RUGIDO VERDE

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Domingo, Janeiro 26, 2020

Entrevista a Lito em 1984: «Estou farto de palhaçadas!»

Por Mota dos Santos

Através desta histórica notificação, Lito passou a andar nas «bocas do mundo»:

Nossa referência: 4/47/1662

Lisboa, 9.11.84

Assunto: Proc, N.º 1688/Disc. – Notificação de acórdão.

Pelo presente e para os devidos e legais efeitos, cumpre-nos notificar V. Ex.? do acórdão proferido pelo Conselho de Disciplina desta Federação, na sua reunião de 8 do corrente em que é arguido o v/ jogador Sr. JOSE ELDEN DE ARAUJO LOBO JUNIOR (LITO) e instaurado por virtude duma entrevista por si concedida ao Jornal «A BOLA» e publicada na edição de 8/9/84.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Esclarecemos V. Ex.º de que o cumprimento do castigo aplicado ao jogador em causa da pena de três (3) jogos de suspensão, começa a ser cumprido a partir do trânsito em julgado do acórdão notificado a ESSE CLUBE.

Mais esclarecemos V. Ex, que o trânsito em julgado se verifica, nos termos da al. b) do nº1 e nº2 do Art.º 59.º do Estatuto da FPF, decorridos que sejam CINCO DIAS (5) a partir do TERCEIRO DIA POSTERIOR ao do registo desta notificação ou do primeiro dia útil seguinte a esse 3.º dia, de acordo com o n.º 3 do art.º 1.º do Dec.-Lei n.º 121/76, de 11 de Fevereiro e C. Oficial n.º 65, de 7.12.78, da FPF, ou ainda a partir da data de entrada na FPF de documento em que, dentro do mencionado prazo de cinco dias, o infractor prescinda de interpor recurso.

Esta notificação, assinada pelo Chefe de Serviços de Estudos Jurídicos e Contencioso da FPF, A. Marques de Matos, foi enviada ao Secretário-Geral do Sporting Clube de Portugal e dada a conhecer ao seu advogado, dr. João Gaspar, em 13 de Novembro de 1984. Proferido pelo Conselho de Disciplina da FPF, na sua reunião de 8 de Novembro, o citado acórdão baseia-se no seguinte: «A garantia Constitucional da Liberdade de expressão e pensamento não iliba o agente que, no uso de tal faculdade, prejudica terceiros. As afirmações referidas pelo arguido, salvo melhor opinião, são pelo menos desrespeitosas e atentatórias da dignidade de membros de órgãos da FPF. Aliás, na sua contestação o arguido só refere que não teve intuitos difamatórios ou injuriosos, mas objectivamente as suas declarações publicadas na imprensa consubstanciam um «animus injuriandi», que o fazem incorrer em infracção disciplinar».

Só me resta o caminho da mentira?…

Para a história deste insólito caso, cujo inedetismo levou a Imprensa portuguesa a interessar-se por ele, relembre-se que, na aludida entrevista, Lito, para além de exprimir frontalmente a sua opinião em relação ao tema «Selecção», não foi menos frontal quando tomou posição no que concerne a alguns pontos que, na altura, se mantinham obscuros na esfera «leonina». O Sporting instaurou um inquérito ao seu jogador, cujo resultado não foi tornado público. «Foot» pode garantir, agora, que Lito terá de pagar uma multa pesada ao seu clube, porque as suas declarações – nomeadamente em relação à situação de Oliveira – foram consideradas abusivas e como uma intromissão nos assuntos internos da colectividade «leonina». No entanto, «Foot» foi mais longe. John Toshack, numa famigerada Conferência de Imprensa, em que consideraria «estúpida» a pergunta de um jornalista que questionava sobre os possíveis efeitos da continuação de Oliveira em Alvalade, disse a dado passo: «estou convencido de que Lito, quando lhe for solicitada uma entrevista nos próximos tempos, não a concederá».

Na verdade, Lito esteve pouco de dois meses em silêncio. Não falou porque não quis ou porque foi coagido a não fazê-lo.

«Foot», porém, conseguiu quebrar esse silêncio. Lito resolveu-se a contar-nos o que foram para si asses terríveis e torturosos dois meses e algumas das facetas (ocultas) deste intrincado processo:

«Foot» Psicologicamente, você ficou arrasado?

Lito – Na primeira semana, confesso que fiquei desiludido a todos os níveis. Contudo, senti o apoio dos meus verdadeiros amigos. Recebi dezenas e dezenas de telefonemas, até parecia uma coisa do outro mundo. Acabei por me conformar. Tenho a consciência absolutamente tranquila.

«Foot» – Pensa que ficará marcado para sempre?

