clube tem outras condições para tentar legitimar as suas ambições, mesmo num quadro competitivo no qual, apesar das evoluções favoráveis, ainda não existe verdade desportiva.

O INEVITÁVEL “SISTEMA”

– Quando fala da falta de verdade desportiva, está a referir-se concretamente ao quê? À arbitragem?

– Não só à arbitragem. É um problema de cultura. Agora fala-se muito no “sistema”…

– Já agora…

– … E o “sistema” para mim é, claramente, um conjunto de maus hábitos adquiridos! Que não se querem mudar e têm, como é natural, influência nas arbitragens.

– Consegue identificar, geograficamente, um local de onde esses maus hábitos sejam estimulados ou que esses maus hábitos sistematicamente privilegiem?

– [Passando por cima da pergunta] Esse maus hábitos são um problema cultural, têm a ver com a forma como se estruturam as competições, como elas se articulam, a forma como pensam as pessoas que lá estão. Mudar isto é uma tarefa árdua e de persistência.

– Vê sinais de melhoras?

– Vejo alguns. Por exemplo, a melhor definição de responsabilidades a nível da arbitragem; uma articulação mais conseguida entre a Liga e a FPF também nesse aspecto. A próxima AG da Liga, que terá lugar na sexta-feira, produzirá algumas alterações estruturais em muitos aspectos, disciplinares, profissionais, de competição, arbitrais…

– Por exemplo?

– A divulgação ou, pelo menos, o acesso aos relatórios técnicos dos árbitros e delegados ao jogo. É uma coisa pela qual sempre lutámos. Há, pois, aqui, elementos positivos. Mas seria ingénuo pensar que a alteração deste caldo de cultura se fizesse num ano, dois ou três. Vai demorar tempo. E sabe o que implica tudo isto numa instituição como o Sporting, que tem a legítima aspiração de ser campeão nacional? Temos de ser substancialmente melhores do que os outros. Não chega ser 5% ou 10% melhores, temos de ser 30% ou 40% melhores.

– É curioso: o presidente do Benfica, Vale e Azevedo, ainda recentemente me disse o mesmo, numa entrevista. Só que ao Benfica parece que chegará ser 20% melhor…

– Não sei se o presidente do Benfica diz isso. O Sporting di-lo há bastante tempo. Externamente, vamos continuar a bater-nos contra os maus hábitos e a dar suporte a todos aqueles que nos fizerem acreditar que podem ser agentes de transformação; internamente, vamos acelerar a dinâmica e a competitividade da nossa equipa de futebol no sentido de gerarmos a tal margem de tolerância para aguentarmos aquilo que ainda vai acontecer durante alguns anos.

O BENEFÍCIO DO FC PORTO

– O famigerado “sistema” é, para si, um conjunto de maus hábitos. Ponho, de outra forma, uma questão a que há pouco não me respondeu: esse conjunto de maus hábitos tem beneficiado algum clube em especial?

– Acho que sim.

– O FC Porto?

– Acho que sim. Objectivamente tem sido beneficiado, independentemente de não se dever considerar que a hegemonia desportiva do FC Porto é totalmente “fabricada”. Não estou de acordo com isso. Mas é evidente que até essa própria supremacia gera, por si mesma, uma certa dinâmica e algumas sinergias, fazendo com que essa cultura não se desinstale.

– Isso que me está a dizer descobriu-o agora, ou já era uma realidade por si conhecida mesmo na altura em que estava de boas relações pessoais com o presidente do FC Porto, Pinto da Costa?

– Eu sabia que esta questão era posta, mas imaginava que houvesse alguma postura de boa-fé por parte do presidente do FC Porto. O que se passa é o seguinte: sou muito intolerante em relação à mentira! É uma coisa que me choca muito profundamente. Sabe porquê? Não se pode construir nada em cima da mentira. E há mentiras e mentiras. Obviamente, um ministro das Finanças nunca confirmará uma desvalorização da moeda no dia anterior à decisão, e isso pode até nem lhe pesar na consciência. Mas daqui parte-se para um outro equívoco que vigora no futebol nacional: qualquer mentira é legitimada pelo pseudo-interesse da instituição! É preciso acabar com isto. É um desprestígio.

– Não me diga que nunca faria isso no Sporting?

– Nunca faria, nem fiz! Nem toleraria. A partir desse momento estaria a trabalhar contra o prestígio do Sporting. E uma instituição só é verdadeiramente grande quando se afirma pela credibilidade. Confesso a minha intolerância para com a mentira, até porque ela gera memórias curtas.

– Julgo que, entre algumas cautelas, já me disse que o Sporting iria assumir-se este ano como candidato ao título…

– [Interrompendo] Não o disse com cautelas. O Sporting é, como sempre foi, candidato ao título. O que se passa é que este ano isso é uma prioridade. O ano passado, já lhe expliquei, a prioridade foi para as finanças do clube.

– … Mas também já disse, há pouco tempo, algures, que este ainda não seria o ano em que ganharia a melhor equipa. É capaz de me explicar esta aparente contradição entre querer ser a melhor equipa e não acreditar na possibilidade de ela ganhar?

– Já falámos disso quando abordámos a questão da verdade desportiva. Essa afirmação foi feita dentro de determinado contexto. E qual foi ele? Que seria ingénuo imaginar que o problema da verdade desportiva no futebol português está resolvido. Não está.

