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Sexta-feira, Setembro 25, 2020

Derlei não esquece os dois anos em Alvalade: «Abri mão de muito para ficar e não senti tanto isso da parte do Sporting»

O avançado espera uma proposta que o faça voltar; caso contrário, acaba a carreira. Mas não esquece os dois anos em Alvalade.

Derlei está diferente: encara o presente de forma tranquila, mostra-se pragmático na abordagem ao futuro e cuidadoso quando fala do passado. Depois da passagem por Alvalade, assinou pelo Vitória (Bahia) mas voltou a lesionar-se no joelho. Sozinho, em casa. Até ao fim de 2010, aguarda por uma proposta que lhe permita fazer mais uma temporada; caso contrário, acaba a carreira. Mesmo assim, a saída do Sporting continua a ser comentada com um misto de naturalidade, arrependimento e frustração. Ao invés, a rescisão de Paulo Bento “foi natural, pela falta de resultados”. “Mas todos tiveram culpa”, defende o avançado.

Ainda vamos ter Derlei em 2010 ou está a planear o final definitivo da carreira?
Acabar já? Não, nada disso… Ou melhor, nem sei. Recebi propostas, inclusive do mercado de São Paulo, mas não me satisfizeram financeiramente. E essa vertente, bem como o bem-estar familiar, são condições fundamentais para voltar.

As propostas são só do Brasil ou também já recebeu sondagens da Europa?
Tenho estado em contacto com o meu empresário e existem clubes que gostavam que voltasse. Mas até hoje, nada de especial. Os meus filhos já estão readaptados ao Brasil e têm seguido certinhos na escola. Se for uma proposta vantajosa, vou em frente! Até ao final do ano deixo tudo em aberto. Depois, devo acabar.

Que se passou para ter assinado e depois saído logo do Vitória?
Olha, nem dá para acreditar… Cheguei a acordo com o Vitória, comecei a treinar, entrei no primeiro jogo aos 70 minutos e até marquei o golo que deu a vitória com o Palmeiras, que liderava o Brasileirão na altura. Na semana seguinte, estava na casa nova, que não conhecia bem, e o telefone tocou. Fui a correr para a sala, porque estava à espera do contacto de uma marca de botas que tinha interesse em patrocinar-me, e bati com o joelho numa mesa de ferro que havia mesmo no centro da sala. Fiz um corte, mas o que doeu mais foi a pancada. E tive de ser operado…

Teve mesmo de ser operado?
Sim. Fiz uma artroscopia ao joelho para fazer uma limpeza porque era uma dor que incomodava bastante. Quando fiquei bom, faltavam quatro jogos para acabar o campeonato e achei que não compensava o sacrifício que ainda teria…

Saiu de vez do Vitória ou pode voltar?
Eles querem dar continuidade à ligação mas até agora não houve avanços.

E o campeonato português, continua a seguir com atenção? E o Sporting?
Tenho acompanhado, sim. Aliás, quero aproveitar para publicamente desejar rápidas melhoras ao Liedson. Teve esse problema, tal como eu já tive, mas num mês vai estar pronto para ajudar o Sporting e a própria selecção nacional. É um grande homem, profissional e amigo.

Como analisou a saída do Paulo Bento?
Não me surpreendeu… Quando os resultados não aparecem, alguém tem de pagar e por norma é o treinador. O Paulo sempre assumiu tudo e foi o primeiro a dar a cara, nos bons e nos maus momentos. Agora, é bom que entendam que todos tiveram culpa, do treinador aos próprios atletas, passando pela direcção. Mas, claro, é mais fácil substituir um técnico do que metade do plantel. O que não pode ser posto em causa é a qualidade do Paulo: esteve quatro anos no clube, voltou a ganhar títulos para os adeptos e foi aos oitavos-de-final da Champions.

No discurso de saída, Paulo Bento mostrou-se arrependido por não ter ficado…
Só posso agradecer essas palavras [pausa]. Mas olhe, para mim não é novidade, porque sempre me transmitiu isso durante as muitas conversas que tivemos. Tinha total confiança em mim, o que era bom. Mas não correu tudo como queríamos… Tinha feito uma boa época, mostrei que podia ser o parceiro de Liedson, mas por questões financeiras, mas não só, saí. Já tinha decidido que, a partir de determinado valor, voltava ao Brasil ou, em último caso, acabava a minha carreira.

Acho que o Sporting sentiu a sua saída?
Por uma questão de estabilidade, acabou por prejudicar o clube e a sua estrutura. Mas é relativo dizer que faço falta.