Lito – Só poderei ficar marcado pelas pessoas que não me conhecem. As outras sabem que estou com a razão. Acreditam em mim e conhecem o meu passado. Sabem que não sou polémico. Mas também sabem que sou sincero e verdadeiro. Odeio a hipocrisia de certas pessoas que não se coíbem de mentir para iludir os menos prevenidos. Não é esta a minha maneira de estar no futebol. Eu pensava que, no «mundo da bola», nem tudo cheirava a falso. Agora, começo a compreender. E, se calhar, para que não seja crucificado, terei, no futuro de mudar de atitude. Contra a minha própria vontade! Para não me sentir lesado, parece que não me resta outro caminho senão o da mentira…

«Foot» – Os serviços competentes da FPF tiveram o cuidado de o ouvir antes de aplicarem a sanção disciplinar?

Lito – Ninguém me ouviu. Ninguém quis saber por que razão tive certos desabafos. Não pretendo, agora, procurar desculpas, porque, na verdade, disse o que sentia, mas aquilo que declarei na altura foi baseado na minha experiência de Selecção. Na FPF, esqueceram-se da contribuição que tenho dado, futebolisticamente, ao país. Mais: eu sei que, na véspera do Portugal-URSS, decisivo para as nossas aspirações, os jogadores discutiram com os federativos o montante do prémio a atribuir no caso de vitória, o que em circunstância alguma podia acontecer a escassas horas de tão importante partida. Foi por esta e por outras razões que formei uma opinião em relação à «competência» dos senhores que mandam na Federação. Esse meu juízo, repito, teve origem na minha observação directa e naquilo que tenho ouvido dizer. Se mentisse, só para ser agradável a determinados senhores, estaria não só a desrespeitar o jornalista, mas também os leitores que fazem o favor de ler aquilo que eu digo. E isso não está certo.

«Foot» – Considera-se um jogador polémico?

Lito – De maneira nenhuma. Nunca fui polémico nem quero sê-lo. Estou há dez anos no futebol português e tenho orgulho em dizer que nunca me foi mostrado um cartão vermelho. Considero-me um dos jogadores mais correctos do futebol nacional. Também por isso nunca me passou pela cabeça que pudesse ser suspenso num país que se diz tão democrata. Eu pergunto: onde está a democracia destes senhores que não sabem aceitar a opinião de um simples cidadão?

«Foot» – Como reagiram os seus colegas?

Lito – Esses, mais do que os outros, sentiram o problema. E apoiaram-me calorosamente. Gostaria de dizer, aliás, que isso também aconteceu em relação aos meus técnicos, Toshack e Pedro Gomes. Eles fizeram-me acreditar que, independentemente de tudo o resto, só queriam o meu bem. Sob o ponto de vista psicológico, tiveram um papel muito importante.

Querem tapar o sol com uma peneira

De repente, estava Lito a falar para a «Foot», apareceu Toshack. Surpreendido com a presença do jornalista e com a «ligeireza» do diálogo – o técnico galês não pronunciou uma palavra, mas, através de um gesto, deu a entender, virando-se para Lito: «You’re crazy!»

Lito não se perturbou e o diálogo prosseguiu.

«Foot» – Você recorreu da decisão do CD da FPF?

Lito – Exacto. Depois de receber o comunicado da FPF tive de recorrer para o Conselho Superior de Justiça. Agora, estou à espera de uma decisão.

«Foot» – …

Lito – O meu depoimento não tem nada de injurioso. Apenas respondi com sinceridade às perguntas que o jornalista, dentro do seu papel, me colocou. E continuo a dizer que falta na FPF um dirigente como os de antigamente. Ainda há dias, antes do Portugal-Suécia, um jogador declarou publicamente, através da Rádio, que a FPF não ligou nenhuma a um pedido do José Torres. Com efeito, dizia esse jogador que o seleccionador nacional tinha solicitado que se passasse um cilindro sobre a relva de Alvalade, por esta se encontrar demasiado ondulada. Os federativos, pelo que se deduz, não ligaram nenhuma, e se têm ligado Portugal poderia ter beneficiado com isso…

«Foot» – Você pensa que se estão a aproveitar de si para, a partir de agora, taparem a boca a outros «prevaricadores»?

Lito – Sem dúvida que se estão a aproveitar de um caso sem importância para aplicarem, futuramente, a sua dura lei. No fundo, estão a tapar o sol com uma peneira. A propósito, quantos foram os jogadores que, durante e depois do Campeonato da Europa realizado em França, «disseram mal» de treinadores e directores federativos? Não é verdade que há directores e treinadores que criticam os jogadores de forma depreciativa? E que temos nós com isso? São opiniões! Temos de as aceitar…

«Foot» – …

Lito -Sabe o que lhe digo? Está tudo a voltar ao «24 de Abril». Isto não acontecia nem no tempo de Salazar! Está tudo pior. É uma situação absolutamente inédita! «Foot» diz para Lito que qualquer dia os jogadores são impelidos a assinar contratos em que uma das cláusulas cerceará a sua liberdade de expressão. Lito responde que não sabe se isso já acontece presentemente e… prometeu investigar.

Farto de palhaçadas ando eu!

«Foot» – Você reafirma o conteúdo da entrevista que concedeu a «A Bola»?

