RUGIDO VERDE

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Sexta-feira, Setembro 25, 2020

Entrevista a Inácio em 2012: «Eu nasci e cresci ao lado do estádio do Sporting, o meu pai adorava futebol e levava-me com ele»

Sporting e FC Porto dividem alguns tesouros. Como o lateral português, campeão nos dois clubes, a jogar e a treinar!

Prémio Stromp como jogador do Sporting. Dragão de Ouro como jogador do FC Porto. Dragão de Ouro como treinador-adjunto do FCP. Prémio Stromp como treinador do Sporting. É Augusto Inácio, o homem que divide a sua carreira de sucesso entre os dois clubes que hoje jogam à noite. Mas há mais. Inácio treina com Mourinho no FC Porto e treina Guardiola no Al Ahly do Qatar. Desgravámos hora e meia, com Inácio a jogar mais a extremo do que propriamente a lateral-esquerdo.

Como é que o Inácio chega ao futebol?

Eu nasci e cresci ao lado do estádio do Sporting, o meu pai adorava futebol e levava-me com ele.

A Alvalade, à Luz…

Alvalade, Alvalade, Luz não.

Mas raramente ia à Luz ou nunca ia?

O meu pai levava-me sempre a Alvalade. De vez em quando, ia à Luz, sim, para ver o Sporting. Vi lá, por exemplo, aqueles 4-2 com quatro golos do Lourenço ao Melo [Outubro de 1965]. Foi um jogo histórico, pela quantidade de golos marcados, quatro ainda por cima, e pela vitória no campo do Benfica. Naquele tempo, o Sporting só empatava ou perdia na Luz. Tanto é assim que só voltou a ganhar na Luz em 1985.

Nesse tempo (1965), como era a ida de um adepto do Sporting ao estádio da Luz?

Preferia antes do que agora. Havia adeptos misturados em todo o lado. Íamos de carro para o estádio, arrumávamos onde desse e depois íamos a pé para o peão, onde havia mais sportinguistas. Claro que levávamos aquelas batatadas mas nada de perigoso nem de confuso. Agora não, há a polícia, as claques e o controlo muito mais apertado, o que não abona muito a favor do futebol.

Aliás, não foi na Luz que levou com uma laranja no olho?

Ah, é verdade [risos]. Antes de um Benfica-FC Porto em 1987. Estávamos a treinar de uma lateral à outra, quando fui atingido por uma laranja em cheio na cara. Vá lá, não foram pilhas. Menos mal. Fui logo para o balneário e o árbitro quis saber de mim, perguntando-me se podia jogar. Disse-lhe que sim mas o impensável aconteceu a 20 minutos do fim do jogo. Comecei a ver uma sombra, depois outra e mais outra até ficar sem ver nada. Fui à linha lateral e o médio, o Domingos Gomes, disse-me que podia ser o impacto e o ácido da laranja. Joguei o resto do tempo sem ver nada. Julgo que empatámos esse jogo 1-1. Passei os 15 dias seguintes com uma venda nos olhos, sem jogar nem treinar.

E não foi também na Luz que se deu mal, já como treinador do Sporting?

Foi, foi. O Benfica jogava a meio da semana, com o Leiria. Como era da praxe, o Sporting pediu dois convites ao Benfica para ver o jogo ao vivo. Quando entrei no estádio, comecei a estranhar porque os lugares eram atrás da baliza. Não digo na tribuna presidencial, mas pelo menos na bancada central. Deixei-me estar sossegado, quietinho. Ao intervalo, 1-1. Na segunda parte, comecei a aperceber-me de certas movimentações naquele local com a chegada de adeptos e mais adeptos. O Benfica marca o 2-1 [Kandaurov] e inicia-se um movimento contra mim. ‘Que tu querias era a derrota do Benfica’, filho disto e daquilo. Eu até fingi estar a enviar uma mensagem pelo telemóvel para tentar despistar mas eis que me saltam os óculos da cara, com três socos nas costas. Não havia segurança, nem nada, mas as pessoas dos camarotes ao lado começaram a criticar os agressores e eu fugi. Nos corredores do estádio, um homem aproximou-se de mim e pediu-me desculpa em nome do Benfica.

E o Benfica-instituição, pediu desculpa?

Sim, o presidente Vale e Azevedo telefonou-me e lamentou os incidentes. Na vez seguinte que fui à Luz, já como treinador do Sporting, o Benfica teve a delicadeza de me oferecer um ramo de flores antes do jogo como quem diz que aquilo foi um episódio infeliz e que o Benfica não aceitava aquela situação.

