RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Domingo, Setembro 20, 2020

Neste dia… em 1958, Sporting vence Benfica na festa de despedida de Travassos

Numa festa inesquecível caiu bem a vitória do Sporting

Por FERNANDO SOROMENHO

Conforme se esperava, o internacional n.º 1 do futebol português, José António Barreto Travassos, teve a festa a que as suas qualidades faziam jus. Muito publico, ambiente carinhoso, transbordante entusiasmo, colorido, variadíssimas prendas (valiosas e duas originais, um par de botas de futebol para o filho e um cão para a caça!), medalhas que honram e nobilitam, e, finalmente a vitória sobre o Benfica, circunstancia que mesmo em jogos particulares não deixa de ser sempre grato ao espírito e ao coração da gente «leonina».

Uma tarde inesquecível!

O jogo, no entanto, não se encaixou perfeitamente no nível da festa, embora, em alguns trechos, agradasse. Notou-se porventura a existência de um clima de despreocupação o que para bom entendedor significará ausência de espírito de competição, factor sempre apreciável e que tantas vezes (não sempre) desperta a emoção e aquece entusiasmos adormecidos.

Seja como for, sportinguistas e benfiquistas, esforçadamente, trataram de lutar com as suas melhores armas do momento, com os sentidos postos no torneio que se avizinha – que esse, sim, é a sério.

Por conseguinte, infere-se que o embate de ontem não provocou «frisson», excepto em meia dúzia de lances próximos das balizas, daqueles que sugerem golo ou parada espetacular dos guarda-redes. Dois golos ditaram a sorte, neste caso a pouca sorte do Benfica, e foi seu autor Morais, ex-Torreense, por sinal, aos 21 minutos de cada um dos tempos. No primeiro aceitou-se como corolário do ascendente exercido pelos «leões», reflectido numa mais equilibrada coesão dos sectores e lúcido sentido ofensivo. No segundo, o acontecimento teve o seu quê de fortuito, dado que o Benfica, rectificados alguns erros, carrilava com outra disposição. Aliás, foi na sequência de uma má intercepção da defesa que o buliçoso e perigoso extremo-esquerdo sportinguista atirou com êxito.

Com vantagem tão tranquilizadora, os donos da casa jamais se preocuparam, mesmo quando os visitantes no ultimo quarto de hora, operaram um esforço extra para, pelo menos, minorar a derrota. Mas a certeza «leonina» não admitia a imposição da incerteza, porque vinha tardiamente e porque era, ao mesmo tempo, pouco convincente. Não se julgue, porém, que a vitória do Sporting – aliás justa, absolutamente indiscutível – resultou de uma exibição de elevado nível técnico. Afirmar isso, seria faltar à verdade.

O Sporting, em relação à época transacta, apresentou um xadrez muito remexido. Novo guarda-redes por sinal ágil, atento e seguro, novo defesa-esquerdo (agradou pela personalidade e conhecimentos da posição) e novo extremo-esquerdo ( uma faca apontada permanentemente ao coração dos defesas). Na linha média, formou o binário, Pérides e Mendes, o primeiro a substituir Julius, que vai ser operado dentro de curto prazo de tempo, e no ataque, o brasileiro, lvson, ocupou o centro, sem todavia fazer esquecer o incansável Vadinho.

O Benfica optou por um ensaio, com a nota especial para Salvador a figurar a médio-direito e José Águas ter ficado no banco dos suplentes, observando os movimentos do seu substituto, Pedro Silva, que pareceu um tanto acanhado, sintoma talvez de nervosismo.

Não obstante, a pronunciada melhoradela na sua estrutura, o Sporting logrou dar uma ideia de melhor conjunto, uma fácil coordenação dos lances, com os olhos postos no caminho da baliza. Pena foi que o trio central não tivesse acompanhado as inúmeras situações forjadas pelos extremos, cujos estilos tão dissemelhantes (Hugo é um criador e Morais um finalizador) servem para conferir ao ataque «leonino» uma sugestão, porventura, mais aliciante.

O Benfica começou por claudicar no sector defensivo e isso originou o desacerto ou a inconstância dos outros compartimentos, além disso, a extraordinária atenção dos defesas «leoninos» – Galaz melhorou consideravelmente na antecipação – que foram sempre mais rápidos sobre a boia, parece ter hipnotizado os dianteiros visitantes que, por força, das circunstancias, se viram compelidos a adoptar um processo individualista, pernicioso e contraproducente.