Lito – Não estou nada arrependido de ter concedido essa entrevista e reafirmo tudo o que disse, com o sentido crítico que lhe está inerente.

«Foot» – Há quem pense que você foi encostado no Sporting por causa daquilo que disse. Verdade?

Lito – Penso que isso não aconteceu. A certa altura – o que as pessoas desconhecem – tive um problema de bursite, mas, mesmo assim, com sacrifício, continuei a jogar. Depois, saí da equipa por opção do treinador, que, a determinado momento, preferiu o Litos. Penso que o meu «afastamento» nada teve a ver com aquela entrevista. Tenho estado parado desde o jogo de Minsk, recomecei a treinar-me no dia 20, mas, fisicamente, como se compreende, ainda não estou em «forma».

«Foot» – Em situações semelhantes, tem acontecido que colegas seus, depois de darem entrevistas com conteúdo algo polémico, são instados a desmenti-las pela entidade patronal. Fazem-no, o odioso recai sobre os jornais e os jornalistas e… acabou-se o problema. Por que razão não escolheu você esse caminho?

Lito – O aspecto moral das coisas conta muito para mim. Quando – bem ou mal – dei a entrevista preocupei-me simplesmente em responder, com honestidade, às perguntas que me foram colocadas. Por respeito pelo jornalista e por respeito pela opinião pública. E, para além do aspecto moral de que lhe falei, não desmenti a entrevista porque… farto de palhaçadas ando eu!

Bajuladores

«Foot» – Teve (depois da entrevista sair) alguma conversa com José Torres?

Lito – Já falei com ele e devo-lhe dizer que, na primeira vez que isso aconteceu, não gostei nada da maneira habilidosa como ele abordou o assunto. Quis fazer de mim parvo. Quis «dar uma» de defensor. Sinceramente, não gostei. Tudo o que ele pode saber foi contado por terceiros. Em Portugal, particularmente no futebol, as pessoas não estão habituadas a respeitar as opiniões dos outros, fazendo dos jogadores e treinadores uns autênticos bajuladores. E quando estes «não servem os interesses de» são cuspidos da engrenagem. E, às vezes, não é o melhor que serve, é o que melhor cai em graça…

A verdade é uma bebida muito forte que nem todos aguentam

«Foot» – A solidariedade que lhe expressaram não acaba por ser um tanto artificial?

Lito – E uma situação muito melindrosa. Nós, jogadores, estamos muito dependentes. Os que me apoiaram através da palavra dificilmente dão a cara. E há uma tendência para o individualismo que eu aceito perfeitamente. Há sempre uns mais corajosos do que outros… Tenho amigos que me disseram a propósito de toda esta «embrulhada»: tudo o que falaste é verdade, foste um tipo corajoso, mas quem se lixa és tu». Eu começo a pensar que eles têm razão. A verdade é uma bebida muito forte que, infelizmente, nem toda a gente aguenta.

«Foot» – Que tipo de pessoas lhe expressaram solidariedade?

Lito – Colegas do Sporting e, inclusivamente, jogadores do Benfica, F. C. Porto e da II Divisão.

«Foot» – O Sindicato dos Jogadores, através do seu presidente (José Eduardo), já tomou posição…

Lito – José Eduardo, de facto, telefonou-me e pôs-me ao corrente das medidas que ia tomar. Fico-lhe agradecido, não só por mim, mas, sobretudo, pela «classe». José Eduardo é um jovem inteligente, com uma personalidade muito forte, de quem os jogadores, de um modo geral, muito podem esperar. Mas somos nós (e alguns directores) que temos de dar força ao Sindicato. Um só homem, sozinho, não pode fazer nada!

«Foot» – A «classe» dos jogadores não parece muito unida…

Lito – Somos uma classe desunida, fundamentalmente pelo comodismo de certos «craques». Posso compreender, de certa forma, o individualismo das pessoas, mas não aceito que, por causa disso de descurem os interesses colectivos. Embora como se compreenda, Lito não toque em determinadas «feridas» isso podia-lhe custar a sua própria subsistência, o conceituado jogador leonino não se eximiu em se afirmar de novo como realmente é.

Neste diálogo com a «Foot», Lito demonstrou mais uma vez que é um homem frontal. Não foge às responsabilidades. Encara-as com sangue frio. Virgílio, seu colega que entretanto apareceu à nossa beira, como profissional de futebol e membro do Sindicato de Jogadores, tinha algo para dizer: «Embora eu concorde que a liberdade de expressão não deva colidir com princípios éticos e morais, não me parece que as declarações de Lito colidam com esses princípios e muito menos me parecem ofensivos ou passíveis de beliscar a personalidade ou a dignidade das pessoas que são visadas. Parece-me, por isso, que o castigo é absolutamente injusto».

Fonte: Revista «Foot» Nº2

Data: 01/12/1984
Local: Estádio José Alvalade
Evento: Entrevista à Revista «Foot»

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Nuno D

Seria bastante interessante poder ler a tal entrevista que deu origem a este castigo. É que sem ela isto não faz muito sentido.