RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Domingo, Setembro 15, 2019

Meszaros: «Dei uma passa num cigarro durante o dérbi»

Numa entrevista exclusiva ao i, o antigo guarda-redes do Sporting fala, em bom português, sobre os sete anos em Portugal.

14J – CN (02/01/1983) Sporting (1-0) Benfica (Jordão 50′). Em cima da esquerda para a direita: Meszaros, Jordão, Venâncio, Kikas, Virgílio e Oliveira. Em baixo pela mesma ordem: Ademar, Kostov, Manuel Fernandes, Lito e Marinho.

Já se passaram 20 anos mas Meszaros está igualzinho ao que era. Alto e magro, com aquele bigode farfalhudo, a imagem de marca nos anos 80, quando defendeu a baliza do Sporting (1981-83), Farense (1983-84) e V. Setúbal (1986-89). Entra no Hotel Intercontinental, à beira do Danúbio, no lado Peste com vista para Buda, onde tem um encontro marcado com José Alberto Costa, antigo internacional português com carreira feita no FC Porto, e este sim sem o bigode que o caracterizava dos tempos de jogador. Os dois cumprimentam-se efusivamente no átrio, trocam umas piadas e sobem para o restaurante do hotel, onde a selecção acaba de jantar. Meszaros é apresentado a Queiroz, primeiro, e ao resto do grupo, depois. Nenhum jogador português sequer sonhava com a 1.a divisão, quanto mais com a selecção, quando Meszaros actuou em Portugal, mas há um ou outro (como Miguel Veloso) que pára, olha e sorri para ele. É como dizemos: está igual.

Entre apertos de mão e elogios mútuos, houve tempo para Meszaros, ladeado pelo filho Gabor (que fala ainda melhor português que o pai), dar uma entrevista ao i para falar sobre os três clubes portugueses, os Mundiais de 1978 e 1982 com a selecção húngara e o rival Bela Katzirz.

O seu último jogo foi há 20 anos em Aveiro (Beira-Mar-V, Setúbal, 0-0). Que recordações tem de Portugal?

As melhores possíveis. Sempre considerei Portugal como a minha segunda casa. Cheguei lá aos 31 anos, com muita experiência, e sai de lá com 38, como campeão nacional da 1.a divisão (Sporting em 1981/82) e da 2.a (V. Setúbal 1986/87).

No Verão de 1981, o Sporting contrata Oliveira e Meszaros para chegar ao título. Como foi a sua chegada?

Tive uma recepção calorosa. Eles, Manuel Fernandes, Jordão, Eurico, Inácio, José Eduardo, Bastos, Barão e todos os outros, foram sensacionais. Eu vinha do Vasas Budapeste, onde estava desde 1969, e já conhecia o Sporting, porque nos cruzámos na segunda eliminatória da Taça UEFA 1975/76. Ganhámos 3-1 em Budapeste, com 1-1 aos 80 minutos, e perdemos 2-1 em Alvalade, com dois golos de Manuel Fernandes. Naquela altura, o guarda-redes deles era o Damas, capitão de equipa. Na época anterior à minha ida para o Sporting [1980/81], fui novamente a Portugal, mas ao Porto, onde o Boavista nos afastou na ronda inaugural da Taça UEFA, com 2-0 em Budapeste e insuficiente 1-0 no Bessa.

Em dois anos, o Meszaros ganhou tudo, um feito inédito na história do clube. Só aconteceu depois, em 2002.

É verdade, foi campeonato (dois pontos de avanço sobre o Benfica), Taça (4-0 ao Braga) e Supertaça (7-3 ao Braga em duas mãos), mas essa época 1981/82 foi especial porque o treinador Malcolm Allison era especial e o plantel também. Imagine um ataque com Manuel Fernandes, Jordão e Oliveira [juntos, coleccionaram 72 golos em 99 marcados em 43 jogos].

Por falar em Allison, como era ele?

Especial [pausa para um sorriso]. Tinha a sua maneira de pensar e de viver. Era diferente mas bom homem e óptimo treinador. Em 1987/88, fui novamente treinado por ele em Setúbal.

Mas entre Sporting e o Vitória, houve o Farense, não é verdade?

Sim, em 1983/84. Saí do Sporting, que curiosamente contratou outro guarda- -redes húngaro, o Katzirz, que agora é advogado aqui na Hungria e fui para o Algarve, treinado por Mladenov, o Hristo, não o Stoicho que era jogador. E sabe quem estava no Farense? O treinador do Benfica. O Jesus. O Jorge Jesus.

E como era ele?

[Faz gestos com a mão]

Mais ou menos?

Sim. Tinha muita força e corria o campo todo. Jogava no meio [foi a última época de Jesus na 1.a divisão]

Depois, regressou à Hungria mas, inesperadamente, voltou a Portugal.

