RUGIDO VERDE

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Domingo, Setembro 20, 2020

Paulinho Cascavel: «Troco tudo pelo título nacional»

Um goleador à defesa é algo raro de se ver, mas mais frequente de se ouvir. É que, passando dos relvados para as entrevistas, Paulinho Cascavel, que há dois anos é rei dos artilheiros em Portugal, é um homem bastante cauteloso, que a propósito de uma questão por nós colocada, acerca do velho e novo Sporting, diz com um sorriso: «Essa é rasteira…» A verdade é que, no capítulo das palavras, Paulinho não se adianta muito no terreno, sobretudo quando o «adversário» utiliza uma táctica ofensiva…

FOOT – Considerado um dos melhores brasileiros do futebol português, Paulinho terá este ano a feroz concorrência de diversos internacionais «AA» do seu país. Teme que a sua popularidade sofra um revés?

Paulinho Cascavel – Não existe concorrência individual entre brasileiros. Vou dar o meu melhor pelo Sporting e, claro, se conseguir o destaque doutras épocas, ficarei satisfeito. De certeza que não me vou acomodar, pois tenho a noção exacta de que, nestes três anos e meio em Portugal, demonstrei o que valho, pelo que agora vou tentar melhorar ainda mais. É verdade que vieram grandes jogadores do meu país – internacionais cuja popularidade lá é muito superior à minha, embora os meus feitos por cá já tenham alguma divulgação no Brasil – mas penso que isso só é benéfico para o futebol português…

F. – Você parte para a nova época como rei dos goleadores. Responsabilidade redobrada?

P.C. – De forma nenhuma. O meu primeiro pensamento é ajudar o Sporting a fazer uma grande época. Se ganhei duas vezes, é óbvio que poderei vencer a terceira, mas isso está longe de ser uma obsessão. É um objectivo que tenho, mas no qual não penso muito, porque quando se começa a raciocinar em termos individuais acaba-se atrapalhando. Todos os jogadores do Sporting querem brilhar individualmente, mas com o apoio da equipa, porque sem ela todos se apagam…

F. – O apoio que teve na temporada transacta para chegar ao «trono» na última jornada…

P.C. – Tudo aconteceu com naturalidade. De início, jogámos para os pontos, pois precisávamos de vencer para garantir o apuramento europeu. Depois, durante o jogo, combinámos que sempre que fosse possível proporcionarem-me o remate… Foi um dia feliz, tudo correu bem: chutámos nove vezes à baliza e marcámos sete golos. Se tivesse sido assim durante toda a época… Para mim foi maravilhoso. Para qualquer goleador é importante ser o que marca mais, é um prazer muito grande, uma motivação maior. Penso que estes dois troféus foram o que de mais importante aconteceu na minha carreira…

F. – Trocava-os pelo título nacional?

P.C. – Estes já não posso trocá-los por nada. Mas o terceiro trocava-o pelo título, trocava tudo por ele. Ser campeão seria óptimo, poria toda a equipa a um nível muito grande, aumentaria a cotação de todos.

F. – Já lá vamos… Quanto à coroa de goleadores, reconhece ter tido alguma sorte nas ultrapassagens a Gomes, no primeiro caso por lesão do portuense?

P.C. – Com sorte ou não, só posso dizer que até para se marcar golos é preciso sorte. Só se ganha se os outros falham mais. Eu na última época desperdicei três penalties e também podia ter perdido a coroa. Ninguém tinha culpa disso. Eu também não tive culpa que o Gomes se lesionasse. Agora, não se pode afirmar que foi por isso que eu lhe ganhei, porque ele podia continuar a jogar e não marcar. São tudo hipóteses…

F. – Esse foi o título obtido em Guimarães. Depois, deu-se a transferência para Alvalade e a descida do terceiro para o quarto lugar do Nacional. Chegou a arrepender-se da troca?

P.C. – Sentia-me descontente com os resultados, mas nunca com a transferência. Vim para Alvalade com o pensamento de integrar uma grande equipa, de chegar ao título, o que era impossível em Guimarães, só que desde cedo ele ficou 4 perdido, como aliás ficou para todos, pois o campeonato anterior foi um passeio para o FC Porto. Nunca me podia arrepender da transferência, porque a Direcção cumpriu sempre o prometido e o ambiente que vim encontrar é óptimo.

