RUGIDO VERDE

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Quarta-feira, Janeiro 20, 2021

Entrevista a Ramalhete em 1977

A NOSSA RESPONSABILIDADE ESTÁ DE ACORDO COM A GRANDIOSIDADE DO SPORTING!

De entre os hoquistas portugueses que nos propusemos entrevistar, certamente que RAMALHETE, tinha que fazer parte. Efetivamente, o excelente guarda-redes do Sporting e da selecção nacional, tinha que ser ouvido, levando em linha de conta, que, tal como Júlio Rendeiro, também Ramalhete é dos consagrados que integra a equipa do Sporting.

– Começando o Sporting a época de forma menos brilhante, e tendo a responsabilidade de representar o hóquei patinado português na Taça dos Clubes Campeões Europeus, que nos diz com vistas ao futuro?

– É verdade que por motivos de ordem vária em que temos que salientar o atraso de preparação do Rendeiro e do Livramento, o conjunto não começou realmente da melhor maneira. No entanto, julgo que tem sido evidente que o conjunto à medida que os jogos se iam realizando, ia melhorando bastante. É certo que ainda não estamos como sabemos poder estar no que se refere à perfeição de jogadas e mesmo totalmente em forma. No entanto, até ao nacional e à nossa presença na Taça dos Campeões Europeus estou certo que estaremos à altura das nossas responsabilidades que têm de estar de acordo com a grandiosidade do clube que servimos.

– Renovar o título está certamente nas vossas previsões. Que me diz sobre isso?

– Que é lógico que pensamos em renovar o título, muito embora saibamos que não é tarefa fácil porquanto as demais equipas jogam a pensar em ganhar. Convém não esquecer, que por exemplo o Oeiras e o Benfica também têm aspirações e as equipas do Norte, com relevo para o Porto, são de igual modo adversárias com que contar, isto, como é evidente sem pretender diminuir as possibilidades dos restantes coparticipantes nas provas.

– De entre os adversários para a Taça dos Clubes Campeões Europeus qual o mais difícil?

– Como é lógico, o representante espanhol. Mas vamos começar por pensar em afastar o Montreux que é o primeiro adversário e depois se verá. Para já são todos difíceis, mas tal como quando estão em competição Portugal e Espanha que normalmente decidem os títulos, pois espero que entre nós e os espanhóis a nível de clubes aconteça o mesmo.

A ARGENTINA SUBIU MUITO E É UM ADVERSÁRIO COM QUE CONTAR

– O Ramalhete falou no hóquei espanhol e parece-nos que depois do que aconteceu em Oviedo, se está a esquecer de falar na Argentina, muito embora saibamos que como sul-americanos não estão em provas europeias. Mas a nível de selecção?

– A Argentina subiu imenso, mas convém frisar que a sua preparação para o mundial é feita com todos os cuidados, pois eles bem sabem que um campeonato do mundo é muito duro causa muito desgaste. No entanto, não vamos agora servir-nos de Oviedo para fazermos disso um cavalo de batalhas, nem friamente dizer que o hóquei argentino já é superior ao nosso ou ao espanhol. Aliás, o que aconteceu em Oviedo, é sabido de toda a gente e temos que francamente aceitar que uma equipa que parte para uma prova, contando com um elemento como o Livramento e depois deixa de poder contar com ele mesmo em cima da hora tem de se sentir. De qualquer modo, pois não há dúvida que os argentinos subiram imensa e jogam com muita velocidade, do mesmo modo que não devemos esquecer os alemães e também os norte-americanos. Claro que são de características diferentes das nossas e ao qual também temos de nos habituar.

O TEMPO QUE ESTIVE NO EX-ULTRAMAR PORTUGUÊS FOI BASTANTE ÚTIL!