Foi engraçado, porque nunca pensei num regresso. Estava bem no Gyor ETO quando apareceu a proposta do Setúbal. Tinha 35 anos e não havia nada a perder. O Vitória estava na 2.a divisão e o projecto passava por subir. Nessa época [1986/87], reencontrei o Zezinho e fomos campeões da nossa zona, com nove pontos de avanço sobre o Estrela [onde jogava Jesus], e subimos. Em 1987/88, com Allison, voltei a jogar ao lado de Eurico, Manuel Fernandes e Jordão. Mas havia muito mais talento, como Vítor Madeira, Roçadas, Hernâni e Maside, que jogou no Sporting [em 1988/89]. Acabámos em oitavo lugar, com os mesmos pontos do quinto [Boavista] e a seis pontos da Europa.

Passou seis épocas em Portugal. Qual a melhor exibição?

Pelo Setúbal, em que ganhámos ao Porto, lá em cima, por 1-0 [Aparício, 55′]. Defendi tudo, tudo, até um penálti do Rui Águas. Nessa equipa, Artur Jorge já lançava dois jovens interessantes: Baía e Domingos [7 de Maio de 1989].

Então e nenhum Sporting-Benfica? Lembro-me de um em que até defendeu um penálti do Bento.

Pois, é verdade, mas aí perdi 1-0 [Chalana, 9′] e não fiz uma grande exibição. Esse do FC Porto-V. Setúbal, havia de ver!

Voltando atrás, como é que o Bento se lembra de marcar um penálti?

A mim, sinceramente, não me incomodou nada. Ele rematou e eu defendi [era dia de festa na Luz, porque o Benfica se proclamara campeão nacional na jornada anterior]. Tenho mais gratas recordações do jogo da primeira volta, em que ganhámos 1-0, penálti do Jordão, depois de passarmos o Ano Novo em estágio. O Benfica quase não atacou e até me deu tempo para fumar um cigarro.

Como?

Estava na baliza sem fazer nada e vi um fotógrafo a fumar atrás da baliza. Pedi–lhe o cigarro, dei uma passa, devolvi-lho e continuei a jogar. O fotógrafo tirou-me uma foto no momento, claro.

Essa é boa.

Foi uma situação excepcional. Nunca tinha feito isso nem nunca mais fiz. Foi uma brincadeira. Antes, os fotógrafos estavam ali, encostados aos guarda-redes.

Ainda foi treinador em Portugal?

No Lourinhanense que, na altura [1993/94], era satélite do Sporting. Estava lá um jovem com futuro que se chamava Tiago. Num jantar promovido pela câmara, estava lá o presidente do Sporting, aquele… o das águas… o Sousa Cintra, e eu falei-lhe do guarda-redes Tiago. Ele continua no Sporting, pelo que sei.

Para terminar, a Hungria, finalista do Mundial-54, anda desaparecida do mapa desde o México-86. Porquê?

São períodos incómodos, mas agora estamos a discutir um lugar em 2010…

O Meszaros até jogou em duas fases finais: Argentina-78 e Espanha-82.

Em 1978, o jogo inaugural foi com a Argentina e fomos [faz outro gesto com a mão, este igualzinho ao de Paulo Bento a Lucílio Baptista na final da Taça da Liga, entre Benfica e Sporting]. Fomos roubados. Marcámos primeiro, mas a Argentina, a jogar em casa, deu a volta e ganhou 2-1. Acabámos com nove, devido às expulsões de Töröcsik e Nyilasi [o árbitro era o português António Garrido]. No segundo jogo perdemos com a Itália por 3-1, mas, atenção, estávamos sem os nossos dois melhores jogadores. Se você visse Töröcsik jogar… [revira os olhos, suspira] era um Maradona. Na despedida, em Mar del Plata, perdemos com a França, também por 3-1, naquele jogo que começou mais tarde porque tanto Hungria como França apareceram com equipamentos parecidos. E a França jogou com o do Atlético Kimbeira, equipa local.

Em 1982, outra vez a Argentina. E a Hungria até começou por golear El Salvador.

Toda a gente dizia que El Salvador era difícil. Entrámos como se fôssemos jogar com Argentina ou Brasil. Resultado: 10-1, ainda hoje recorde em Mundiais. O pior veio a seguir. Os jogadores pediram ao seleccionador para descansar os titulares com a Argentina, para dar tempo para preparar a partida com a Bélgica, que ganhara à Argentina no jogo inaugural. Mas não, o seleccionador quis ganhar e usou a equipa titular. Perdemos 4-1, com dois de Maradona, que esteve sensacional e eu nada pude fazer. Seguiu-se a Bélgica. Estávamos a ganhar mas consentimos o empate a 18 minutos do fim e lá fomos para casa outra vez.

In ionline.pt

Artigos relacionados

1
Deixe um comentário

avatar
1 Comment authors
Peyroteo Recent comment authors

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

  Subscreva  
Notify of
Peyroteo
Visitante
Rei Leão

Grandes memórias. Meszaros chegou ao Sporting como um dos mais bem cotados guarda redes mundiais do seu tempo.

error: Conteúdo protegido!