– Não teme estar a abrir uma porta por onde pode surgir a desresponsabilização da equipa e, em especial, dos jogadores?

– De todo em todo! Aos jogadores vai ser exigido serem 30 a 40% melhores do que os outros. E têm de estar preparados para que situações semelhantes à da época anterior, que espero nunca atinjam a mesma dimensão, sejam melhor encaixadas.

NÚMEROS DO DEFESO

– Quanto apurou o Sporting em vendas neste defeso e quanto investiu ou acabará por investir no reforço da equipa?

– Fizemos cerca de 4.2 milhões de contos com o Simão, o Leandro e o Nené. E até este momento gastámos 1.7 milhões com as aquisições de Ayew, Hanuch e Schmeichel, faltando resolver o caso do Toñito. Em relação a isto ainda lhe digo: dentro da lógica de gestão da Sporting SAD, não alterámos em nada a estratégia que tínhamos definida em relação a dispensas e contratações pelo facto de ter acontecido a saída do Simão. Já tínhamos programado o que iria acontecer e devo dizer que considero altamente importante que o Sporting tenha executado essa política como executou. Acabámos, apenas, por não conseguir o concurso do Brian Laudrup, em circunstâncias que têm a ver, também, com a mudança do treinador. Foi uma execução estratégica quase milimétrica. Vamos entrar na nova época com quase todos os problemas resolvidos. Mais: com algum jeito, vamos mesmo resolver todos os problemas relativos a situações pessoais que pesavam sobre o futebol profissional, até em termos orçamentais. Havia alguns ordenados altos que o Sporting estava a pagar sem necessidade. Veja a transformação do passe do Bruno Giménez, um futebolista caro, numa parte importante do passe do Quiroga – tratou-se de uma operação correctíssima e de boa gestão; se vir caso a caso, este percurso foi percorrido com enorme rigor. O Paulo Abreu está de parabéns, e aqueles que o acompanharam, porque conseguiu executar em termos negociais aquilo que foi a definição estratégica da Sporting SAD.

– Está a falar, entre outras coisas, da renovação dos contratos de Delfim e Duscher?

– Claro. E nesses processos entrou em linha de conta a experiência adquirida no caso do Simão, inclusive na introdução de cláusulas rescisórias mais elevadas.

– Nas contas que fez, sobraram cerca de 2.5 milhões de contos. E esse dinheiro…

– [Interrompendo] Esse dinheiro resulta em suporte financeiro da SAD, que ficou largamente reforçado e vai permitir, em termos de arranque da época, alguma correcção que se julgue adequada.

ESTRUTURA FUNCIONA

– Os novos jogadores foram contratados entre a saída de Mirko Jozic e a chegada de Giuseppe Materazzi. Quem avalizou essas contratações?

– O Conselho de Administração da SAD.

– Não é perigoso que seja o CA da SAD a chegar à conclusão que falta um guarda-redes ou sobra um extremo-esquerdo?

– Também não é assim. Há aqui uma questão de grande importância. O Sporting não vai voltar a viver aquela situação em que se compravam e vendiam equipas inteiras. E tem, por isso, uma estrutura no futebol profissional, na qual se encaixa o treinador que é depois quem diz se a equipa joga em 4x4x2 ou em 4x3x3. Essa estrutura funciona, pensa, observa, durante uma época inteira. Obviamente, vinham do tempo do sr. Mirko Jozic análises ao plantel, indicações sobre as quais reflectimos. Mas a responsabilidade final pertence ao CA da SAD. Ponto final, parágrafo.

LAUDRUP E O TREINADOR

– Brian Laudrup. Ele chegou a vir a Lisboa conhecer as pessoas do Sporting. Porque não fez ele a mesma opção do compatriota Schmeichel?

– A opção de Laudrup também se explica de forma clara e transparente. Ele fazia questão de conhecer o treinador no período de tempo que estabeleceu para tomar a decisão. E dentro desse calendário apertado o Sporting não definiu a questão do responsável técnico. Por isso tivemos de abdicar da corrida. Poderíamos ter andado a encanar a perna à rã mas fomos sérios e dissemos-lhe: “Dentro desse espaço de tempo não nos podemos responsabilizar pela concretização dessa sua vontade.”

– Porque acha que ele pedia isso?

– Penso que teve a ver com alguns desencontros com o técnico na temporada anterior, na qual passou muitos jogos no banco.

– Brian Laudrup era um negócio realista para o Sporting?

– Era.

– Como Laudrup não vem, o Sporting vai apontar a outro objectivo?

– Não. Sabemos que, inexoravelmente, no decorrer desta temporada poderemos ter de introduzir algumas afinações no plantel, mas não achamos necessário fazer outra contratação só porque Laudrup não veio.

– Admite, portanto, retocar a equipa de acordo com as convicções do novo treinador.

– Volto a repetir: na SAD do Sporting, o CA toma as decisões, o treinador treina e os jogadores jogam.

– Então…?

– Então, admitimos tudo, não apenas por vontade do treinador, mas por convicção da estrutura que decide.

