RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Sábado, Setembro 19, 2020

Neste dia… em 1937, jogo de estreia de Peyroteo numa vitória por 5-3 contra o Benfica


Começou o «football» – o jogo preferido pelo publico. Modalidade verdadeiramente espectacular, ela tem o supremo dom de arrastar as multidões, fazendo-as viver horas de intensa emoção.

Foi encurtado o chamado tempo do defeso, este ano. Ainda se «deu pontapés» na primeira semana de julho passado. O facto, porém, não originou qualquer diminuição de interesse na «aficcion». Pelo contrario. A abertura da temporada era aguardada com maior ansiedade do que nos anos anteriores.

Um facto primordial explica e contribui para a espectativa verificada – a pobreza da época ciclista, pois o ciclismo é o desporte da simpatia popular nos meses da canícula.

A luta entre os «ases» do pedal – cujos nomes atingem uma popularidade muito semelhante à dos jogadores de «football» – entretem maravilhosamente, no interregno da bola, a curiosidade do publico, fiel aos espetáculos desportivos.

Ora, este ano, a actividade ciclista foi reduzida. Não se realizaram algumas provas de grande cartel. Daí, o desinteresse do publico pelo ciclismo. E o crescendo de interesse pelo jogo da bola.

A época 1936-1537

Os boatos postos a correr acerca dos «teams» mais conhecidos estimularam também – de resto, a historia repete-se ano a ano – a espectativa do publico, que visiona sempre uma época de bom «football», uma época melhor que a anterior, pela evolução de grupos reforçados com «estrelas novas», e que afinal se tem de contentar com o que houver…

Não admira, pelo que acabamos de afirmar, que, embora em pleno verão, os desafios da inauguração oficial 1937-838, tivessem levado ao magnífico campo das Salésias uma grande assistência – a primeira enchente.

A prova do que dizemos reside na receita que, segundo os nossos cálculos, deve ter ultrapassado a marca dos vinte contos. De resto, jogava-se um Benfica-Sporting, um 116.º encontro entre os dois clubes. E há que confessá-lo. Nada há, ainda, como um Benfica-Sporting. É sempre um grande dia – um dia em cheio.

Os novos elementos que pisaram a relva das Salésias

O início do «Torneio Triangular», desiludiu um tanto ou quanto no capítulo «novidades». As imaginações haviam fantasiado acerca do assunto. Afinal, poucos foram os jogadores novos ou desconhecidos utilizados por qualquer dos grupos. O facto não é de causar grande estranheza. O «mercado» português é reduzido, como reduzidas são as possibilidades financeiras dos clubes. E a «importação» é, forçosamente, escassa…

Tanto o Sporting como o Benfica não jogaram bem. Deram, contudo, espaço a espaço, uma boa sensação de jogo de conjunto, a provar o bom critério dos treinadores. Os «teams» mostraram uma toada própria e certa, indicando a possibilidade de atingirem uma forma superior, no desenrolar da temporada que ontem abriu, com chave de ouro…

Em ambos os grupos não alinharam titulares do primeiro plano, como Pedro Pireza e Manuel Soeiro (no Sporting) e Rogério de Sousa e Domingos Lopes, este ultimo por doença (no Benfica). Isto, explica, juntamente com a preparação ainda incompleta, algumas das deficiências reveladas.

Todavia, o segundo tempo do «match» que o Sporting venceu por cinco a três, forneceu, por vezes, um jogo emocionante, principalmente em virtude da abundância dos lances perigosos de ataque, embora menos ordenados por parte do Benfica, e pela actuação decidida de ambos os compartimentos defensivos.

O empate seria, porventura, o resultado mais justo, com a vantagem de contentar todos. A menor segurança do Benfica foi compensada, durante a primeira parte, por uma maior actividade dos seus avançados, que remataram com frequência, ainda que com certa precipitação.

FERNANDO PEYTOREO o novo avançado centro do Sporting

Contudo, há que frisar que a vitoria, dos «leões», derivada do melhor aproveitamento das oportunidades, teve absoluto mérito. No capitulo do remate, o novo avançado centro Fernando, Peyroteo – foi uma revelação a atender. E já que falámos do novel elemento vindo de Luanda, vamos referir-nos também à actuação dos restantes jogadores que se estrearam – Jesus (da Madeira) e Muchacho (de. Braga).

Peyroteo, o novo condutor do ataque leonino, demonstrou magníficas qualidades de «shootador». Tem excelente físico e espírito batalhador. Tudo indica que não lhe será difícil assimilar os conhecimentos indispensáveis para o bom desempenho do lugar. E certo que nos pareceu um pouco lento, e indeciso no passe. Mas isso são defeitos de fácil correcção.

O «back» Jesus ocupou também regularmente o seu lugar de defesa, Bate a bola com acerto e tem a energia dos verdadeiros «backs». A sua colocação é, ainda, um pouco confusa, mas a sua habilidade é evidente.

Lopes (Muchacho), o novo interior direito do Benfica, não impressionou lá muito bem. Teve, com efeito, uma, exibição apagada. Movimentos presos, como agarrado ao solo, má visão nas passagens, deficiente colocação no terreno, e falta de «shoot» de remate. Há que entrar, porém, em linha de conta com o facto de se tratar duma estreia, e disso influir certamente no espírito do novo interior. De resto, uma exibição não se nos afigura suficiente para um juízo definitivo acerca dos estreantes de agora. Exibições futuras confirmarão ou não o valor revelado pelos estreantes. Então, corrigir-se-á o juízo do abrir de época…

A actuação dos antigos jogadores

Dos jogadores habituais nos dois «teams» que ontem se degladiaram, a maioria forneceu o rendimento normal, nem sequer acusando o destreino, que, aliás, o descanso de sete semanas justificaria.

Estão neste caso, pelo que diz respeito ao Sporting: Azevedo, um magnífico guarda-redes; Galvão e Jurado, o primeiro, continuando a revelar grandes qualidades para o lugar, e o segundo, mostrando-se ainda um defesa seguro; Aníbal Paciência, muito à vontade no eixo do «team»; Rui Araújo, sempre uma utilidade; Heitor Nogueira, em forma impressionante de grande jogador; e Mourão, por certo sem substituto a extremo direito.

Os que acusaram abaixamento de forma: Manuel Marques e João Cruz. O jovem médio esquerdo, jogando «cerimoniosamente», falhou amiudadas vezes, tanto na defesa, deixando uma aberta aos adversários, como na transmissão de jogo. João Cruz esteve inferior às suas exibições do campeonato de Portugal. Vasco Nunes, da reserva, longe da sua forma de há anos. Esteves (antigo Carcavelinhos), discreto na sua actuação, Martins, afirmou segurança e um estilo sóbrio.

Do Benfica, Cândido Tavares foi o guarda-redes regular de sempre; Gustavo, o defesa de grande experiência, embora acusando fadiga; Gaspar Pinto, batalhador na defesa e consciente na colaboração com o ataque; Albino, um belo médio centro, com o inconveniente de prender demasiadamente a bola; Espírito Santo, jogador de grande futuro; Luiz Xavier, bom condutor de ataque e Valadas, continuando a creditar-se como o nosso melhor extremo esquerdo.

Vieira e Batista jogaram menos do que é licito esperar deles em manifesta inferioridade de forma. Feliciano Barbosa, da reserva, a despeito de ter a sua acção facilitada pela má actuação do médio Marques e de ser «servido» em boas condições, só no segundo tempo em alguns lances, cumpriu com acerto. A registar, em agradável nota final, como bom sintoma, a correcção e lealdade dos jogadores em campo.

Fonte: Diário de Lisboa

Ficha do jogo:

Árbitro: Manuel da Silva

Sporting: Azevedo; Jesus, Galvão, Rui Araújo, Paciência, Manecas, Mourão, Heitor, Peyroteo, Vasco Nunes e João Cruz.
Jogaram ainda: Esteves, Jurado e António Martins

Benfica: Cândido Tavares; Gustavo, Gaspar Pinto, Albino, Espírito Santo, Luiz Xavier, Valadas, Lopes Muchacho, Vieira, Baptista e Feliciano Barbosa.

Golos: Peyroteo (2), Paciência, Mourão e Vasco Nunes (Sporting) ; Espírito Santo (2) e Valadas (Benfica)

Data: 12/09/1927
Local: Campo das Salésias, Lisboa
Evento: Sporting (5-3) Benfica, Torneio triangular

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