Diga-se ainda que os «encarnados» não tiveram um homem ordenado a meio do campo, apesar de Salvador ter tentado chamar a si essa responsabilidade em intermitentes períodos, no que se houve auspiciosamente, denunciando espírito combativo e sádio entusiasmo. Talvez no lugar de médio, onde a visão da bola é diferente, o discutido jogador tenha encontrado o seu «habitat», ideal. Sinceramente, assim o desejamos, em atenção não só às qualidades técnicas de Salvador como ainda em relação aos próprios interesses do futebol nacional – a quem arrancaram recentemente alguns bons pedaços…

Todavia, a irregularidade do Benfica quase desapareceu, na segundo tempo, já com José Águas e Mário João nos lugares de Pedro Silva e Alfredo, respectivamente. A manobra passou a ser mais fluente, enquanto as soluções de continuidade desapareceram e até, digamos, certos pronunciados individualismos anteriores.

Mas a esta melhoria respondeu o Sporting com a segurança do bloco defensivo, onde os estreantes Carvalho e Lino, não ficaram diminuídos, mesmo nada, no confronto com os antigos. O guardião, de quem já dissemos o suficiente, revelou uma «pinta» que, por inevitável associação de ideias, traz ao espírito os nomes de Azevedo, Barrigana e Carlos Gomes, produtos do «viveiro» do Barreiro, donde o novo reforço «leonino» também veio. Naturalmente, é cedo para extrair uma conclusão, definitiva e esclarecedora, mas quando o prólogo é bom…

Odiamos ainda, enveredar pelo difícil como delicado caminho das deduções, insinuar que (em face do que ontem se viu) que o Sporting se afigura melhor apetrechado do que o Benfica para a arrancada do Nacional da 1.º Divisão. Não incorreremos em tal tarefa, porquanto reconhecemos que ambos os contendores procuraram cumprir directrizes e consequentemente integrar-se no desempenho, quanto possível satisfatório, de funções específicas, No fundo, um jogo particular só serve para a solidez da rotina e refinamento de manobra.

Os «encarnados», que naturalmente esperam vir a utilizar os rapazes que fizeram vir do Ultramar, não forneceram, como é evidente, uma noção cabal das suas possibilidades. Estas, como é legítimo, estão na iminência de aflorar, com maior ou menor brevidade, consoante a difícil ou fácil integração desses novos elementos na engrenagem do dispositivo táctico.

Por outro lado, o Sporting estará também decidido a rectificar alguns pormenores, previsão, aliás, fundamentada, porque ninguém, principalmente no desporto, se considerará realizado. A ânsia da perfeição é um direito legítimo, uma aspiração natural.

Dentro desta ordem de ideias, cumpre-nos desejar que os dois eternos rivais, como de resto todos os restantes clubes, demonstrem, na época que se aproxima, o potencial técnico-táctico que o publico ansiosamente aguarda e que bem vistas as coisas, bem merece.

Uma homenagem com elevação

Constituiu um belo espectáculo a cerimónia de homenagem a José Travassos. Cinquenta e dois clubes, filiados na A. F. L. e ainda o Benfica, Torreense e C. U. F. testemunharam um apreço que ultrapassa o plano da banalidade. Por sua vez, a Federação, a Associacão e o Sporting distinguiram o atleta com três medalhas de relevantes serviços e a D. G. D. tornou publico um eloquente louvor, cujo teor deve servir de estimulo para as novas gerações como aliás, a própria carreira do homenageado.

No capítulo das lembranças, Travassos. deve ter batido o «record». Até um cão de caça lhe foi oferecido. Enfim, uma festa inesquecível, em que toda agente ficou satisfeita. Sabe bem prestar justiça.

Fonte: Diário de Lisboa

Ficha do jogo:

Sporting: Carvalho; Caldeira, Galaz e Mário Lino; Pérides (Joaquim Pacheco 46′) e Fernando Mendes; Hugo, Vasques, Ivson, Travassos (cap) e Morais.

Benfica: Costa Pereira; Calado (Fernando Ferreira 22′), Artur e Ângelo; Salvador e Alfredo (Mário João 46′) ; Antunes, Coluna, Pedro Silva (José Águas 46′), Mendes e Cávem.

Golos: Morais (21′ e 66′) (Sporting)

Data: 07/09/1958
Local: Estádio José Alvalade
Evento: Sporting (2-0) Benfica, Festa de despedida de Travassos.

Artigos relacionados

Subscreva
Notify of
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
0
Partilhe a sua opinião!x
()
x