RUGIDO VERDE

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Terça-feira, Fevereiro 03, 2026

A brilhante carreira de Manuel Marques “Manecas” – Parte 2

Por Pitta Castelejo

Sucedem-se os títulos de campeão

A história do lenço branco

O desgosto sofrido com a perda da final, foi compensado na temporada seguinte, isto é, em 1937-38, com a conquista dos campeonatos de Lisboa e de Portugal. Começava a carreira brilhante do atleta leonino a ter mais luzimento. Comprovada de forma evidente a sua valia, o público sempre justo para os elementos que se impõem, consagrou-o de forma definitiva. Manecas, sorridente, bom rapaz, começou a ser saudado de maneira particularmente efusiva e apontado como um dos bons jogadores, como uma certeza do futebol português. Quando inquiriam, qual deles seria o Manecas, a resposta era invariavelmente a seguinte: É aquele que trás um lenço branco preso à cintura.

Já que falámos do lenço, convém saber as causas do seu aparecimento.

A mãe de Manuel Marques, uma bondosa e santa senhora, extremosa pelo filho, prevendo os acidentes naturais do futebol, aquelas «carícias» costumadas dos adversários nos joelhos ou canelas, e, ainda, um «encosto» mais forte, daqueles que fazem estatelar, teve a peregrina lembrança, – não fosse ela mãe, e mãe há só uma, lá diz a canção, – de lhe oferecer no início de cada época um lenço branco com dois “M” bordados a verde, para que limpasse o sangue da ferida, se para tal houvesse lugar. Manecas, comovido aceitou o primeiro lenço, o segundo, o terceiro e todos os demais, conforme se iam sucedendo os campeonatos anuais. Mas, nunca os utilizou para o fim pretendido. Foi guardando religiosamente essa prova de ternura daquela que lhe deu o ser e, enquanto viver, ao contemplá-los, evocará um rosário de lembranças, daqueles que não se esfumam, mas perduram indelevelmente!

Frente a turmas estrangeiras, continuou a ser o mesmo «leão» de uma só fé, de antes quebrar do que torcer.

Em 1938-1939, não correram as coisas com vento de feição. A equipa carburou de forma irregular e não conseguiu mais do que o Campeonato de Lisboa. Os triunfos e os desaires alternaram-se.

No começa do ano que se seguiu, durante os treinos, cedo se verificou que haveria modificações na constituição das equipas. Relegado para as reservas, em boa companhia, diga-se desde já, pois Canário, Soeiro, Álvaro Cardoso, João Cruz e outros também o acompanharam, venceu com merecimento o campeonato de Lisboa nesta categoria, enquanto a principal se quedou em branco até ao fim, porque não chamou a si qualquer título.

FRANÇA B, 4 – PORTUGAL B, 2 – A turma portuguesa que defrontou os franceses no Estádio de Bordéus. Da esquerda para a direita: Barrosa, Pacheco, Júlio, Lourenço (Porto), Jacinto, Caiado, Albano, Bravo, Barrigana, Manuel Marques e Canário

A consagração oficial: A primeira internacionalização

Uma temporada áurea do Sporting foi, sem dúvida a de 1940-1941. Arrebatou com brilho os três campeonatos que se efectuaram: Lisboa, Nacional e Taça de Portugal. Manecas juntava aos galardões já conquistados, mais três. Grande proeza, enorme alegria! Recordação que não se olvida, tão grata e bela é!

Mais um campeonato, o de Lisboa, em 1941-42, confirmado na época de 1942-43. Depois dos lugares de médio e defesa do lado esquerdo, além de outros em que episodicamente actuou durante estes anos de actividade, passou a jogar a defesa central, por feliz indicação do distinto desportista, sr. Francisco Silva, ao tempo director do Sporting. Debutou no novo posto, em desafio contra a C. U. F., tendo ganho por 6-2. Ainda, mercê do seu donaire no centro do terreno e comprovado valor, que se robustecera de forma notória, teve a honra de ser escolhido para a Selecção dos Novos.

Na temporada de 1943-1944, teve altos e baixos de forma, como é natural a todos os atletas, mas conquistou mais um título: o de Campeão Nacional.

Finalmente em 1944-1945, viu realizada a mais legítima aspiração de todos os praticantes desportivos: ser internacional.

Vestiu pela primeira vez a camisola das «quinas» no dia 11 de Março de 1945, defrontando a Espanha, no 17.º desafio. O empate de 2-2 é injusto para os portugueses que se creditaram de boa exibição. Teve por companheiros Azevedo, Cardoso, Barrosa, Xico Ferreira, Serafim, Espírito Santo, Quaresma, Peyroteo (que meteu os dois golos), Cabrita e Rafael.

Em 21 de Maio do mesmo ano, voltou a ser «internacional» contra a Suiça, em Basileia. Jogo mal perdido, por 1-0, porquanto os nossos rapazes dominaram insistentemente e foram tecnicamente superiores. A sua inclusão verificou-se após o recomeço da segunda parte, por Feliciano se ter lesionado.

Para coroar esta bela temporada, averbou, ainda, os títulos de Campeão de Lisboa, vencedor da Taça de Portugal e triunfador da Taça Império, instituída para assinalar a inauguração do Estádio Nacional.

SPORTING-ATLÉTICO DE MADRID – A tradicional troca de lembranças entre os dois «capitães»: Manuel Marques e Riera. Os «leões», triunfaram por 6-3.