LEANDRO E UMA HIPÓTESE

– O Sporting vendeu finalmente o Leandro, que chegou a ser dado como reforço para a próxima época. Como o Sporting pensou comprar outro ponta-de-lança que não apenas o Ayew – vide o caso de Washington -, sou levado a pensar que o clube vai tentar a vinda de outro avançado, de área, de características diferentes aos que já possui. Estou a ver bem?

– Imediatamente isso não vai acontecer

– Admite-o em Dezembro?

– Admito como possível depois da época ter começado.

HANUCH E O BENFICA

– Hanuch foi um jogador ganho em “sprint” ao Benfica?

– Não foi. O nosso interesse pelo Hanuch já existia antes do sr. Heynckes ter ido à Argentina observar jogadores. O que acontece é que o Sporting não publicitou o interesse e fez a proposta na altura em que tinha de a fazer, utilizando a força que poderá voltar a usar novamente assim que tiver interesse num jogador: a capacidade financeira. A estabilidade que ganhámos no último ano, a culminar uma recuperação encetada em 1995, permite-nos esse tipo de gestão. Coisa que não faríamos se não tivéssemos invertido as prioridades no passado…

– O Hanuch custou quanto?

– À volta de 400 mil contos – cerca de dois milhões de dólares, mais qualquer coisa.

– Gostava de deixar este assunto claro: o Sporting fez ou não questão de ganhar Hanuch ao Benfica e às notícias dos jornais?

– Nem pouco mais ou menos! Como critério de gestão seria paupérrimo.

– Então resguardou-se bem das notícias.

– E aí, volto a dizer, houve muito mérito de quem teve de implementar a estratégia e de a concretizar em termos negociais, que foi o Paulo Abreu.

JOZIC INDICOU AYEW

– Ayew: quando nasceu o interesse pelo ex-ponta-de-lança do Boavista?

– Ainda no tempo de Mirko Jozic. Considerou-se logo que seria um reforço indiscutível.

– Quanto custou?

– Foi um negócio que andou na casa dos 600 mil contos.

– Porque não ficou Washington no Sporting?

– Tinha problemas físicos que não eram aceitáveis pelos padrões mais rigorosos do Sporting.

ALMOÇO DE OCEANO

– O que significou o almoço a meio da época passada entre Carlos Janela e Oceano?

– Naquela altura, havia a ideia, talvez mais junto das pessoas que trabalhavam directamente com Mirko Jozic, que Oceano poderia enquadrar-se no projecto.

– Depois do que disse na altura da saída? Só prova que o presidente do Sporting não é rancoroso…

– Não, não. A memória existe. Por isso, seria sempre difícil ultrapassar as declarações proferidas pelo Oceano.

– Então não se percebe bem o contacto com Oceano…

– Percebe-se no sentido de apurar as razões pelas quais o Oceano tinha afirmado isso.

– Jozic não conhecia Oceano, nunca trabalhou com ele. Parece-me lógico pensar que a lembrança sobre o nome de Oceano nunca poderia partir do treinador… Nem de si…

– O regresso de Oceano, e isso é que é importante, foi liminarmente colocado de lado nesse momento, quando houve a divulgação do encontro.

QUESTÕES DO FUTEBOL

– António Oliveira e Carlos Queiroz foram nomes equacionados nos primeiros momentos da sucessão de Mirko Jozic?

– Não. Fizemos uma definição muito clara do perfil e, tal como na escolha anterior, por diversas razões, fomos para a necessidade de um técnico estrangeiro.

– Porque saiu Simões de Almeida do Sporting?

– Essa questão, se me permite, já foi suficientemente tratada. Não merece ser remexida.

– Só lhe faço esta pergunta: Simões de Almeida pediu para sair?

– Sim. E são opções de vida que devemos respeitar.

– Qual o grau de autonomia que Paulo Abreu tem no comando do futebol do Sporting?

– Aquela que tem de ter a pessoa que executa. Mas já lhe disse que as decisões estratégicas são tomadas por consenso no CA da SAD.

– Porque não esteve o presidente do Sporting presente na assinatura do contrato com Peter Schmeichel, a contratação mais emblemática deste defeso?

– Lá está: porque isso decorre da execução. E para não correr o risco de lhe aumentar o impacto mediático. Não foi para isso que contratámos o Peter Schmeichel.

TODOS NÃO SÃO DE MAIS

– Dias da Cunha tem-no substituído em diversas ocasiões. É ele o número 2 do Sporting?

– Não há aqui números 2, 3 e 4. O dr. António Dias da Cunha, em termos estatutários, substitui-me nos impedimentos. E está comigo deste o início deste processo, assim como o dr. Miguel Galvão Telles. Entretanto também entrou outra pessoa de muito peso, o João Ribeiro da Fonseca. E outros, em fases mais recentes, como o Nuno Galvão Telles e o Paulo [Abreu] também. As solicitações são muitas e todos não somos de mais para representar o Sporting e ajudarmo-nos mutuamente a resolver os enormes e permanentes conflitos da actividade no clube com as nossas vidas pessoais e profissionais. Temos de nos repartir. Até pelos núcleos. O Sporting cobre o País inteiro e está sempre bem representado mesmo quando não está o presidente.