– Tivemos ocasião de por várias vezes contactar Ramalhete quando ao serviço do Benfica de Luanda e da selecção de Angola, onde foi companheiro de equipa de Carlos Chalupa. Sempre perfilhámos a ideia de que Chalupa tinha lugar na selecção. Que nos diz Ramalhete do tempo em que esteve em Luanda e também sobre o real valor de Chalupa, agora ao serviço do Porto?

– Relativamente à minha passagem pelo hóquei angolano, pois tenho que dizer que foi útil já que assim o julgo contribui para uma fase bastante boa do hóquei patinado da ex-província portuguesa. E você bem sabe, que na altura havia excelentes praticantes da modalidade e que hoje praticamente estão todos radicados em Portugal. Claro que a minha presença no hóquei angolano resultou da minha ida para o ultramar como tropa e depois aproveitar para continuar a praticar modalidade. Houve muitos contactos com equipas portuguesas e quer a nível de clube, o Benfica de Luanda, quer a nível de selecção de Angola tive oportunidade de dar continuação há minha preparação. Quanto ao incontestável valor de Chalupa, que já tinha vindo a Portugal para os treinos da selecção e voltou para Luanda sem jogar, acabou por ser normal a atitude do treinador, considerando que isso também acontece com os jogadores que estão em Portugal. O técnico Torcato Ferreira depois dos treinos deu preferência como sempre acontece pelos jogadores que estão mais rotinados e como era evidente Chalupa ainda que sendo um excelente hoquista tinha de ser preterido como foi. Quanto ao facto de ele não ter feito parte da última selecção, estando em bom momento de forma, pois foi uma questão de critério do seleccionador que tenho que respeitar. No entanto o valor de Carlos Chalupa é uma realidade e pode muito bem acontecer que apareça em qualquer momento com à camisola das quinas. Valor, isso é incontestável que tem.

– Teve dificuldades quando regressou à Portugal?

– Não. Como disse vinha preparado e como tal foi apenas arranjar a rotina dos jogos e integrar-me na equipa do Sporting e de novo nos jogos a nível de selecção.

NÃO TIVE POR PARTE DO PUBLICO OS DISSABORES QUE LIVRAMENTE TEVE!

– Tendo o Ramalhete sido do Benfica, afinal como Livramento, não teve problemas nem com o clube nem com os adeptos por ter ido para o Sporting?

– Não os tive porque já estava há muito desligado do Benfica. Quanto ao procedimento em relação ao Livramento, pois só tenho que lamentar. O mudar de clube, mudar enfim de camisola, nunca justifica atitudes condenáveis por parte seja de quem for. Aliás, o que é triste, é que o público não respeite o homem e o atleta para apenas ver a cor da camisola do seu clube. Pois foi evidente que o Livramento sentiu tais atitudes, ouviu frases que não merece que lhe sejam dirigidas. No entanto teve o apoio de todos nós e como tal aos poucos estou certo que o público terá que respeitar o homem e continuar a apreciar o seu real valor. Pois comigo felizmente nada disso aconteceu. Um ou outro dichote, mas que não tinham para mim qualquer importância.

– Para o futuro do nosso hóquei confia na nossa juventude?

– Em absoluto. Outra coisa não era de esperar, pois o hóquei é depois do futebol o desporto eleito do povo português e como tal os nossos jovens vivem à modalidade e gostam de a praticar. Já temos bons valores a nível internacional e assim sendo estou muito esperançado que novos nomes vão surgir para se poder juntar o conhecimento de uns à juventude e vontade de se imporem de outros.

Muito mais havia que falar com o excelente guarda-redes de hóquei do Sporting e da selecção, o valoroso Ramalhete, considerado como um dos melhores guarda-redes do mundo na modalidade, no entanto as palavras que nos disse foram suficientemente esclarecedoras quanto à futura presença do Sporting na Taça dos Campeões Europeus e também ao futuro do nosso hóquei.

Fonte: Revista «Golo»

Data: 12/01/1977
Local: Revista «Golo»
Evento: Entrevista

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