RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quarta-feira, Julho 08, 2020

Julgamento de Alcochete VIII – As Comendas e as Encomendas

Quem vem acompanhando o desenrolar do julgamento, certamente já reparou na incrível semelhança entre alguns testemunhos e o exacto teor do despacho de acusação do MP. Desta vez foi longe demais, mas felizmente o detector de lana caprina do Monsanto estava ligado.

O senso comum diz-nos que não é natural um testemunho conservar toda a riqueza de detalhes quando prestado em ocasiões distintas. As pequenas discrepâncias até podem ser o melhor teste à verdade. Quando várias ideias são replicadas com inusitada precisão, é sinal que se está a sair da esfera da normalidade.

Leiam com atenção o seguinte ponto da acusação assinada por Cândida Vilar, retendo o sublinhado (nosso):

E comparem agora com o que disse Rui Patrício, quando instado a comentar o que queria dizer com “comportamento estranho” (a negrito questões da procuradora):

————————————————

– Foi estranho, o comportamento.

– Mas o comportamento de quem, refere-se ao comportamento de quem?

Do Bruno de Carvalho. Em relação ao que se ‘tava a passar. Ou seja, em relação ao que, com as duas últimas reuniões, em relação ao que ele tinha dito nos posts, na entrevista, processos disciplinares, ou seja, já havia relação com o presidente, já…anteriormente…

– Mas porquê? Num tom mais conciliador, era isso? Num tom mais… conciliador, pergunto eu?

(..) E depois também disse: “Aconteça o que acontecer, vocês vão ‘tar bem para jogar na final da taça? Isso é o mais importante, eu quero saber se vocês vão ´tar bem para jogar na final da taça, isso é o mais importante.” Depois vira-se para o Acuña e diz: “Acuña, porque é que fizeste isso? Logo ao chefe da claque. Tenho um problema tremendo para resolver. ‘Teve-me a ligar a noite toda, mas eu vou tentar resolver a situação. Se algum de vocês tiver algum problema, ligue para mim, ou pr’o Geraldes, que nós estamos aqui para vocês.”

(transcrição da inquirição de Rui Patrício pelo MP)

————————————————

Surgem aqui várias questões. Primeiro, há que louvar a coerência dos jogadores e a capacidade de aprenderem uns com os outros: depois de copiarem cartas de rescisão, copiam também depoimentos. Rui Patrício vai até mais longe, e como diria Rogério Alves, foi beber directamente à fonte. Se o Chico Geraldes lia Saramago no banco de suplentes, já o livro de cabeceira do Rui Patrício deve ser o despacho de acusação da Cândida Vilar, com prefácio de Rui Pereira e posfácio de Jorge Mendes.

E se a correspondência ipsis verbis diz tudo, fiquem cientes de que a entoação, ritmo e inflexão de voz, não passariam em claro nem aos mais distraídos. A prosa mecanizada faz lembrar aqueles vídeos em que jovens youtubers forçam as avós a decorar textos. Soou tão genuíno quanto o discurso de frete dessas simpáticas senhoras.

Por outro lado, se é pouco razoável que Rui Patrício se interesse pela leitura de peças processuais, então somos forçados a concluir que teve de treinar mais vezes aquele discurso do que as saídas de entre os postes. Alguém lhe diga que, num e noutro caso, o treino surtiu poucos efeitos práticos. Foi tão desastrado no depoimento, como aqueles voos no vazio à procura da bola.

De registar, ainda, as sempre temíveis palavras “se precisarem de alguma coisa, liguem-me”. Convenhamos, sempre que alguém ouve tamanha cortesia, fica de cabelo em pé! Quem nunca desconfiou da malícia com que colegas, amigos ou a família, dizem isto? Por vezes, até estranhos! A última vez que uma simpática padeira assim me falou, nunca mais lá fui, barriquei-me em casa uma semana e ainda avisei a PJ. Pumba! Que é para não ter ideias de me esmurrar com uma regueifa ou esbofetear com um pão-de-ló.

Por outro lado, a prodigiosa memória de Rui Patrício permite-lhe que tenha estas imprecisas afirmações (a propósito da animosidade, ou não, do estádio para com o ex-presidente):

————————————————

– Lembra-se de alguma coisa anormal, anormal não, porque isto já é qualificativo, mas uma reacção mais barulhenta do estádio?

