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Segunda-feira, Outubro 26, 2020

Entrevista a Materazzi em 2009: «O meu coração tem duas cores: verde e branco»

Em Ibiza, o italiano recorda saída do Sporting, há dez anos, e deseja boa sorte a Paulo Bento no clássico do Dragão.

Giuseppe Materazzi está na história do futebol. Do Sporting. E da Europa. Deve ter sido o primeiro treinador a ser demitido das suas funções sem ter perdido um único jogo do campeonato em que participa (duas vitórias, três empates e 9-5 em golos nas primeiras cinco jornadas). Foi há dez anos que a direcção de Roquette despediu o italiano, pai de Marco Materazzi, o herói (para os italianos) e o vilão (para os franceses) na final do Mundial-2006.

No Sporting, Beppe Materazzi foi sempre tido como o vilão mas ele nunca se importou com esse rótulo. Nem em 1999, nem agora. Por falar nisso, onde é que ele anda? O i foi apanhá-lo em Ibiza. De férias e a apanhar sol? Não, a treinar, como adjunto do compatriota Onofrio Barone, no Eivissa Ibiza, que desceu de divisão pelo segundo ano seguido e está nos distritais. Bem disposto, atendeu o telemóvel em italiano e despediu-se com um “adeus, até breve” em português.

Naquele Sporting 1999-2000, que se sagraria campeão pela mão de Augusto Inácio, com a ajuda de Schmeichel, Duscher e Acosta, sem esquecer os reforços de Inverno: César Prates (Real Madrid), André Cruz (Milan) e Mpenza (St. Liège).

Entre Agosto e Setembro de 1999, o Sporting fez seis jogos, um deles para a Taça UEFA, a saber: Santa Clara, 2-2 nos Açores (golos de Edmilson e Acosta a anular a dupla vantagem ao intervalo dos açorianos, em estreia na 1.a divisão); V. Setúbal, 2-1 em casa (Ayew e Beto, este no último minuto); Farense, 3-0 em Faro (Ayew, Rui Jorge e Delfim); Estrela Amadora, 1-1 em casa (Acosta e um penálti falhado por Rui Jorge); Viking, na Noruega (0-3); Gil Vicente, 1-1 no 1.o de Maio em Braga (Delfim a empatar de livre directo num jogo com as expulsões dos centrais sportinguistas Marcos, aos 69′, e Beto, aos 83′).

A derrota em Stavanger, com o modestíssimo Viking, foi a gota de água que o empate com o Gil Vicente em campo neutro ajudou a destituir Materazzi, o homem que só falava italiano e cujas palestras eram traduzidas para os restantes companheiros pelo ganês Ayew, irmão de Abedi Pelé e com passagens por Itália, pelo Lecce, onde, curiosamente, Materazzi jogou. Mas o jogo desgarrado do Sporting, os sucessivos empates, o naufrágio norueguês face ao Viking e algumas substituições polémicas trataram de acabar com o ambiente do técnico italiano, que não se saiu nada mal num aspecto: seis dos nove golos dos leões foram de bola parada (cantos ou livres).

Cento e quatro dias depois de assinar pelo Sporting, até Junho de 2001, Materazzi fez as malas e voltou a Itália, onde ainda iria treinar nessa época o Veneza, na 1.a divisão italiana. Substituiu Luciano Spaletti, mas, 27 dias depois, Materazzi foi destituído e entrou… Spaletti.

Dez anos depois, que recordações ainda tem do Sporting?

Levo o Sporting no coração. O meu coração tem muitas cores, duas delas são o verde e o branco. Apesar de ser um clube desencontrado com a sua identidade no meu tempo, é um grande de Portugal e isso conta bastante no meu currículo. E não só. Na altura do Sporting-Fiorentina para a qualificação da Champions, percebia-se no discurso da Fio- rentina, bem como nos jornais italianos, uma certa preocupação pelo jogo dos portugueses. Vocês, portugueses, sempre foram assim.

E isso deve-se a quê?