Daí para as alegadas ameaças de morte.

Alegadas, não. Isso aconteceu mesmo. Comecei a receber ameaças de morte por carta, em casa, no Sporting, no vidro do carro. Apresentámos todos os documentos à Polícia Judiciária. Foi um susto para mim e para a minha família. Não foram momentos fáceis, mas não me deixei muito levar por isso. Até porque as ameaças não passam disso mesmo quando acontecem com frequência. Se fosse só uma ameaça, aí sim, era para ter medo.

Isso foi em 1999-2000, quando levou o Sporting ao título de campeão nacional 18 anos depois. Como foi essa epopeia?

Fantástica, inesquecível. Um grande presente, que ficará para sempre marcado na minha vida. Trabalhei com homens de classe.

E os jogos propriamente ditos? O FC Porto parecia encaminhado para o sexto título consecutivo.

Sim, mas repare que recuperámos muito e até poderíamos ter ultrapassado o FC Porto antes daquele jogo em Alvalade. Eles perderam pontos e nós empatámos em casa com o Alverca [1-1] e não passámos para a frente. Depois, eles perderam pontos não me lembro onde e nós empatámos em casa com o Gil Vicente [1-1], falhando novamente a liderança. Só conseguimos ir para o primeiro lugar depois do 2-0 ao FC Porto, com golos de André Cruz, de livre directo, e Acosta. Esse Sporting esteve 23 jogos sem perder e fomos perder no jogo em que mais queria ganhar.

Com o Benfica do Sabry?

Exacto. Interrompeu uma boa série da nossa parte e marcou-nos porque era a festa do título em casa e porque era o Benfica. Mas demos a volta ao texto na última jornada, com o Salgueiros, em Vidal Pinheiro.

Grande tarde, essa?

Foi muito dramático. Até porque o Salgueiros estava para descer. Se perdesse connosco, tinha de esperar por um empate entre Vitória de Setúbal e União Leiria para ficar na 1ª divisão. E nós tínhamos de ganhar, sem prestar atenção ao Gil Vicente-FC Porto. Ao intervalo, 0-0. Na segunda parte, impusemo-nos e ganhámos 4-0.

Uma festa imensa.

Lembro-me disso, claro, mas também de outro pormenor também curioso. O Vítor Manuel, treinador do Salgueiros, cumprimentou-me de imediato e deu-me os parabéns. Perguntei-lhe então se ele estava salvo na 1ª divisão, ao que respondeu que ainda não sabia. Aí, fomos engolidos pelos jogadores do Salgueiros a dizerem que Vitória e Leiria tinham empatado. ‘Mister, salvámo-nos, salvámo-nos.’ Abraçámo-nos, saltámos, chorámos durante alguns minutos. Um não desceu de divisão, o outro foi campeão nacional.

Como foi essa semana entre Benfica e Salgueiros?

Aquele borrego dos 18 anos estava a matar-nos, um sofrimento imenso. Mas o Sporting tinha grandes jogadores. O Schmeichel, por exemplo, era um guarda-redes enorme, em todos os sentido, e depois um brincalhão no balneário.

O Schmeichel que você já conhecia desde 1987, não era?

Sim, é verdade. Quando nos cruzámos no Sporting, logo num dos primeiros treinos, virei-me para ele e perguntei-lhe se se lembrava de um Bröndby-Porto para a Taça dos Campeões em 1987? Ele disse que sim, que ainda era muito novo, que estava a dar os primeiros passos. Perguntei-lhe então se sabia que o mister era dessa equipa do Porto. Ele ficou muito espantado: o mister, perguntava ele? É verdade, e quem é que passou? E ele muito resignado, o Porto. Estava sempre a meter-me com ele por isso.

Portanto, o Schmeichel era brincalhão. E o Acosta?

Era o porta-voz dos sul-americanos. Ajudou-me bastante. Quer a contornar os momentos menos bons, como essa derrota com o Benfica, quer a falar com todos os outros sul-americanos. Repare, o plantel do Sporting tinha 12 nacionalidades e havia quem não jogasse. O papel do Acosta foi também unir o balneário, pôr os pontos no i, junto do Hanuch, do Quiroga, do Kmet, do Duscher. O Sporting ganhava, os adeptos enchiam o estádio e é natural que os jogadores menos utilizados se sentissem menos alegres que os outros. Por isso, Schmeichel, André Cruz e Acosta, por toda a sua experiência e valor humano, foram dos que fizeram a ponte para dar uma martelada na palma da mão, como diria Pedroto, àqueles que saíam fora do eixo.

Treinador campeão no Sporting depois de o ser pelo FC Porto. Quais foram as diferenças?

O Porto tem uma dinâmica diferente. O presidente só ia uma ou duas vezes ao balneário. Não ia lá todas as semanas mostrar-se. No Porto, quando o presidente ia ao balneário, ninguém falava, nem se ouvia uma mosca, tal era o respeitinho. Os jogadores sentiam que havia uma liderança forte, que sabiam que estavam ali a trabalhar em prol do clube. No Porto, só há dois caminhos: ou se apanha o comboio, mesmo que a meio, ou fica-se pelo caminho. No Sporting, não havia nada disso. Era um pouco ao Deus dará. Agora está melhor. Mas antes, o treinador do Sporting desgastava a sua imagem a defender os jogadores, a equipa, os resultados. Olhe lá o Paulo Bento, que estava sempre a falar naquilo que achava que devia ser defendido. No Porto, ninguém fala mais do que o necessitado. Fala o presidente, e pouco. Quantas entrevistas dá o Antero Henrique? Uma e e e e e. É o director-geral do futebol, e está lá sempre, sentado no banco, mas não fala.

Foi treinador do FCP com Robson. Como foi lidar com a doença dele?

Antes de mais, um aparte. Nos anos 80, vivemos, nós do Porto, o mesmo com o Pedroto. Ele foi ficando cada vez mais doente e foi difícil reagir a essa adversidade da vida. Nós vivíamos para o Pedroto. Em todos os jogos, esta vitória é para o Pedroto, esta vitória é para o Pedroto. Queríamos dar-lhe a Taça de Portugal e a Taça das Taças, em 1984. Uma perdemos para a Juventus, a outra ganhámos ao Rio Ave.

E foram oferecer a Taça de Portugal ao Pedroto?

Sim, fomos a casa dele mas custou-me imenso. Ver aquela figura, que tanto nos liderava, tanto nos marcava, tanto nos dizia nos treinos e fora deles, muito debilitado e magro. É um momento doloroso. Para ele, porque está a sofrer, e para nós, porque sentíamos que poderia ser a última vez que o víamos. Estou a falar disso agora e estou a ter arrepios.

Mas perguntou-me sobre o Bobby Robson, não foi? Bem, é natural que a ausência dele nos custasse, mas ele estava connosco. Falávamos por telefone sobre os treinos, os convocados, o onze, as substituições durante os jogos consoante este resultado ou aquele. Ele estava a par de todos os pormenores.

Nesse tempo, era o Inácio o número um e o Mourinho dois?

Sim, a hierarquia estava assim definida. Sempre foi assim. Há o número um e o número dois. No Porto. Nos outros clubes, nem sempre houve o dois. No FC Porto, fui substituir o Octávio Machado. Que não era o adjunto, era o número dois. Digo-lhe uma coisa: mesmo com a doença do Bobby Robson, os jogadores respeitavam-me como se fosse o Robson e isso faz parte do espírito do Porto porque há uma tendência natural para facilitar na ausência do líder, no caso o Bobby Robson.

Inácio e Mourinho são nomes que se voltariam a cruzar em 2001, depois de um 3-0 do Benfica ao Sporting. Qual é a verdade dessa época?

Falou-se muita coisa. Saí do Sporting, sem saber os porquês, embora percebesse que tinha de haver alguma coisa por trás mas o que houve realmente ainda não sei. Dizem-me que o Mourinho já tinha assinado pelo Sporting, que o Sporting roeu a corda, que o Sporting continuou a pagar ao Mourinho. O que constou foi que o Mourinho ia para o Sporting, agora eu não sei de nada.

Isso atrapalhou a sua relação com o Mourinho?

Não, de maneira alguma. Ainda me dou com ele. Acho-o um dos melhores do mundo, senão mesmo o melhor, por tudo aquilo que fez em tantos clubes, com uma carreira fantástica, que prestigia os treinadores portugueses, embora também goste muito do Barcelona. Até porque está lá o Guardiola, que eu treinei no Al Ahly do Qatar.

Espere aí, espere aí, treinou o Guardiola?

Na minha equipa, havia quatro estrangeiros. O Guardiola, o nosso Dominguez, o Marco Couto, ex-Vitória de Guimarães, e um cabo-verdiano sem passagem pelo futebol português. O Guardiola funcionava como meu adjunto, porque tinha uma paciência ilimitada em relação aos outros jogadores. Dizia-lhes como receber uma bola, como rematá-la, etc , etc. É uma pessoa fabulosa, bastante humana, com um trato fácil e simples.

E já o viu depois dessa aventura?

Nunca mais. Qualquer dia, tenho de ir a Barcelona. Telefono-lhe e peço-lhe uns bilhetes [risos abafados].

Antes que vá a Camp Nou, diga-me lá como é que começou essa história do Inácio jogador.

Cheguei ao Sporting através dos treinos de captação. Era extremo-esquerdo mas a bola era demasiado pesada para mim e não conseguia fazê-la chegar à área. Ao intervalo, os treinadores disseram que podíamos mudar de posição. Aproveitei para recuar e passar a defesa-esquerdo. Para descansar, só. Eles gostaram de mim ali e pronto.

Alguma vez foi campeão pelo Sporting nas camadas jovens?

Não, nunca. Perdemos uma final nos juniores com o FC Porto, em Leiria. Um golo do Gomes, que só tinha 17 anos e já jogava com os mais velhos.

E o Inácio quando jogava com os mais velhos no Sporting?

Depois, impõe-se como titular.

Lembra-se de algum Sporting-FC Porto mais memorável?

Quando era criança e ia ao futebol com o meu pai, sou do tempo em que o Sporting fazia melhores resultados nas Antas e o FC Porto respondia à letra em Alvalade. Às vezes, ia com o meu pai às Antas ver o Sporting. Cheguei a ir de comboio, mas era sobretudo de carro. Eram viagens de cinco horas, só ida. Não havia auto-estradas, e era um caminho tortuoso [risos]. Era costume irmos na véspera, ficarmos a dormir numa pensão na Avenida dos Aliados e no dia seguinte lá íamos ao estádio.

Mal sabia que acabaria por ir lá parar.

Ainda por cima, a minha estreia no FC Porto foi com o Sporting, em Agosto de 1982. Desde os 12 até aos 27 anos, joguei em Alvalade. Portanto, tudo era novo para mim. Sentia-me esquisito com aquela camisola. Era branca, sim, mas havia algo estranho nela. Não era verde, era azul. As linhas não eram horizontais, eram verticais. Nesse particular dia da estreia pelo FC Porto, fiz o meu ritual de sempre. Recebi a camisola de jogo e arregacei a manga comprida até ao cotovelo. Eram pequenos rituais antes do jogo, como lavar a cara, fechar os olhos, esfregar as mãos. Tudo isto à frente de um espelho. Nesse dia, volto a dizer, estranhei-me ‘alguma coisa está mal nesta imagem, o que é que se está aqui a passar?’. É verdade que o jogo era nas Antas, mas era esquisito ver todo aquele verde no outro lado do campo. A mesma cena em Alvalade, na segunda volta.

Foi mal recebido?

Não, não, nada disso. As pessoas aceitaram-me bem, perceberam a minha transferência. Só houve um pequeno desentendimento com os adeptos do Sporting, no tal jogo do 1-0 em Alvalade com golo do Celso. Quando acabámos esse jogo, saltámos o painel de publicidade e fomos agradecer o apoio aos adeptos do FC Porto, atirando-lhes a camisola. Algumas pessoas não aceitaram isso muito bem, mas também passou depressa.

Relembre-me lá porque é que o Inácio para o FC Porto? Pergunto isto porque o Sporting acabara de se sagrar campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal, em 1982.

Naquela altura, tinha 27 anos, casado, com dois filhos. O Sporting fez-me uma proposta… ridícula, diria ridícula. Eu terminei o contrato em 1982 e o Sporting dava-me um aumento de dois contos. Ganhava 25 contos, quando já havia jogadores do plantel que ganhavam 80, 90 ou mesmo 100 contos. Eu só queria ganhar um pouco mais, porque era jogador da casa e um dos capitães de equipa. Não gostei da proposta de renovação e fui falar com o falecido Jaime Lopes. Tratávamo-nos por tu e disse-lhe ‘ó Jaime, diz-me uma coisa, estás a fazer um contrato para um júnior? Estás a brincar ou a sério?’. Ele disse-me ‘e pá, o João Rocha e tal e tal’. Só lhe pude dizer ‘desculpa lá, mas não posso aceitar’. Apareceu-me o Vitória de Guimarães, o Amora e o Portimonense.

A sério?

Tinha quase tudo certo com o Vitória. O treinador era o José Maria Pedroto e acreditava-se em grandes feitos. E não fui para Guimarães por causa de um Renault 5.

Por causa de um…?

Renault 5.

Nããããão.