– Não, não me lembro de nada, assim de…

– E no final do jogo?

– Não.

(transcrição da instância de Miguel A. Fonseca)

————————————————

Como imagens, e nestes caso sons, valem mais do que mil palavras, assistam ao vídeo abaixo. De resto, esta cristalina memória (e outras) de Rui Patrício foi estilhaçada pela juíza e advogados.

Já que falamos de “encomendas”, falemos também de comendas. Respondeu assim o condecorado Jorge Jesus, logo no início da sua audição:

————————————————

– O senhor viu alguém nessa altura… alguém do Sporting, algum funcionário do Sporting, algum segurança, a tentar barrar-lhes a entrada, por exemplo?

– Não, não vi ninguém a barrar-lhes a entrada. O único que tentou barrar-lhes a entrada fui eu.

(transcrição da inquirição de Jorge Jesus pelo MP )

————————————————

É possível que Jorge Jesus esteja a exagerar um bocadinho, vamos ver se esta teoria se confirma. Também não vale a pena duvidar já do senhor comendador…

————————————————

– Enquanto o senhor ia atrás deles, viu se eles tinham alguma coisa na mão, algum objecto de agressão?

– Não, isso eu não vi, eu não…eu não…eu só os vejo a sair, não os vejo, não os vejo…a entrar.

(transcrição da instância de Miguel A. Fonseca )

————————————————

Confuso? Não. Assim como Jorge Jesus conheceu e entendeu a mística do Infante D. Henrique por atravessar uma avenida com aquele nome, lá no Rio de Janeiro, é possível que nesta vinda a Lisboa possa ter passado perto do Júlio de Matos. E captado a mística da loucura. Só isso pode explicar que alguém que “estava a 120 metros” da entrada da ala profissional, que foi atrás dos invasores, e que os encontrou já de saída, possa afirmar que lhes tentou barrar a entrada. Normalmente, esta loucura temporária passa com o pedido de visionamento das imagens do CCTV.

Já a resposta à pergunta de quais os jogadores que recusaram falar com Bruno de Carvalho após a invasão, ficou sem resposta cabal.

————————————————

– Há um momento em que o senhor diz que os jogadores, lá no dia da invasão da academia, que nenhum jogador queria falar com o presidente…qual foi o jogador que lhe disse que não queria falar com o presidente?

– Em primeiro lugar boa tarde. A segunda… qual foi os jogadores, qual foi os jogadores que…que…não queriam, portanto, conversar com o… com o presidente…os capitães de equipa!

(transcrição da instância de Miguel A. Fonseca )

————————————————

Antes de tudo, é de assinalar que a comenda recebida por Jorge Jesus lhe tenha trazido cavalheirismo. O homem agora liga à etiqueta e aos bons costumes de forma minuciosa. Mais uma medalha e fica uma Paula Bobone em potência. Infelizmente, para lhe estalar o verniz e fugir o pé para o chinelo, basta uma pergunta mais incómoda. Afinal, um vintém é um vintém e um cretino é um cretino.

E é essa a explicação (em parte) para que não possamos saber os nomes dos jogadores que não quiseram falar com Bruno de Carvalho. Após essa pergunta gerou-se a confusão, a juíza teve de intervir, mediou o conflito, fazendo de “tradutora”, mas na verdade a questão acabou por não ser respondida cabalmente. Primeiro eram os capitães, depois não eram os 2, mas sim eram os 5 capitães, no final já eram todos os jogadores. Se o assunto fosse falado durante mais 5 minutos, é certo que ficaríamos a saber que foi o Dalai Lama quem proibiu os jogadores de falar ao presidente.

Aliás, não foi só esta questão que ficou em aberto. O suposto e-mail das suspensões, o tal que Rui Patrício disse ter, também não apareceu. Quanto a isso, temos uma ideia, mas não vamos estragar a surpresa, fica para a próxima.

Artigos relacionados

2 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
HULK VERDE

E o Dr. Scumbag e a sua seita de golpistas, até agora, sempre a passar entre os pingos da chuva…

jorge mendes

isto é um filme porno de muita baixa qualidade, é só javardices

2
0
Partilhe a sua opinião!x
()
x