F. – Depois dos êxitos em pequenos clubes do Brasil e de Portugal e dos fracassos no Fluminense e FC Porto, poder-se-ia falar em complexo dos grandes ou dependência de ambientes? Em Guimarães, o Paulinho era um rei…

P.C. – São ambientes diferentes mas eu não me deixo influenciar por eles. Na pequena cidade nós convivemos com os adeptos, era tratado com muito carinho por todos e estou-lhes muito grato por isso. Em Lisboa é completamente distinto, mas sinto-me adaptado e, depois, os resultados é que falam por si. No Fluminense e no FC Porto não me foi concedida uma oportunidade, sequer. No Sporting estive abaixo do que mostrei em Guimarães, reconheço que não fiz uma grande época, mas consegui apontar 24 golos e ficar à frente da lista dos artilheiros… De resto, como já referi, é difícil brilhar-se quando o colectivo está por baixo…

F. – Passemos ao novo Sporting. Dos seis brasileiros da época passada só você e o João Luís transitaram para a actual. Pensa que os outros não tinham valor? Acha que até a sua continuidade esteve em perigo?

P.C. – Nem uma coisa nem outra. Toda a mudança que se pretendeu fazer passou por dirigentes, técnicos e jogadores. Mas nada havia com os brasileiros, e saíram mesmo alguns de grande categoria, mas era necessário mudar e acabou por sair metade do plantel. No meu caso, tive convites para ir para o estrangeiro, os directores tomaram conhecimento e nem sequer aceitaram conversar, pelo que a minha retirada nunca foi hipótese. Felizmente, nas últimas três épocas tenho tido sempre convites, já estive até em França em conversações, mas não tenho grande vontade de abandonar Portugal. Só o faria por algo de muito grandioso, porque aqui tenho bom ambiente, um idioma que domino e um prestígio que levou tempo a conquistar.

F. – Quanto ao novo Sporting, colocando nos pratos saídas e entradas, para que lado pende a balança?

P.C. – Pessoalmente, não conhecia nem os jogadores nem os técnicos vindos do Brasil, pois estou cá há três anos e meio, mas sei que têm todos grande prestígio. Não comparo entradas e saídas, só sei que o Sporting contratou muitos e bons jogadores e que estão criadas todas as condições para o clube ser grande e disputar o título nacional.

F. – O sentimento de frustração que se vive há seis anos poderá atraiçoar-vos?

P.C. – Eu estou cá há um e senti-o na pele, com assobios e críticas constantes. Penso que isso só faz aumentar a nossa responsabilidade, levando-nos a proporcionar a alegria que a massa associativa quer e nós, mais do que ninguém, também. Em valores individuais, o Sporting equipara-se a qualquer equipa nacional. O FC Porto terá um plantel mais numeroso, mas só jogam onze de cada vez, e o Benfica é também um forte candidato, pelo que, julgo, vamos ter um campeonato mais competitivo que o anterior.

F. – Mas ao Sporting faltará o entrosamento…

F.C. – Com jogadores oriundos de diversos locais, é natural que precisemos de mais tempo para o entrosamento, mas ele depende também dos resultados. O importante será ganhar os primeiros jogos, pois as vitórias dão entrosamento, dão moral, dão tudo.

Texto: José Paulo Canelas in Revista Foot Set/1988

TRÊS ANOS E MEIO DE GLÓRIA

Nascido em 28 de Setembro de 1959 – completa neste mês 29 anos de vida – Paulo Roberto Vacinello vive há três anos e meio a glória que no seu país desconheceu. Após uma peregrinação que o levou a envergar nove camisolas – Atlético Paranaense, Sport Pinheiros, Toledo, Atlético de Curitiba, Cascavel Sport, América, S. José de Rio Preto, Crisciuma, Fluminense e Joinville – Paulinho optou por tentar a sua sorte em Portugal, e logo no FC Porto, onde 21 minutos em campo lhe bastaram para se sagrar campeão nacional de 84/85. Após cinco meses sem oportunidades, decidiu-se por Guimarães, onde se tornaria o artilheiro-mor do Vitória, com 25 golos apontados em 85/86 (2.º lugar nacional atrás de Manuel Fernandes) e 22 em 86/87 (pela primeira vez «rei» dos goleadores). Chegou então a oportunidade no Sporting que não enjeitou, garantindo de novo a coroa dos artilheiros, com 24 tentos em 87/88. Três anos e meio de glória com mais alguns pela frente. Em Portugal, claro.

Data: 11/09/1988
Local: Revista Foot de Setembro de 1988
Evento: Entrevista a Paulinho Cascavel

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