Acha que faltam homens no Sporting?
Atenção: há jogadores novos, como Moutinho, que têm de assumir responsabilidades. Mas claro que atletas mais experientes, como Polga, Tiago, Liedson ou Caneira, ajudam. E é importante ter sempre alguns, no balneário e no campo, até por sentirem menos a pressão em jogo. Mas só isso também não resolve nada.

Está arrependido de ter saído do Sporting? Fala com tantas saudades…
É claro que gostava de estar no Sporting. Fiz alguns sacrifícios pelo clube, sobretudo quando muita gente achava que já não tinha condições. Sabe, apesar de tudo, a passagem pelo Benfica foi importante – errei e aprendi. Vim após três meses de paragem, quis jogar uma semana depois e apresentei-me mal fisicamente. A equipa tinha problemas e acabei por sacrificar-me. Quando cheguei ao Sporting, prometi que não repetiria isso…

Mas sair de Alvalade foi ou não um erro?
Acima de tudo, gostava de ter ficado. Se foi um erro… [pausa] Gostava de ter ficado, apenas isso. Abri mão de muito para ficar e não senti tanto isso da parte do Sporting. Fiz todos os sacrifícios possíveis mas não dava mesmo. Agora, a política do clube é outra, assim como o presidente e o treinador. A antiga estrutura trabalhou bem, espero que aconteça o mesmo. Mas já naquela altura tínhamos noção de que o dinheiro conta e é muito importante.

E se o Sporting lhe disser para voltar?
Prefiro não fazer comentários sobre isso. Sou realista, não falo de suposições.

Saiu sem ser campeão.O que faltou para atingir esse grande objectivo?
Também teve a ver com a falta de opções em determinados momentos. Se faltassem um ou dois jogadores importantes, a equipa tremia. No último ano, podíamos ter ficado na frente, na Madeira. Isso seria um importante ponto de viragem.

E as arbitragens, tiveram influência?
Houve várias críticas… Acho que é normal criticar ou dizer mal quando sentimos que a nossa equipa foi prejudicada, é normal expressar esse desgosto. Mas aquilo que hoje percebo, e que às vezes falhava, é que, dentro de campo, não podemos dar motivos para isso. Por exemplo: se estivermos na frente do marcador, se tivermos dois ou três golos marcados, não há decisão que possa influenciar o resultado final. E isso depende de nós. As decisões dos juízes têm grande influência e podem definir um campeonato, porque ir à frente por mais pontos põe uma pressão maior sobre os adversários, ou pode decidir uma final da Taça…

Da Taça da Liga, por exemplo…
Claro, ia agora falar disso. Depois daquela grande penalidade mal assinalada e de toda a confusão que se gerou, fomos para o desempate de rastos. Claro que eu, como outros, tentei animar-me e levantar o moral de quem ia marcar, mas nem a confiança nem o espírito de grupo estavam a 100%. Mais: o Quim estava muito concentrado e tranquilo. Aí, o Benfica acabou por ser mais feliz e venceu essa prova. A nós, custou muito…

Acha que o jogo devia ter sido repetido?
Se fosse assim, repetíamos tudo, certo? A arbitragem teve influência, prejudicou-nos e perdemos um troféu mas daí a repetir o jogo, como alguns falaram, é uma grande distância. Ficámos frustrados, porque o segundo lugar é o primeiro dos últimos, mas sabemos como as coisas são, o Benfica tinha investido muito e depois acontecem estas situações… Mas tem mérito, é justo dizê-lo. Há sempre alguém que paga. O importante é que os responsáveis entendam que erros acontecem mas não podem surgir continuamente, caso contrário os espectadores nos estádios são cada vez menos, porque deixam de acreditar no que vêem.

Como analisa a actual situação do campeonato? Benfica e Sp. Braga estão à frente, FC Porto está a quatro pontos, Sporting tem 12 de atraso mas tem-se reforçado muito nesta reabertura…
Em relação ao Sporting, é muito difícil lá chegar e só devem pensar em ganhar o próximo jogo. No fim fazem as contas. Benfica e FC Porto estão na luta, mas também devem contar com o Sp. Braga, que tem feito grandes campanhas.

Então, o Sporting deve apontar já baterias para a próxima temporada?
Não, ainda está a disputar a Taça de Portugal, a Taça da Liga e a Liga Europa… Mesmo que não consiga ficar em primeiro no campeonato, ganhar um troféu no final da época serviria para atenuar os problemas. Mas não há favoritos porque Benfica e FC Porto têm grandes plantéis e estão fortes, ao passo que o Sp. Braga, mesmo como outsider, pode aproveitar a situação para surpreender e dar continuidade ao bom trabalho que tem feito nos últimos anos.

Fonte: Jornal i

Data: 09/01/2010
Local: Jornal i
Evento: Entrevista a Derlei

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