ZIGUEZAGUES E CONFIANÇA

– O Sporting tem andado, é a minha opinião, em ziguezagues estratégicos permanentes no que concerne à área do futebol e o presidente do Sporting tem-se enganado na avaliação de muita gente, de Octávio Machado a Carlos Manuel, passando por Oceano, Sá Pinto, José Couceiro, Norton de Matos, que saiu duas vezes, e até Carlos Janela, que já saiu uma. Isso terá a ver, concedo, com as escolhas das diferentes pessoas que tutelaram a área do futebol. Mas eu pergunto: o senhor não se envolve demasiado no apoio inicial às pessoas ficando depois sem margem de recuo? O que aprendeu nestes dois três anos de estreita ligação ao futebol?

– Não aprendi nada que me impeça de repetir esses mesmos erros. É da minha personalidade. Ou acredito nas pessoas ou não acredito; não tenho meio termo. Não digo: “acredito, mas.” E dou o benefício da dúvida até ao limite do possível. Não consigo erradicar isso de dentro de mim e já o tenho pago bem caro.

– Noutras áreas também?

– Noutras áreas. E nessas, sim, com a perda de verbas muito elevadas. Mas não vou mudar a minha forma de ver a vida e as pessoas, porque, ao fim e ao cabo, isso também tem sido determinante nos sucessos que tenho conseguido. Não se consegue motivar uma pessoa quando não se acredita nela. Há quem julgue que é melhor gerir pela desconfiança e pelo medo. Eu não.

RELAÇÕES COM O BENFICA

– As relações com o Benfica como estão? Julgo que é visível uma certa vontade de aproximação do presidente Vale e Azevedo, vide algumas declarações públicas recentes.

– Enquanto não tiver razões para alterar o diagnóstico que fiz da personalidade do presidente do Benfica, não vai haver nenhuma alteração, ou seja, não vai haver proximidade pessoal. Se calhar, o dr. Vale e Azevedo é daquelas pessoas que quando faltam à verdade anestesiam os circuitos mentais com o superior interesse do clube. Não aceito isso. Mas as relações institucionais entre Sporting e Benfica estão salvaguardadas. Ainda há poucos dias tivemos atletas do Benfica a competir no encontro de atletismo Luís Figo, entre Sporting e Barcelona.

– É possível uma aliança, ou uma confluência estratégica, entre Sporting, Benfica e Boavista, clubes que se dizem críticos do “sistema” e apontam o dedo ao FC Porto?

– Aliança não há. Mas todos aqueles que achem importante mudar os maus hábitos e queiram ajudar a percorrer esse caminho são bem-vindos. Desde que a intenção seja mesmo essa, ou seja, se acredite que a mudança é mais importante do que as instituições.

– Distingue o presidente do Boavista, João Loureiro, do presidente da Liga, Valentim Loureiro?

– [Sorrindo] Claramente. Tenho razões para o fazer em termos objectivos. Tive negociações com o dr. João Loureiro – olhe, a propósito de Ayew – com as quais o pai não teria nada a ver.

– Tem melhores relações com o pai ou com o filho?

– Igualmente boas com os dois.

O CASO-FARENSE

– O senhor é empresário e dirigente desportivo. Como vê, nessa dupla função, o recente negócio entre o principal accionista do Salamanca, Juan Hidalgo, e o Farense?

– Com alguma frustração e tristeza, até por verificar que não foi possível a nível nacional cuidar adequadamente das questões relacionadas com a saúde económico-financeira dos clubes. Por outro lado, este caso vem tornar ainda mais válida a visão que o dr. Alberto João Jardim tem do Marítimo. É pena que o Algarve, uma zona turística ainda mais importante que a Madeira, não pudesse ter feito o mesmo com o Farense.

– É realista pensar que um grupo internacional possa entrar no capital da Sporting SAD? – Esse interesse já apareceu. Houve um grupo inglês que fez uma aproximação ao Sporting dizendo-se interessado no controlo maioritário da SAD. E dissemos liminarmente “não”. Essas defesas o Farense não as teve. Não acredito que tivessem, os seus dirigentes, aceitado este estatuto, que de alguma forma os torna menores, se pudessem dispor de alternativas melhores. E, se calhar, somos todos responsáveis por isso. A começar, repito, pelo Algarve.

– O Sporting foi surpreendido pela notícia?

– Foi. E eu teria gostado que eventualmente alguém do Farense, na qualidade de dirigente de uma das mais antigas filiais do Sporting, tivesse falado antes connosco.

– Adiantaria alguma coisa? Pensa que poderia ter dinamizado uma solução para o Farense?

– Eventualmente. Dentro do quadro legal. Como se sabe, o Sporting não poderia ser accionista de duas SAD’s. A lei não o permite. Mas poderia haver outras soluções que passassem por algumas pessoas interessadas no Sporting.

“SÁ PINTO ENCERROU ‘DOSSIER’ REGRESSO”

– O Sporting esteve interessado no regresso de Sá Pinto a Alvalade?

– Esteve mais do que interessado. Foi feita ao Ricardo Sá Pinto uma proposta objectiva, por alguns anos, que envolvia um montante muito, muito elevado.

– Essa proposta foi feita quando?

– Estamos a falar de alguns meses. E a essa proposta o Ricardo Sá Pinto nunca deu uma resposta conclusiva.

– Foi o senhor quem lhe apresentou essa proposta?

– Não, foi o Paulo Abreu. Mas eu mesmo falei depois com o Sá Pinto sobre a proposta.

– E então?

– Não houve a resposta adequada ao esforço que o Sporting estava disposto a fazer para tê-lo de regresso a Alvalade. E depois as coisas complicaram-se também pela parte da Real Sociedad, que nunca tendo fechado definitivamente as portas colocou condições que tornavam muito difícil a transferência. Nessa matéria, é óbvio que as coisas se complicaram irreversivelmente quando, com alguma infelicidade, o Ricardo Sá Pinto colocou as coisas daquela forma em termos públicos. Volto, a este respeito, a falar-lhe da memória curta das pessoas. Lembra-se de quem foi um dos principais crucificadores do Sá Pinto quando ele teve aquele problema com o seleccionador nacional, não lembra?

– Está a referir-se ao presidente do FC Porto, Pinto da Costa, não é verdade?

– Com certeza! Toda a gente se lembra do que ele disse!

– Bem, mas o Sá Pinto julgo que só confessou o seu amor ao FC Porto…

– Não faço mais comentários.

– O Sá Pinto tem no contrato uma cláusula de rescisão de valor creio que um pouco acima dos quatro milhões de contos. Qual era o limite que o Sporting estaria disposto a pagar à Real Sociedad para ter o jogador de regresso a Alvalade? Ele disse que por cerca de dois milhões de contos poderia sair…

– É provável. Mas esse número não estava encaixado na nossa linha estratégica. E juntando essa verba à outra, aquela que seriam os números do contrato do Ricardo Sá Pinto, então, sim, estaríamos na presença de uma situação desequilibrante no plantel. O Sporting nunca comprou um jogador por esse dinheiro, nem nada que se pareça.

– Sá Pinto queixa-se de que o presidente da Real Sociedad lhe terá transmitido, da conversa que teve ao telefone consigo, a pouca convicção do Sporting em fazer o negócio. Rebate este ponto?

– Tenho uma boa relação com o presidente da Real Sociedad, que data precisamente da ida do Sá Pinto para San Sebastian. E nessa perspectiva, a partir do momento em que não era possível cobrir uma eventual diferença, não ia estar a enganá-lo ou perder tempo.

– Como recebeu a entrevista de Sá Pinto ao jornal “A Bola”? Se calhar, até deveria tê-la recebido bem. Ao fim e ao cabo, com aquelas declarações, Sá Pinto tirou-lhe um peso de cima…

– Nunca a receberia bem. E com esse tipo de peso podia eu muito bem. Tenho pelo Ricardo Sá Pinto uma grande consideração.

– Falou com ele depois disso?

– Não, não falei. Mas respondendo à pergunta que me fez: tenho pena que ele tenha feito aquelas declarações. Foi infeliz e encerrou definitivamente o “dossier”.

– E não estava nessa altura?

– Talvez não totalmente. Em termos negociais, o Sporting não podia entrar num esquema de cobrir a grande diferença que existia. Mas quem sabe o que poderia suceder daqui a um ano?

– O que me está a dizer é que o Sá Pinto, depois desta entrevista, nunca mais poderá regressar ao Sporting…?

– Depois daquilo que disse, com o que chocou muita gente, é muito, mas mesmo muito, difícil o Sá Pinto regressar ao Sporting. E tenho pena. Principalmente por ele.

“PINTO DA COSTA MENTIU-ME COM TOÑITO”

– Vamos abordar o caso-Toñito e o “corte” com Pinto da Costa. O que se passou em concreto?

– Bem, nesse caso específico aguardei com muita paciência para ver até onde é que as coisas iam. Deixemo-nos de mistificações!, telefonei mesmo ao sr. Pinto da Costa com o único objectivo de tratar da questão do Toñito!

– Quando fez esse telefonema?

– Imediatamente a seguir ao jogo FC Porto-V. Setúbal. E se ele me tem levantado qualquer tipo de objecção em relação ao Toñito – por exemplo: “desculpe, estou interessado no jogador” – o problema teria ficado resolvido nesse momento.

– O Sporting ter-se-ia desinteressado do jogador?

– Imediatamente! Ele não era obrigado a conhecer o que se tinha passado entre o Sporting e o V. Setúbal, quatro semanas antes. Aliás, a minha surpresa face às declarações do presidente do V. Setúbal após o jogo das Antas levou-me, ainda, a fazer um outro telefonema para ele e, a partir daí, a tentar saber a quem efectivamente pertencia o passe do jogador. E só depois, então, a falar com o sr. Pinto da Costa.

– Fez a pergunta em concreto, ou seja, se o FC Porto estava interessado no Toñito?

– Concreta e objectivamente!!! E repito: se ele me tem respondido “sim”, dentro daquilo que era o nosso relacionamento as coisas ficavam resolvidas ali. Mas não, disse-me para estar descansado e tranquilo! Que o FC Porto honraria o entendimento que tinha connosco de não disputarmos jogadores. Está a ver?!

– Pinto da Costa mentiu-lhe, é isso que me está a dizer?

