RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Sexta-feira, Agosto 07, 2020

Em 1945, Sportinguista João Rebelo termina em 6º lugar a Volta à Espanha em bicicleta


João Rebelo teve comportamento magnífico na V «VOLTA A ESPANHA»

Por Gil Moreira

Com a etapa Valladolid-Madrid, disputada na última quinta-feira, terminou a V «Volta a Espanha» em bicicleta.

A vitória final coube ao galego Delio Rodriguez, um corredor de comprovados recursos, bastante rápido e que devia ter atingido esta temporada a mais completa e apurada «forma» de estradista de grande fundo. Cremos, mesmo, a julgar pelas últimas exibições de Delio, e ainda tendo em conta a maneira progressiva como tem melhorado de época para época, que a Espanha poderá contar com mais um elemento de prestígio para substituir outros valores Já na curva descendente da sua carreira, tais como Berrendero, Carretero e Fermin Trueba.

A vitória de Delio foi merecida, justa mesmo, se bem que a princípio nitidamente «consentida». O avanço conquistado pelo estradista de Puenteareas na segunda etapa e na que terminou em Valência – avanço que lhe permitiu mais tarde não correr perigo em face de alguns ataques esporádicos, não para o destronar da posição de «leader», mas feitos apenas com o intento de chegar primeiro ao final das etapas – essa vantagem foi conquistada mercê da benevolência e até mesmo da cumplicidade dos seus compatriotas.

Registe-se, porém, que, no final da prova, Delio foi dos corredores de comportamento mais regular. Por isso ganhou jus ao triunfo – o primeiro grande triunfo na sua já longa carreira de estradista.

Dos corredores portugueses que terminaram a prova, João Rebelo classificou-se em 6.º lugar, a 1h.2m.9s. do vencedor e a 8s. de Martin, 5.º da classificação; Mourão ficou em 17º, com atraso de 2h.42m.44s.; Aniceto terminou em 28.º, com 140h.22m. 51S, e Império em 25.º, penúltimo, com 14th. 40m.26s.

A João Rebelo coube a honra de ser o melhor corredor português. Tanto ou mais do que a sua classificação, o sportinguista soube impor-se pela maneira voluntariosa como correu, atacando sempre que as forcas lhe permitiam e conquistando, minuto a minuto, o tempo que perdeu em duas arreliadoras avarias. Terminou o campeão nacional num lugar que, se não traduz o esforço despendido, está todavia quási dentro das suas possibilidades.

Pode argumentar-se que se Rebelo não se atrasasse a caminho de Valência, por desarranjo na montada, não havia perdido o seu 8º lugar – e depois fácil lhe seria subir até ao 2º ou 3.º posto da classificação. Não devemos, todavia, esquecer que os homens classificados nos cinco primeiros postos têm uma classe firmada, desfrutam de larga experiência de provas por etapas e possuíam sobre o português a grande vantagens de serem acolitados por dedicados companheiros de equipa. Em conclusão: Rebelo conseguiu aquilo que humana e atleticamente dele podia esperar-se. E na disputa do «Prémio da Montanha» excedeu as melhores expectativas, classificando-se em 2.º lugar, apenas a um ponto de Berrendero, que, embora não seja já o notável trepador de 1939, é ainda um grande escalador.

Não puderam os restantes corredores portugueses que ficaram na prova «acertar o passo» pela conduta de Rebelo, uns por indisposição física, outros porque de facto, mesmo em plano de defesa, lhes era impossível cooperar em nível de igualdade com o sportinguista. No entanto, Júlio Mourão fez uma prova bastante regular e meritória, sabido que foi esta a sua primeira grande competição por etapas. Aniceto Bruno, a contas com a furuncolose a partir de Barcelona, evidenciou-se com uma etapa, magnifica na companhia de Rebelo, sendo até, segundo as próprias declarações deste, inteligente e dedicado companheiro. Só Império esteve quanto a nós algo discreto, isto em relação às suas possibilidades. Não deve esquecer-se, no entanto, a forma imprevista em que o portuense foi seleccionado, após algumas semanas de inactividade forçada. Mas repetimos o que escrevemos algures: nas condições em que se deslocaram estes corredores e os que desistiram, divididos por duas equipas, sem coligação com outros estradistas e lutando contra formações numerosas e apetrechadas técnica e moralmente para tão dura prova, o que fizeram – à parte alguns abandonos precipitados – é o que logicamente poderia esperar-se. E se acrescentarmos que além da constante gentileza por parte do público e dos organizadores, os portugueses encontraram-se, por vezes, a lutar sob a rigidez de um regulamento que nem sempre era respeitado pelos adversários, conclui-se que a tarefa nada teve de fácil!

Fonte: Revista Stadium

Data: 06/06/1945
Local: Revista Stadium N131

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