RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quarta-feira, Fevereiro 19, 2020

“O que é afinal um clube?”

“O que é afinal um clube?”, eis o Santo Graal de qualquer gestão desportiva em forma de questão.

E, sem ter a veleidade de achar que sei a resposta tão claramente como o autor da citação que aquela frase inicia, penso saber o suficiente para perceber o que não deve ser.

Começando por saber que é relativamente fácil descobrir na actual gestão do Sporting uma quantidade de erros e de equívocos, e fazê–lo a partir praticamente de todas as perspectivas em que nos coloquemos para a analisar.

Por isso, porque isso é a parte mais fácil, não é disso que eu vou falar. Não é dos erros e bizarrias concretas com que os sportinguistas vão sendo confrontados quase diariamente. Porque estes são simplesmente os efeitos, a meu ver perfeitamente previsíveis, do erro primordial de quem actualmente tem nas mãos o destino do clube.

É desse erro primordial, aquele que é primário e surge no ninho daquilo que nos (a nós, Sporting) conduziu até aqui, e de que tudo agora é mero efeito, que quero falar.

E esse erro primordial foi não perceber qual o principal ‘capital’ ganho pelo clube nos cinco anos que se seguiram a Março de 2013.

Quando se fala daquilo que de positivo a gestão de Bruno de Carvalho trouxe para o Sporting, quer limitando ou alargando mais o ‘leque’ temporal desse reconhecimento – em função da perspectiva pessoal de cada um, algo que para esta análise não é relevante –, é costume falar-se na questão económica, nas negociações contratuais, na recuperação das modalidades, no Pavilhão, entre outras coisas que apelidaríamos de relativamente ‘terrenas’. Tudo isto também é relativamente evidente – ou pelo menos deveria ser, vá.

Porém, não foi nada disso aquilo que de mais importante o Sporting recuperou nos cinco anos de Bruno de Carvalho.

O que de mais importante o Sporting recuperou nesses cinco anos chama-se MILITÂNCIA.

E essa mede-se em entusiasmo, em empenho, em querer mesmo estar presente e acompanhar o clube em todos os seus momentos.

Dar por adquirida essa militância, foi o tal tremendo primordial erro. Confundir militância com a tão propalada “união” (que aliás fez, e continua a fazer, o mote não apenas da candidatura vencedora no último acto eleitoral, como de todas as que no mesmo concorreram) é uma ilusão.

Essa “união” a que todos parecem aspirar é uma utopia, não existe, nunca existiu, e dificilmente alguma vez existirá – e principalmente nas circunstâncias actuais, esqueçam! O objectivo deveria ser sempre manter e, se possível, aumentar a militância. Porque, pode haver militância sem união – mas jamais poderá existir a segunda sem a primeira.

Explicando melhor : eu quero lá saber se são ‘brunistas’ ou ‘croquetes’ ou outra coisa qualquer os 49 mil que se consigam meter no Estádio a cada jogo! – desde que todos tenham vontade de ir e vão, e lá estejam a apoiar o Sporting!

Confundir adeptos com clientes era a perspectiva de Soares Franco e daquilo para que caminhava o Sporting até 2013. O normalmente chamado “futebol moderno” não é, claro, só ‘amor (aqui dos adeptos) á camisola’ – mas achar que isso passou a ser o menos importante ou o menos relevante, é o primeiro passo para o fracasso da própria vertente comercial do fenómeno, cuja tutela é a tarefa de qualquer gestor.

Como li uma vez algures, os “executivos” do “futebol moderno” acham que o caminho é que nos estádios tenham lugar o máximo de clientes engravatados – mas esquecem-se que ninguém, nem os clientes engravatados, vai aos estádios para ver as bancadas ocupadas apenas por outros clientes engravatados.

E, acreditem, ninguém investe no espectáculo futebol se o público alvo forem apenas clientes engravatados –  nem com mil ‘Jorges Mendes’ a “ajudar”.