– Mentiu-me objectivamente! E mais, como por acaso eu não estava sozinho na sala, houve mais gente que seguiu o telefonema. O sr. Pinto da Costa mentiu-me e, para além disso, não honrou o compromisso que nesse mesmo telefonema assumiu comigo de deixar o Sporting sem a concorrência do FC Porto na contratação do Toñito. Nestas circunstâncias, não posso deixar de fazer o diagnóstico daquela que é a personalidade do presidente do FC Porto. E não posso ter qualquer tipo de tolerância. Já me bastou ser extremamente tolerante antes e dar o benefício da dúvida, como, de resto, faço sempre. Aliás, digo-lhe, dou o benefício da dúvida quase até ao limite da ingenuidade; mas depois de fazer o diagnóstico sobre a personalidade de alguém sou extremamente severo, até comigo próprio. Essas coisas têm muita importância na minha vida.

– Já vi que é impossível o presidente do Sporting vir a reatar as antigas relações com o presidente do FC Porto?

– Não é impossível. Se, por razões que eu não descortino, o presidente do FC Porto viesse dizer que faltou à verdade e não honrou o compromisso que tinha comigo… As pessoas na vida têm melhores e piores momentos e eu não trabalho em cima de ódios. De qualquer forma, as relações institucionais entre Sporting e FC Porto, como entre Sporting e Benfica, estão salvaguardadas. Em termos pessoais, aí sim, estão irremediavelmente afectadas, a não ser que aconteça algo de tão extraordinário como aquilo que lhe acabo de dizer.

– E acha que isso é possível?

– Não me parece, francamente.

– Vamos então falar de Toñito: o jogador vai ser reforço do Sporting?

– A decisão está em sede própria: o Tenerife. Esse é o clube que detém efectivamente o passe.

– O jogador já disse que quer jogar no Sporting. O acordo com o Tenerife está feito?

– O acordo definitivo com o Tenerife depende de circunstâncias próprias do clube. Vamos respeitar o interesse do legítimo dono do passe. – Segundo julgo saber, o Sporting já tem um acordo com a Direcção do Tenerife que precisa, no entanto, de ser sufragada pela AG do clube. É isso?

– É um acordo em termos de intenções. E agora temos de respeitar as circunstâncias próprias que comandam nesta altura a vida interna do Tenerife. Vamos aguardar uns dias.

“ESPERO QUE MATERAZZI SEJA CARO”

– Porque saiu Mirko Jozic do Sporting?

– Ao contrário do que a Comunicação Social possa acreditar, foram as condições físicas do sr. Mirko Jozic que determinaram o abandono. Ele é uma pessoa de enorme seriedade pessoal, a quem o Sporting muito deve em função do rigor e profissionalismo com que trabalhou no clube. Foi um factor de mudança muito importante. No entanto, como pessoa séria que é, o sr. Jozic sentia a sua incapacidade física e sabia da exigência que a próxima época imporia ao clube e à sua própria actividade. Algumas pessoas entenderam isso como uma desculpa e foi muito menos desculpa do que se possa imaginar.

– Quando a meio da época passada o Sporting encenou a renovação do sr. Jozic acreditava mesmo que ele iria continuar?

– Totalmente. Não tenha dúvida.

– Foi ele quem pediu para sair?

– Com esta objectividade: “Não estou em condições.” O que só abona em favor dele. Por isso continuo a ter por ele a maior consideração, tanto em termos pessoais como profissionais.

– Como surgiu o interesse em Giuseppe Materazzi?

– Surgiu em consequência de um trabalho sério e orientado, no qual não fugimos muito às linhas de fundo que estiveram na origem da contratação de Mirko Jozic. Definimos um perfil e voltámos a não ceder num ponto: queremos alguém para quem o futuro tenha mais importância do que o passado; alguém para quem o Sporting seja um enorme desafio. E assim chegámos, muito rapidamente, perto do sr. Giuseppe Materazzi. Não fizemos outro contacto. – Mas pelo menos um outro treinador, Nevio Scala, disse-se contactado por um empresário ligado ao Sporting… – Não foi verdade. Nunca fizemos essa encomenda nem mandámos nenhuma mensagem. Nevio Scala tem um passado suficiente para sentir realização profissional. Não se encaixava no tal perfil de alguém para quem o futuro, ou seja, o Sporting, fosse mais importante do que o passado.

– E também seria um treinador muito mais caro, com certeza.

– Eu espero que o sr. Materazzi venha a ser um treinador caro. Julgo que aquilo que o terá entusiasmado neste projecto, e a nós também, é precisamente ter aceite um enquadramento do trabalho no Sporting directamente relacionado com aquilo que consiga ganhar.

– Contrato por objectivos, portanto. Já agora pergunto-lhe: não acha que cometeu um erro com a apresentação do treinador imediatamente a seguir à polémica conferência de Imprensa sobre o caso-Toñito? Isso fez circular a ideia de que o Sporting estaria consciente do nome de Materazzi não corresponder inteiramente às expectativas criadas. Quer comentar?

– A verdade é esta: não estava previsto que as coisas acontecessem à velocidade a que aconteceram. Foi só isso. Eu próprio, que conheci o sr. Materazzi ao almoço desse dia, aqui em minha casa porque havia que fazer as coisas com o conveniente resguardo, não contava com um acordo tão rápido. Saí deste almoço com a nítida sensação que tínhamos encontrado a pessoa certa, mas – não me está a ver negociar os pormenores do contrato – havia coisas a resolver. Só fui informado do acerto total quando já estava na outra conferência de Imprensa.

– E essa estava programada?

