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Quinta-feira, Abril 09, 2020

Entrevista a Duílio em Março de 1988: «Temos de acabar de uma vez por todas com o Sporting a correr apenas para a UEFA e para o terceiro lugar»


Duílio tem sido o que mais tem remado contra a maré negra deste Sporting 87/88. Rui Águas regressa agora ao seu melhor, subindo ao ritmo do Benfica de Toni. Ambos se vão defrontar no «derby» da primeira semana de Março. Isto, no Campeonato Nacional, já que no reatamento das competições europeias, vão estar juntos para levar bem alto o nome de Portugal. Serão eles os herdeiros do super-campeão FC Porto?

(Respostas de Duílio na entrevista conjunta com Rui Águas)

FOOT – No âmbito individual, sentem-se satisfeitos com a temporada em curso?

DUÍLIO – Iniciei bem a temporada, a produção foi subindo cada vez mais, e agora mantenho um nível regular de exibições. Era disso que estava precisando desde que cheguei a Portugal: continuidade. Só com Burkinshaw o consegui, e espero continuar agora a merecer a confiança de quem dirige. A última palavra, claro, pertencerá sempre ao treinador.

FOOT – O que pensam um do outro?

Rui Águas – O Duílio é um jogador de que já ouvia falar antes de vir para o nosso País. É um defesa que não necessita de usar o físico, porque sabe jogar e chuta bem. É sempre um problema para qualquer avançado, não apenas por ser muito forte fisicamente.

D. – O Rui é um jogador difícil de parar, porque se desmarca a propósito e procura muito a bola, seja rasteira ou, principalmente, alta. Tem um grande poder de elevação e isso dificulta bastante a marcação. (Na sua ausência, Duílio elogiara Rui Aguas em termos muito mais concludentes, pedindo-nos para não transcrevermos para… não o moralizar em vésperas do «derby»).

FOOT – Benfica e Sporting com treinadores portugueses. Que vantagens?

D. – Este vai ser o meu primeiro Benfica-Sporting com técnicos portugueses. As vantagens começam pelo idioma, pelo contacto directo treinador e jogador, quanto a mim indispensável. Nesta actividade tem que se dialogar bastante e conhecer profundamente as características do futebol praticado. O técnico estrangeiro tem que recorrer ao auxiliar para expor as suas ideias, quantas vezes transmitidas de forma incorrecta… Existe um obstáculo incompatível com a actividade exercida. Eu até sou insuspeito, pois não sou português e tive uma má experiência com Manuel José, que não soube aproveitar-me naquilo que sou melhor e na posição certa.

FOOT – O Benfica está à frente no Campeonato e prossegue na Taça de Portugal, o Sporting venceu a Supertaça Nacional. Quem está melhor?

D. – O Benfica vem subindo de produção a cada jogo, fazendo um Campeonato mais regular, enquanto o Sporting tem tropeçado sistematicamente, sem conseguir manter o nível exibicional que gostaríamos de apresentar.

FOOT – No «derby» da capital, a tradição aponta para a vitória de quem está pior. Como vai ser este ano?

D. – Espero que a tradição prevaleça. Mas como não conheço nenhum jogador com esse nome, nem ela entra em campo, acho que tudo dependerá do rendimento das duas equipas nos 90 minutos. O Sporting está a jogar melhor fora de casa do que dentro dela, e vai tentar reeditar a proeza da Supertaça. Se o Benfica não pode perder pontos em casa, nós não podemos cedê-los em lado nenhum, visto que estamos apostados em subir na tabela e reocupar o lugar que sempre foi do Sporting.

FOOT – A ascensão do FC Porto, na última década, esbateu a rivalidade lisboeta?

D. – Deu-me para perceber, nestes três anos de Portugal, que a rivalidade é enorme, porque os dois clubes são grandes e fazem por isso. Ainda é difícil ao sportinguista e ao benfiquista sentarem-se ao lado no café, em dia de «derby»…

FOOT – O título nacional já está entregue?

D. – O favoritismo é todo do FC Porto, mas faltam ainda 16 jornadas, com 32 pontos em disputa. Nos estamos fora da corrida, mas podemos nela participar indirectamente, pois a partir de agora queremos ganhar a todos os adversários. Vamos encostar-nos mais aos da frente. Temos de acabar de uma vez por todas com o Sporting a correr apenas para a UEFA e para o terceiro lugar. Com estes jogadores e um prestígio a defender, o clube não pode dar-se ao luxo de ocupar posições que não são do seu campeonato.

FOOT – Anderlecht e Atalanta como adversários: o sorteio da UEFA foi-lhes favorável?

D. – Acredito que sim, que o sorteio nos foi favorável. O Benfica tem condições para ultrapassar o Anderlecht. São duas grandes equipas, mas no momento a portuguesa é mais forte. Quanto ao Sporting, eliminar o Atalanta é a nossa obrigação, visto tratar-se de um conjunto da II Divisão italiana. Se acontecer o pior, será outro escândalo injustificável, e é por isso que se torna difícil defrontar equipas consideradas inferiores. Porém, estou plenamente convicto de que podemos trazer a eliminatória ganha de Itália. Se vencermos lá, estará tudo praticamente decidido. O Sporting é outra equipa nas competições europeias, para mais sendo a Taça das Taças a única prova que ainda pode conquistar nesta temporada.

FOOT – Com quem gostariam de disputar as respectivas finais europeias?

D. – Gostaria de jogá-la com qualquer equipa, desde que fosse para ganhar. Não tenho preferência, se houvesse 8ª divisão aí num país qualquer, e essa equipa estivesse na Taça das Taças…

FOOT – E, a finalizar, que tal uma Supertaça Europeia Benfica-Sporting?

D. – E só ganhar. Se os dois trouxerem as taças para Portugal… lá estaremos.

Fonte: Revista «Foot» – Março de 1988

Data: 01/03/1988
Local: Revista «Foot»
Evento: Entrevista a Duílio e Rui Águas

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