O que conduz à segunda face do erro primordial, subsequente da primeira : achar que “só fazem falta os que estão”.

A sobranceria e arrogância com que, a cada passo, se lêem/vêem sportinguistas a vomitar este ‘chavão’ é qualquer coisa de assustador.

Não, não fazem falta “só os que estão” – fazem falta todos os que puderem estar. Empenhar-se pela militância é precisamente fazer com que todos QUEIRAM estar. A razão primordial pela qual assistimos às actuais tragicomédias de cada vez que alguém em nome do Sporting se senta para (re)negociar por exemplo com bancos, com patrocinadores, ou com jogadores, não é apenas uma qualquer ‘inabilidade negocial congénita’ : é sim, antes de mais, porque quem desempenha neste momento essas funções são precisamente pessoas que acham que “só fazem falta os que estão” e que a militância não passa de um mero lugar comum e secundário.

E se este é já é um diagnóstico dramático, a possibilidade de encontrar cura afigura–se trágica, porque tal implicava que quem dirige o clube percebesse isso.

E para isso seria necessário assumir em definitivo que quem fez os estapafúrdios ‘cálculos’ sobre a ‘margem de prescindibilidade de adeptos’ que orientam as actuais decisões da cúpula governativa do Sporting, partiu afinal do formidável equívoco de achar que todos os sócios se revêem nesta perspectiva das coisas, e aceitam ser meros ‘clientes’.

Não revêem. E não aceitam.

Ora, o que se observa, cada vez com maior insana ferocidade, é não apenas o ignorar, como o proactivamente ostracizar a massa de sócios e adeptos (seja na sua versão mais alargada, seja apenas na mais hardcore) que não se revêem na categoria de ‘clientes’ e nem querem ver–se reduzidos a tal, como se a mesma simplesmente não existisse e não contasse para nada, como se a desse por ‘perdida’, sendo inútil procurar ‘cativá-la’ e abrangê-la no projecto do Sporting.

E ao fazê–lo, matam a militância como um todo.

Termino completando a citação que inicia este escrito :

“O que é afinal um clube? Não são os edifícios nem os directores, nem as pessoas que são pagas para o representar. Não são os contratos televisivos, as cláusulas de rescisão, os departamentos de marketing ou os camarotes de executivos. É sim o barulho, a paixão, o sentimento de pertença, o orgulho na tua cidade. É o garoto a subir os degraus da bancada pela primeira vez, pela mão do pai, olhando para o venerado pedaço de relva lá em baixo, e, sem poder fazer nada contra, apaixonar–se”.

A citação é do mítico e saudoso Sir Bobby Robson.

E não deixa de ser sintomático que haja quem proponha uma estátua para quem tão mal o tratou quando passou pela nossa casa.

Por: Pedro, o Notável

Artigos relacionados

Notify of
Neca Pinto
Visitante
Neca Pinto

Notável texto.

Green Marquis
Visitante
Green Marquis

No final temos de ver que se formos tratados como clientes esperamos ser bem servidos. E se não gostarmos nâo voltamos.
Se formos adeptos, iremos sempre apoiar o clube, seja a ganhar ou a perder.

jorge mendes
Visitante
jorge mendes

só sou cliente onde sou bem atendido e encontro algo que me satisfaça pela qualidade, mas futebol é espectáculo e paixão, e sem essa, não há militância.

Pedro
Visitante
Pedro

Bravo! É também preciso perceber que essa militância está proporcionalmente ligada à identidade, digo eu! Ora para mim esse é o grande problema do nosso clube neste momento. Aqueles que tomaram conta do clube não serão nunca um reflexo da identidade do clube, e os adeptos ao deixarem de se identificar pelas políticas governativas do clube ( extensível posteriormente aos próprios atletas, eu por exemplo não me identifico minimamente com aquela equipa de futebol. .. não é a minha, não faz parte da minha identidade Sporting) anexado aos maus resultados desportivos vão abandonando a militância. Simples. De qualquer das formas… Read more »

%d bloggers like this: