RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quarta-feira, Janeiro 28, 2026

Neste dia… em 1987: Sporting “cilindrou” austríacos por 4-0. No Tirol não se canta assim

Onze que alinhou de início. Em cima, da esquerda para a direita: Venâncio, Duílio, Vítor Santos, João Luis, Oceano e Rui Correia. Em baixo pela mesma ordem: Cadete, Paulinho Cascavel, Mário, Sealy e Silvinho.

Por Neves de Sousa

Outra loiça: porcelana austríaca completamente estilhaçada, quatro piparotes mortíferos e muitos mais adiados para próximas núpcias. O professor Ernst Happel com o coração reduzido a cisco: agora, apenas cautela e caldos de galinha, porque (a menos que aconteça grosso e infernal cataclismo) o «team» de Alvalade (com a sua melhor exibição de há muito calendário a esta parte) está por absoluto direito próprio, com provas dadas perante um examinador que tem valor e mérito, na segunda etapa da apetitosa «Taça dos Vencedores de Taças». Após (diga-se) um jogo que chegou a maravilhar a densa plateia que esteve no renovado parque do «leão», vivendo uma noite como de há muito não lhe passava pelo estreito.

O estudo prévio demorou meia dúzia de minutos: atacando – pelas duas asas (Cadete, cheio de vontade para se afirmar entre maiores lá de casa; Silvinho, talento serpenteante impossível de travar quando o ouro chega à vista), retalhavam completamente os flancos austríacos: e, como o colete de forças, rodeado de cimento armado e arame farpado, procurava apenas Paulinho Cascavel, esquecendo que o britânico Sealy é um rato traquinas e atrevido, o castelo de cartas vindo do Tirol levou a primeira machadada, em lance primoroso que se repetirá precisamente com os mesmos intérpretes da estocada até aos copos: arquinho saído dos pés de Silvinho, primeiro a cabeça, depois o pé direito do súbdito de Sua Majestade a colocarem em polvorosa o conclave verde-branco.

Silvinho endiabrado.

No meio desta dupla de bem saborosos golinhos, apareceu uma inevitável grande penalidade, decretada com a maior das justiças, apontada com a maior das calmas. Pé travão impedindo progressão do «cobra» dentro das 18 jardas; apitadela, dedo ordenando castigo e, ala que se faz tarde: guarda-redes para a direita, bolinha pela canhota.

Veio depois um longo período em que o Sporting (certamente ordem dos seus xerifes) apenas se preocupou em repousar e congelar o couro, certo de que apenas era preciso impedir progresso aos tiroleses porque o papo estava cheio para a viagem lusa. Simplesmente, às tantas, o pagode começou a chatear-se com o reverso da medalha, que fora rutilante no tempo de abertura e começava a tornar-se pretexto para uma soneca ou mais umas cervejitas e adeus, estádio. Os rapazes, envergonhados, meteram-se outra vez em brios e sujeitaram a tal bombardeamento a baliza de Ivkovic que ninguém, em todo o mundo futebolístico, se espantaria se o «score» tivesse chegado aos sete ou oito: acabou num quadrunvirato de golos porque, a certa altura, desejando colaborar no circo, o camisa um em visita lembrou-se de sair em procura dos malmequeres, quis fazer um bonito de cabeça, foi burlado por Cascavel, imitou o Lewis (ao pé coxinho) atrás do brasileiro mas quando chegou à meta estava batido por um pé.

Antes do mais: aqui estou, de chapelada tirada, cumprimentando o senhor Oceano Andrade da Cruz, 25 anos completados em Julho. Toda a gente perceberá (agora) a razão autêntica porque Pedro Gomes o recrutou no Nacional madeirense para o clube do seu coração. Era tosco e pouco feito a toques na esferinha, só tinha a favor uma inesgotável força física e toda a garra que recebera da natureza. Ontem, entre alguns parceiros de muito maior vivência, ganhou a total carta de alforria, transformando-se no «patrão da equipa», aconselhando os mais novos, insuflando de coragem os mais creditados, sempre acorrendo a todos os cantos como se fora dona de casa em hora de atender visita de toda a cerimónia. Só para ver Oceano, só para encontrar um imprescindível na verdadeira selecção nacional, valeu a pena o calor de morrer que se viveu nos topos de Alvalade, aqui e além uma gotinha de água a esmaecer o fogo que assolava os corações radiantes, tirando a barriguinha de misérias e já prenunciando folia para o atendimento ao super-Benfica de todos os tempos.

Sealy marca de cabeça.

Oceano, pois claro. Mas, também Silvinho e Sealy, Paulinho e Vítor Santos, a primeira parte de Cadete: toques memoráveis para o bom crédito sportinguista. O negrinho brasileiro é um produtor de fintas do mais alto quilate: tivesse até aqui envergado camisola mais ganhadora e seria famoso em toda a Europa. O inglês possui o nervo latino e a alegria de um bebé: transportou para o meio-campo verdebranco, inoculou entre seus pares o tom da irreverência perante o antagonismo, do inconformismo face a qualquer situação menos favorável. Cascavel (manhoso raposão) está como peixe na água sempre que tem adversário apenas preocupado em secar o seu fuzilamento: mal o sujeito se distrai, toca para o véu da noivinha. E, se preferimos ver Vítor Santos, solto e à vontade no reduto central (talvez com a cedência do posto defensivo a Mário Jorge ou Fernando Mendes) não se pode negar que está ganhando personalidade e, tal como o impulsivo e feliz Cadete, pode firmar arraiais se continuar trabalhando e não começar olhando sobre o ombro, «mirando al tendido».

Seis homens (portanto) que estiveram bem na base do derrube do pagão austríaco, reduzido rapidamente a frágil andorinha que nem sequer está na fase de anunciar esperançosa Primavera.

Foi (como tentei explicar) um espectáculo com duas faces: sportinguistas brilhando a todo o vapor nos primeiros três quartos de hora e na quinzena final de minutos, meia hora que deu para fazer palavras cruzadas e contar anedotas ao vizinho. Estamos em crer que a ordem patronal para o abrandar de esforços acabaria por estar certinha: a não violação das nossas redes era muito mais importante que chegar até à outra margem, excepto se isso fosse proporcionado com perspectiva de golpe bem fatal. Sucedeu: quatro ou cinco vezes que a malvada da saltitante andou fazendo fosquinhas defronte de Ivkovic mas, ou aparecia um pé salvador ou a calibragem sportinguista ficava em ponto zero. Valeu o quarto tento para a plateia sair em comemoração: tomando o gosto ao êxito, é certo e sabido que qualquer português quer sempre mais e melhor. E, afinal, a ambição não será um dos primeiros desideratos que o cidadão normal pretende sempre ir vergando?

Golo de Cascavel após falhanço incrível de Ivkovic.

A relativa falência dos centrais da cortina verde, mais alguns momentos em que João Luís não conseguiu impor-se, deram certos calafrios na gente amiga: questão de treino para melhor rotina dos postos ou necessidade de Morato ou Carlos Xavier saírem a terreiro com as armas de que dispõem, aptos (como devem estar) para uma conversa em família?

Impõe-se (também) que o Sporting acerte melhor a tarefa de Mário, agora que Oceano está disposto a tomar as rédeas e, mesmo sem o alto domínio do brasileiro, parece transformar em rodízio tudo o que vai acontecendo em seu redor. Mário (tal como a maioria dos «craques» vindos da América do Sul) prefere combinar com os compatriotas a seguir o exemplo de Silvinho, que rapidamente selou amizade indefinida por quem estiver mais à mão para encher o pé com o golo. Quanto a Marlon, continua sendo útil para lançar seus lampejos na parte final do dissecar do problema: dá a última sapatada num lateral que já esteja com os bofes pela boca.

Poderia aqui dizer que o muito jovem (mas igualmente prometedor) Rui Correia ainda vive sob a sombra (protectora mas também muito respeitável) de Vítor Manuel Damas de Oliveira, já para não dizer que deve ter ultrapassado o comodismo com que Vital sempre foi assistindo ao rodar das horas. Vistas assim as coisas, importa dizer que este «miúdo» tem «madeira» para se tornar um óptimo guardião.

E pronto. Arbitragem condescendente, espectáculo bonito, «estrelas» sobressaindo no céu carregado de humidade. E muito calor: na atmosfera, nos nossos corações, nos nossos sinceros aplausos. No Tirol, não se canta assim.

Com boa arbitragem do belga Marcel Van Langenov, que esteve ajudado por Guy Goethais e Jean Grenay.

Sporting: Rui Correia; João Luís, Duílio, Venâncio e Vítor Santos (Mário Jorge aos 83 minutos); Oceano; Cadete (Marlon, 74), Sealy, Mário e Silvinho; Paulinho Cascavel.

Tirol: Ivkovic; Auer, Messlender,Pezzey e Kalinic;, Wazinger, Hans Muller (Eder, 34; depois Pacult, 65), Lnszmaier e Koreimann; Roscher e Hortnagl.

Golos: Sealy (6 e 41 m), Paulinho Cascavel (de grande penalidade) aos 24 e, de bola corrida, (82).

Fonte: Jornal Diário de Lisboa


Resumo do jogo.

Data: 15/09/1987
Local: Estádio José Alvalade
Evento: Sporting (4-0) Swarovski Tirol, 1987/88 - 1º Eliminatória TVT

Artigos relacionados

Comments

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.