RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Segunda-feira, Outubro 26, 2020

Vaz em 1980: «Ter mais de 30 anos não quer dizer nada. O que conta é o que se produz em campo!»

Um «jovem» de quase 35 anos, a completar em Novembro próximo, tem a responsabilidade, actual, de defender as redes do actual campeão nacional de futebol. Trata-se de Vaz, o «guardião» a quem nos referimos e, que, na última temporada ingressou nos «leões», vindo do Académico de Viseu para ser o… suplente de Fidalgo, o homem que tinha trocado a Luz por Alvalade.

Só que a verdade, indesmentível, é que o antigo guarda-redes do F.C. Porto, Vitória de Setúbal e Académico de Viseu realizou mais jogos que o ex-benfiquista – na primeira época – devido a lesão deste e, este ano, por opção da dupla técnica vem sendo o titular desde a terceira jornada.

Deste modo, confirma-se a teoria de que os guarda-redes quanto mais velhos melhores. Como exemplo, citamos os casos de Bento, Damas e Fonseca, todos com 32 anos e de Conhé já na casa dos 35, todos eles excelentes guarda redes e figuras de primeiro plano no futebol português. Naturalmente que, para se ser guarda-redes, seja de que equipa for, é necessário ter-se categoria e portanto não é só por se ter determinada idade que se garante um lugar no futebol. Isso acontece com Vaz que realmente tem realizado excelentes exibições e nos três encontros em que participou sofreu três golos… todos de grande penalidade e inclusivamente um deles só aconteceu à segunda tentativa.

Depois de um treino bem puxado e do respectivo duche trocámos algumas opiniões com Vaz e começámos precisamente por lhe focar a situação relativa à idade da maioria dos guarda-redes.

Penso que essa tradição depende bastante da vida privada que cada um faz, se bem que, quando se atinge certa idade, começa a pesar o «calo» e a experiência adquiridos em muitos anos de futebol. No entanto, isso só não chega. Para se ser guarda-redes de qualquer equipa e em que idade for, é necessário trabalhar-se muito para manter a forma ideal, além de ser necessário ter-se categoria.

Como é que com quase 35 anos consegue encontrar-se em tão boa forma?

Desde que vim para o futebol profissional tenho trabalhado sempre de forma honesta e séria. Inclusivamente, treinadores com quem tenho trabalhado já me convidaram – depois de ter ingressado no Sporting – para representar os conjuntos que treinam.

Claro que ao mesmo tempo faço uma alimentação regrada, pois como engordo com muita facilidade faço um grande esforço para resistir aquilo que o organismo deseja. Mas para se estar em condições ideais é preciso resistir-se a isso, se não, não se é titular em nenhuma equipa.

Para além desse aspecto, o Vaz furta-se a determinadas «saídas»?

Como qualquer pessoa de vez em quando gosto de sair à noite, mas é muito raro isso verificar-se. Faço uma vida muito caseira e prefiro estar junto da minha mulher e do meu filho, a andar na «borga». O pouco tempo livre que tenho passo-o em casa ou então a ajudar a família num supermercado que possuo em Setúbal.

Quando o actual número 1 de Alvalade assinou pelos «Leões» dizia-se que vinha para ser o segundo guarda-redes. A verdade é que isso não tem sido confirmado e o seu valor tem-no levado a alternar a defesa das redes «leoninas» com Fidalgo.

«Quando vim para o Sporting – dir-nos-ia o guarda-redes sportinguista – acabava de deixar um conjunto que tinha baixado à segunda divisão e à partida as dificuldades de me impor eram maiores, pois se tivesse vindo directamente do Vitória de Setúbal para Alvalade, tudo seria mais fácil, mas verdade é que quando faço um contrato não é para me sentar no «banco». Foi isso que aconteceu. Ingressei no Sporting disposto a fazer o mesmo que nos outros clubes e à custa do meu valor fui-me impondo até que o técnico decidiu pôr-me a jogar. Realmente o ano passado não contava jogar tão cedo, mas devido à lesão do Fidalgo isso sucedeu. Esta época as coisas já não se passaram assim».

Importa-se de explicar?

Se no ano passado fui titular devido à lesão do meu companheiro, este ano isso já não se verificou e penso que estou a jogar por mérito próprio e em função daquilo que estou a render. Pessoalmente sinto-me bem e acho que já estou numa forma muito razoável. Já joguei quatro jogos do campeonato em que sofri três golos, todos de grande penalidade e inclusivamente um deles teve de ser repetido. Nessa situação pouco há a fazer, pois só com sorte se defende um penalty.

Em muitos jogos as pessoas na bancada interrogam-se devido a certa atitude que Vaz toma para com os seus companheiros da defesa. Isso acontece em sinal de desagrado ou tratam-se de incitamentos.

Ainda que se possa pensar o contrário o guarda-redes tem uma visão total do rectângulo enquanto que os restantes jogadores, principalmente os defesas, só têm a noção do sítio em que se encontram. Por isso muitas vezes chamo a atenção dos meus companheiros para determinadas situações de que não se apercebem e em que tenho vantagem porque estou de frente para os lances. Essa é uma das vantagens dos guarda-redes.

Mas muitas vezes dá a sensação de que o Vaz em vez de incitar está a ralhar com os seus companheiros…

Esse problema te-me sido levantado diversas vezes por outros jornalistas e é natural que as pessoas se interroguem sobre a minha forma de gesticular, mas não estou zangado com os meus companheiros. Estou sim a incitá-los. Tenho é que falar rápido porque as jogadas são muito rápidas. Inclusivamente são eles que me pedem para que faça sempre o mesmo. Ainda agora em Penafiel pediram-me que gritasse durante o jogo para assim os alertar para determinadas jogadas.

No entanto, parece que relativamente à última época a defesa tem estado menos certa.

Não estou de acordo com essa opinião, pois os jogadores são os mesmos. O que acontece é que a equipa começou tarde a sua preparação devido a uma longa digressão que realizámos e que quanto a mim não foi benéfica no aspecto desportivo. No entanto, a equipa está a trabalhar com vontade e o seu rendimento tem subido de jogo para jogo, pois o nosso objectivo é continuar a lutar pelo título.

De qualquer forma e apesar de os jogadores do Sporting afirmarem que o conjunto tem subido de rendimento essa melhoria ainda não se verificou, pelo menos em nossa opinião.

«Estou em desacordo com isso – afirmaria Vaz – pois já estivemos muito pior, como por exemplo no jogo inaugural, frente ao F.C.Porto, em que uma apatia total se apoderou da equipa, mas presentemente os jogadores já se encontram melhor e daí confiar que ainda podemos chegar ao título. Temos quatro pontos de atraso e esse facto naturalmente beneficia quem vai à frente, mas confio que o Sporting ainda possa lutar de forma igual para a revalidação do troféu.»

Isso não será optimismo a mais?

Penso que não, ainda que a nossa tarefa seja mais difícil, mas acho que apenas o Benfica tem capacidade para chegar ao título, pois o F.C.Porto não está tão forte como no ano passado, mas vai-me surpreendendo com os resultados que consegue. Mesmo assim acho que os portistas não têm hipótese de chegar ao título.

Então para si o Benfica é o favorito…

Juntamente com o Sporting. Pelo que tenho lido e por aquilo que vi na Super-taça, os «encarnados» melhoraram bastante quer no aspecto físico quer na sua forma de jogar. Não estou em condições de afirmar que isso se deve ao técnico mas, a verdade, é que juntamente com os reforços, se assistiu a uma grande melhoria no futebol do Benfica. Estão com um excelente conjunto e a jogar um óptimo futebol. Para mim é o grande adversário do Sporting.

Mas com quatro pontos de atraso acha que o Sporting ainda tem hipóteses?

Ainda faltam muitos jogos e aqueles que temos que fazer com o Benfica, podem decidir muita coisa. Esses é que serão os jogos importantes.

Mas se as coisas não têm corrido bem no campeonato nacional o mesmo se pode dizer relativamente à Taça dos Campeões Europeus em que os «Leões» na primeira jornada da competição perderam no seu terreno – aliás – emprestado – frente ao Honved, da Hungria. Relativamente a este encontro Vaz dir-nos-ia:

Sinceramente estava convencido de que venceríamos o jogo. Relativamente à eliminatória só me pronunciaria depois de ver jogar a equipa Húngara. No encontro de Setúbal estivemos bem na primeira parte, mas na segunda o azar esteve connosco e sofremos dois golos de contra-ataque. Mesmo assim estou convencido de que na Hungria podíamos conseguir um bom resultado, mas mais uma vez não tivemos a sorte pelo nosso lado.

Vaz termina este ano o seu contrato com os «Leões», mas a jogar como joga é natural que continue a sua carreira. Posto perante esta interrogação o jogador adiantaria que «realmente termino o contrato este ano mas sinto-me ainda em condições de jogar pelo menos mais duas temporadas. Treino da mesma forma como os meus companheiros e a idade que está no Bilhete de Identidade não conta. O que conta é o que se produz no campo.»

Naturalmente se continuar como titular a ideia de continuar aumenta…

Claro que sim. O ano passado joguei muitos jogos e recebi vários convites para sair, mas não quis porque estava e estou bem em Alvalade. No entanto, mesmo que não seja o titular e se o Sporting quiser que cá continue, penso que ainda estou em condições de fazer mais uma boa época.

Fonte: Revista «O Golo»

Data: 14/10/1980
Local: Revista «O Golo»
Evento: Entrevista

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