– Com três dias de antecedência. Em relação à outra, como estava fechado o contrato, resolvemos que não havia razão para protelar a apresentação.

– Se pudesse ter programado as duas, manteria o mesmo formato ou teria realizado cada uma delas em dias diferentes?

– Eventualmente teria.

“SPORTING É UM DESAFIO PARA SCHMEICHEL”

– Como surgiu a hipótese da contratação de Peter Schmeichel? Ainda antes da final da Liga dos Campeões?

– Sim. A certa altura chegou-nos a informação que havia essa disponibilidade. O Peter Schmeichel ia mudar o enquadramento da vida dele e, possivelmente, sair de Inglaterra. Nessa altura entendemos que o Sporting poderia ser um desafio para ele, como acabou por se concretizar. Tenho fundadas esperanças que a vinda do Schmeichel se torne em muito mais que a operação mediática a que algumas pessoas quiseram reduzir a contratação dele pelo Sporting.

– É curioso: quando me fala do treinador diz que era importante para o Sporting contratar um homem para quem o futuro fosse mais importante que o passado. Não é uma contradição ir buscar um guarda-redes com a categoria, o percurso e a idade do Peter Schmeichel? Trata-se, é óbvio, de um grande atleta, mas estará, pelo menos, no terço final da carreira. E, com certeza, para ele será muito difícil, se não mesmo impossível, conseguir no Sporting um percurso futuro superior ao passado no Manchester United…

– Não é uma contradição, porque treinador e jogador são coisas diferentes. São planos de vida e enquadramento no Sporting diversos.

– Seja. Mas não admite que o mundo do futebol – e quando falo assim estou a colocar-me na qualidade de um observador que viva em Londres, Roma ou Munique, por exemplo – observe esta decisão de Schmeichel e de imediato pense que ele veio a caminho do sol, e de um clube onde não há tanta pressão competitiva quanto a existente nos grandes clubes europeus, para gerir calmamente o talento e a proximidade do final da carreira?

– Se se tratasse de outra pessoa que não fosse o Peter Schmeichel, e se não soubéssemos aquilo que sabemos dele, isso podia ser uma preocupação. Assim não é nenhuma.

– Bem, os dirigentes do Sporting dificilmente conhecerão o Peter Schmeichel tão bem como isso…

– O profissionalismo dele durante toda a carreira é uma enorme garantia. Esse aspecto não me preocupa minimamente.

– O ordenado dele não poderá ser factor de desestabilização dentro do plantel do Sporting?

– Não. Tivemos, como sempre, essa preocupação. Se fosse desequilibrante, tal como em outras alturas, teríamos dito: “Não está ao alcance do Sporting.” E o Peter Schmeichel entendeu isso.

– Acha normal, até como homem de negócios experimentado, que um jogador não se importe de ganhar menos que aquilo que sabe que vale em termos de mercado?

– É normal dentro de um entendimento alargado e na perspectiva que o atrai hoje: “O Sporting é um desafio importante e eu vou partir para ele.” O Peter Schmeichel, é óbvio, podia ter feito escolhas mais mediáticas.

– É exactamente esse o ponto que faz desconfiar muita gente.

– Mas não nos faz desconfiar a nós, que acompanhámos as negociações, e sabemos que ele prescindiu de alguns aspectos negociais concretos precisamente por entender que não poderia ser factor de turbulência dentro do Sporting. Isso reforçou-nos a ideia de que ele olha para o Sporting como um enorme desafio. Ele sabe que o Sporting não é a melhor equipa da Europa; que não é campeão há vários anos. Mas essa foi a situação que ele encontrou num clube como o Manchester United quando lá chegou. E isso, não tenha dúvidas, é motivante para um homem como ele.

– Não duvido da bondade da sua fé no profissionalismo de Peter Schmeichel, mas acredito que se estivesse de fora do Sporting, ou mesmo no clube e fora desse círculo restrito que terá ficado impressionado com a personalidade do homem, também teria as suas dúvidas. Que, de resto, o tempo esclarecerá.

– Acredite nisso. Tenho elementos de informação que não têm aqueles que estão fora do Sporting.

“JOGADORES ESTÃO A SER UTILIZADOS NA GUERRA DOS COMISSIONISTAS”

– Três jovens jogadores do Sporting – Paulo Costa, Alhandra e Caneira – pediram a rescisão do contrato. Que razões encontra para isso?

– Os jogadores estão a ser utilizados na guerra dos comissionistas contra o Sporting. É uma questão que acabará tratada, infelizmente, na Comissão Paritária.

– Vamos falar, então, na polémica pública com esses empresários que o senhor, e o Sporting, chamam agora de comissionistas…

– Não é uma polémica pública. Existe uma acção-crime em curso, do Sporting, contra esses senhores.

– E qual é a diferença entre eles e, por exemplo, José Veiga, empresário com quem o Sporting trabalha?

– O Sporting trabalha com José Veiga como trabalha com mais alguns que não estavam naquela conferência de Imprensa que o clube considerou danosa para o seu bom nome e dos seus dirigentes. A diferença está na ofensa e na calúnia. A zona dos empresários faz parte do “sistema”, daquele conjunto de maus hábitos que têm de ser erradicados. Tem de ser tratado com algum pormenor a figura do empresário. Representa quem? O jogador? Então…

– Se alguém luta contra o “sistema” nessa questão, esse alguém parece-me ser o presidente do FC Porto, Pinto da Costa…

– Mas eu não digo que as coisas são incorrectas só porque é o presidente do FC Porto a dizê-las.