No caso do Sporting, à aposta na escola de formação. Nunca me esqueço do dia em que vi [Cristiano] Ronaldo, magro e frágil a jogar nas camadas jovens. Tinha ele 14 anos e ainda era um menino. Muito tímido e trabalhador, pelo que vi.

E agora é o melhor do mundo.

Sim, é um dos que desequilibram de forma mais espectacular. Aliás, vocês, portugueses têm um talento inato para o futebol. Têm tradição, têm técnica. Futre, Figo, Ronaldo… O Sporting fabrica supertalentos em cada década.

Há dez anos, o que realmente aconteceu com o Sporting?

Para já, não fui demitido. Fizemos um acordo para compensar as quase duas épocas de contrato que ainda me faltava cumprir.

Que argumentos lhe deram para a rescisão?

O presidente José Roquette chamou-me e disse-me que estava insatisfeito com os resultados e com a maneira como a equipa jogava. Não foi preciso mais. A decisão tinha sido tomada, tratou-se de uma simples comunicação.

Foi por isso que não se demitiu? Esperou a demissão para receber uma indemnização?

São coisas diferentes. Estou convencido de que o meu trabalho não era tão mau que merecesse ser despedido. A equipa nunca perdeu, e até conseguiu sobreviver a um período de grande instabilidade directiva sem se afundar completamente. Como treinador competia-me segurar a equipa, e evitar ao máximo que os dramas externos a prejudicassem.

Faltou-lhe o apoio do presidente? Quantas vezes se encontrou com ele?

Apenas uma. No início desse Setembro, chamou-me para me dizer que a equipa jogava mal. Contestei imediatamente e recordei-lhe que ainda esperava certos jogadores.

O Sporting faltou ao prometido?

A verdade é que imediatamente após o fim do estágio [Caldas da Rainha] pedi ao vice-presidente Paulo de Abreu um grupo de jogadores.

Sente-se campeão nacional?

Sim. Pelos cento e poucos dias que trabalhei e pelo De Franceschi, o extremo italiano que levei comigo para aí. A partir de Setembro, tornou-se a minha extensão no Sporting. E ele foi titular no jogo do título [4-0 ao Salgueiros, no Vidal Pinheiro]. Portanto…

O Sporting jogou bom futebol no seu tempo?

Se fizermos um balanço, sim. Ninguém se pode esquecer que logo depois da derrota em Barcelona [3-1, para o Torneio Joan Gamper, fundador do Barça] a instabilidade passou a dominar o comportamento de todos os dirigentes. Fiquei surpreendido com tanta falta de união! Bastava olhar para a cara das pessoas e ver que estavam aterrorizadas. Mais tarde ainda os vi sorrir quando ganhámos ao Farense. Passaram do inferno ao paraíso em poucos instantes. Um desequilíbrio emocional inacreditável [nessa altura, Schmeichel, entrevistado por um jornal dinamarquês, confirmou isso mesmo].

Nessa altura voltou a recordar que precisava de jogadores?

Entre pessoas sérias, basta dizer as coisas uma vez. Fui para Lisboa para trabalhar. Observei a equipa, fiz experiências, apontei-lhe as virtudes e os defeitos. Depois, depois fiquei à espera de que me levassem a sério.

A equipa era boa?

Tinha bons futebolistas, mas não são o fenómeno que os dirigentes e parte dos adeptos estão convencidos que têm nas mãos. Na vida e no futebol é preciso saber controlar a euforia e a depressão. É importante manter a serenidade nas duas situações. Em Lisboa, quando a torta era boa todos queriam uma fatia. Mas quando surgiam os problemas, só sobrava a equipa e o treinador.

Amanhã, é dia de FC Porto-Sporting.

Que jogo vibrante. É um clássico. Um passo em falso e é a morte do artista. Boa sorte para o Paulo Bento.

E o seu filho Marco?

Em 1999, disse aos dirigentes do Sporting que precisávamos de mais um central e indiquei o meu filho. Disseram que não tinha qualidade. Hoje é do Inter de Mourinho e da selecção. Mas o futebol é assim mesmo.

Fonte: ionline.pt

Data: 25/09/2009
Local: ionline
Evento: Entrevista a Materazzi

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