Tinha tudo acertado, só que disse que precisava de um Renault 5 para a minha mulher fazer as viagens de Lisboa para Guimarães. Está a ver, eu nascido e criado em Lisboa, com vida feita em Lisboa, ia de armas e bagagens para Guimarães e precisava de ajuda. Pedi um Renault 5. Um Renaultzinho. Eles disseram que não davam carros a ninguém. Ficámos naquele impasse três ou quatro dias até aparecer o FC Porto.

Pronto…

É isso mesmo. O timing do FC Porto foi esse, porque apresentou-me uma proposta tentadora em que ia ganhar três vezes mais do que no Sporting. Porque não me imaginava fora de Lisboa, tive o cuidado de informar o Sporting, sem dizer qual o clube interessado em mim. O Sporting ofereceu-me então a renovação, a ganhar mais três contos. Aí percebi que eles não me queriam lá e fui-me embora. Quando apareci no FC Porto, o Sporting quis-me de volta.

Mas como é que um clube pode resgatar um jogador com contrato recém-assinado com outro?

Os contratos eram feitos mas podíamos rescindir por razões de ordem psicológica. Todos os contratos tinham tranches que se chamavam luvas e se se atrasassem nesse pagamento, podíamos rescindir o contrato. No mês seguinte, o FC Porto, de facto, não me pagou uma tranche ou outra nas datas previstas e o Sporting aproveitou-se para igualar a oferta do FC Porto. O presidente João Rocha falou comigo, por telefone, e quis-me de volta. Mas não, não quis sair. Sabia que o não pagamento era um caso isolado e decidi-me por ficar no FC Porto. Até porque não fazia sentido voltar ao Sporting, um mês depois. E pronto, fiquei no FC Porto até ao final da carreira.

No seu currículo, João Rocha e Pinto da Costa como presidentes de clube. Nada mau.

Foram os únicos na minha carreira.

Tem alguma história para cada um deles?

Ora bem… O Pinto da Costa aquela figura que só aparece de 100 em 100 anos. Lembro-me do seu à-vontade em ocasiões de festa. Por exemplo, naquele outro campeonato ganho em Alvalade, já no tempo do Bobby Robson [2-0, bis de Domingos]. Estavam todos extasiados, sempre em festa, o Robson, o Mourinho e outros, e eu estava de braços cruzados a olhar para o relvado quando ele me aparece ao lado e diz-me: ‘Ó Inácio, eles não estão habituados a isto, pois não?’ Como quem diz, estes não estão habituados a ganhar títulos como nós.

Há mais?

A outra história que tenho com ele é uma na final da Taça dos Campeões Europeus, com o Bayern, em Viena-1987. Na volta ao relvado, tirei a minha camisola e oferecia-a ao senhor presidente. Tanto assim é, que nas fotos do João Pinto com a taça na mão, eu sou o único que apareço em tronco nu.

Em relação ao senhor João Rocha, só posso dizer que era um senhor internacional.

Como?

Quando fomos naquela digressão à China e a Macau [Julho de 1978], queríamos dinheiro para fazer compras e o presidente disse-nos que nos arranjava à noite. Dito e feito. À hora do jantar, aparece ele e distribui umas patacas a cada um. Ficámos todos os jogadores a olhar uns para os outros e a pensar como é que ele conseguia arranjar dinheiro em Macau, do dia para a noite? Como é possível? Depois, há outro pormenor. Acho que o Sporting foi o segundo clube português a ir à China, depois do Vitória de Setúbal, acho eu, e foi importante para alimentar uma relação diplomática inexistente entre Portugal e China.

Essa viagem à China traz água no bico…

[gargalhadas] No dia seguinte à finalíssima com o FC Porto, ganha por nós [2-1], fomos para a China. Na nossa comitiva, ia o Mário Luís, o árbitro da finalíssima, conhecido a partir daí como o Mário chinês. Foi uma coincidência.

Não há um clássico em que o Artur e o Rodolfo são expulsos aos 11 minutos?

Chiiiii, foi em Alvalade. Ainda hoje o Rodolfo conta-me essa história. O Rodolfo saiu primeiro de campo e só depois o Artur, o ruço. O Rodolfo estava à espera dele no túnel, porque queria continuar o espectáculo [risos]. A dez metros do túnel, o Artur estica a mão e diz-lhe ‘e pá, somos uns burros’. O Rodolfo sai do esconderijo e saem os dois abraçados um ao outro, quando a ideia não era essa. [gargalhadas].

Fonte: Jornal i

Data: 07/01/2012
Local: Jornal i
Evento: Entrevista a Inácio

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