– José Veiga não está transformado no empresário oficial do Sporting?

– Não. De todo em todo.

– Mas tem tido procuração do Sporting para tratar de algumas contratações, ou não?

– Porque José Veiga está normalmente inserido no circuito. Mas volto atrás: há problemas éticos gravíssimos a nível da regulamentação da função de intermediário. Então alguém que se diz gestor da carreira de um jogador recebe, ao mesmo tempo, do clube comprador e do clube vendedor?

– A ligação de José Veiga ao Sporting não terá também como pano de fundo a polémica que opõe actualmente esse empresário ao presidente do FC Porto? Ou seja, não há aqui o interesse estratégico do Sporting em rentabilizar divergências entre pessoas que se conheceram muito bem?

– Não pense nisso. As relações com José Veiga são anteriores.

– As relações do Sporting com José Veiga já tiveram momentos bons e momentos maus. Estes últimos aconteceram nos tempos de Sousa Cintra e, mais recentemente, aquando da passagem de Octávio Machado por Alvalade, um treinador que procurou imunizar, ele sim de maneira geral, o clube aos empresários.

– Não conheço nenhum dano que o sr. José Veiga alguma vez tivesse feito ao Sporting.

– Está de acordo com Pinto da Costa quando ele diz que os empresários não devem estar nas negociações entre os clubes?

– Mas houve algum intermediário, por exemplo, na venda de Simão ao Barcelona?

– Não houve José Veiga?

– Pelo lado do Sporting, não.

– Teve conhecimento do eventual contrato assinado por Simão com o Inter?

– Só tivemos conhecimento desse papel, que terá sido assinado em Milão, pelos jornais e depois do acordo com o Barcelona. Não houve qualquer contacto oficial do Inter com o Sporting.

“JOÃO ROCHA FOI IMPORTANTE MAS ESTÁ A ANULAR O PASSADO”

– Continua a ler o que escreve o Santana Lopes?

– Como leio as coisas que se escrevem neste sector; como leio o sr. [Alfredo] Farinha.

– Não acha que a Santana Lopes deu muito gozo a zanga José Roquette-Pinto da Costa?

– Se tiver dado… Mas nós decidimos pelos interesses do Sporting, antes e depois. Não decidimos pelo impacto mediático ou pelas opiniões específicas de alguém. Até nos podemos enganar algumas vezes, mas decidimos pelas nossas convicções.

– No caso do FC Porto acha que se enganou?

– Obviamente, foi um equívoco, mas ninguém está livre disso. Fiz um diagnóstico sobre a personalidade do presidente do FC Porto que se revelou errado. E, se Deus quiser, ainda vou errar muito mais vezes.

– Santana Lopes e João Rocha, dois ex-presidentes, são oposição no Sporting?

– Não vejo isso nessa perspectiva. Gostaria, eventualmente, que se assumissem como tal. Mas não vejo isso em relação ao dr. Santana Lopes.

– E em relação a João Rocha?

– Vejo, com muita tristeza, uma amargura e um destilar de coisas que não tem nada a ver com os interesses do Sporting, nem nenhuma importância. O sr. João Rocha foi uma pessoa muito importante em determinado momento do clube e parece interessado em anular isso. Parece esquecido de que um antigo presidente tem direitos mas também tem deveres.

– Tentou, de alguma maneira, anular essa zona do conflito através do diálogo com João Rocha?

– Com certeza. Porque tenho algum desgosto com esta situação. No meu quadro mental, quando falo dos fundadores, não estão apenas o meu avô e o meu trisavô; estão dezanove pessoas das quais até sei o nome. A questão de saber o que se passou na fundação do Sporting é pouco importante para o clube hoje, embora seja importante em termos de história. Não justificava esta polémica constante. Neste momento, existe uma comissão encarregada de produzir um livro branco que explicará tudo. E, pelo nível das pessoas que o preparam, garante com certeza a verdade. Parece-me que tudo isto não faz sentido.

– …

– É que João Rocha não parece ter divergências estratégicas, se não iria à assembleia geral e proporia uma alternativa em sede de Poder. Objectivamente, quando se tratou da alteração estatutária referente ao Conselho Leonino, ele deslocou-se lá e todos sabem qual foi o resultado dessa assembleia. Uma coisa que a mim me pesa é que o sr. João Rocha não respeita essa sede do Poder e a decisão dos sócios.

– Tanto o senhor como João Rocha, que esteve 13 anos como presidente do clube, sabem muito bem como se exerce o Poder e para que servem as assembleias…

– Não é como se exerce o Poder. Estas questões têm muita importância.

– Não teria sido mais avisado não atirar João Rocha para fora do Conselho Leonino?

– Volto a repetir que tinha a intenção de o convidar para continuar no Conselho depois da alteração estatutária. Ele é que se auto-excluiu.

– A questão hoje, com as últimas referências de João Rocha, que até meteu uma alusão a urinóis, parecem-me nitidamente do foro pessoal…

– Não da minha parte.

Fonte: Record

Local: Record
Evento: Entrevista a José Roquette Julho de 1999

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