Uma carreira recheada de triunfos

Em 1945-1946, venceu de novo, a Taça de Portugal e deslocou-se à Suiça e Espanha, como suplente da Selecção Nacional. Na época seguinte ganhou os campeonatos de Lisboa e Nacional, foi suplente da equipa nacional que derrotou a Espanha por 4-1 e bateu, em prélio magnífico, a famosa turma do Clube de Regatas «Vasco da Gama».

A temporada de 1947-1948 foi a todos os títulos brilhante. Venceu a «Taça de Honra, da A. F. L. que substituiu o Campeonato de Lisboa, o Campeonato Nacional e a Taça de Portugal! Capitaneando a equipa leonina, derrotou em Madrid, o Atlético local, por 6-3, num jogo inesquecível! Ao intervalo já o marcador estava em 6-0. A propósito recorda o «trabalhão» que teve para evitar que a equipa fosse fotografada. Os espanhóis não ficaram contentes, mas não conseguiram o seu propósito senão… ao intervalo. Defrontou também o Atlético de Bilbau, no seu campo, tendo que pôr em jogo todos os recursos para «tapar» Zarra, «el furacon». E, para remate, mais uma internacionalização, a terceira, contra a França, em Bordéus, no 1.º encontro entre as seleções B, dos dois países.

Em 1948-1949, triunfou no Campeonato Nacional e disputou, em Espanha, a 1.º Taça Latina. Pôde assim vencer no Estádio Metropolitano, a equipa do Torino por 3-1 e lutar contra o jovem mas estupendo Marcheto, centro dianteiro da turma italiana. Na final, contra o Barcelona, em Chamartin, perdeu ingloriamente. Recorda com amargura aquele tento que Jesus Correia perdeu no último minuto e que forçaria a prolongamento.

Volvidos tantos anos, ainda hoje não se conforma, com tão flagrante falta de sorte, o popular Manecas.

Capitão da equipa B de Portugal que defrontou a equipa espanhola B, na Corunha, em 20 de Março de 1949, atingiu a quarta internacionalização. Perdeu o jogo muito mal, conforme o declarou à imprensa do país vizinho, Derrotou as turmas famosas do Lille por 8-2, do Norkoeping por 8-2, do AIK por 4-1 e do Anderlecht pelo mesmo resultado, entre outras, Deslocou-se ao estrangeiro e acompanhou o Sporting à Suécia, nação de sonho e de encantamento.

Aí perdeu desafios que deveria normalmente ter ganho e venceu outros que merecia ter perdido. Mas o futebol é assim mesmo. Ao fim e ao cabo, só se ganham encontros marcando golos!

Em 26 de Janeiro de 1947, Portugal bateu a Espanha, por 4-1. Sentados Junto da linha lateral, dr. Tavares da Silva, (seleccionador único), Luis Adão (professor de educação física), Augusto Silva (treinador), Manuel Marques e Albano (suplentes), seguem atentamente o desenrolar do encontro.

A última temporada: 1949/1950

Nesta temporada, venceu a «Taça de Honra» da A. F. L. e também, em desafio amigável, a turma alemã do Hamburger SV. Deslocou-se à Madeira e extasiou-se na contemplação daquela maravilhosa parcela de território pátrio. Continuou a jogar com o mesmo entusiasmo, até que em 18 de Junho deste ano, considerou terminada a sua vida de jogador após o encontro contra o Sporting Club de Abrantes, filial leonina.

Um jogador com responsabilidades tem o direito e o dever de, ceder o lugar aos novos antes que seja tarde, antes que sejam os sócios e adeptos do clube a exigirem-no, Não quero dizer com isto que me considere velho, por ter 33 anos, ou que me sinta incapaz de continuar a jogar por falta de recursos, não. Entendo, porém, que 18 anos de actividade, sempre no mesmo clube, já é bastante. Tenho direito a sair de pé e de bem com a minha consciência, – declarou com certa emoção, Manuel Marques.

A sua folha de serviços é brilhantíssima e digna de registo. Disputou 599 desafios, sendo em 1ªs categorias 468; em reservas 54; 2ªs categorias 16; 3ªs categorias 2; Infantis 5; internacionais 4; inter-regionais 4 e particulares 46. Foi campeão por 21 vezes sendo: de Lisboa em 2ªs categorias 1; em reservas 1; em 1ªs, 7; da Taça de Honra 2; da Taça de Portugal, 4; Campeão de Portugal, 1; Campeão Nacional, 5; vencedor da Taça Império e suplente por 9 vezes à Selecção Nacional.

O adeus de Manecas por intermédio da «Stadium»

Manecas, confessa que deve tudo ao futebol e que nesta hora da abalada, por intermédio da Stadium, se despede de todos os seus amigos e admiradores, expressando-lhes a maior gratidão. Que não esquecerá jamais o bom público, – a alavanca impulsionadora do desporto, – a quem deve inúmeras atenções e constantes incitamentos pelo que do coração lhe agradece; à Imprensa e à Rádio pelo carinho e consideração dispensados; à Direcção Geral dos Desportos, Associações, Federações e Clubes, pela forma gentil como sempre o acolheram; ao Sporting Clube de Portugal, o único clube que representou, a mais sentida saudade e reconhecimento tanto à Direcção actual como às outras que a antecederam e com quem serviu; um muito obrigado, sincero a toda a família leonina; e aos jogadores leoninos um apertado abraço, extensivo a todos os camaradas de luta espalhados pelo Império Português! Por último pede a todos lhe relevem qualquer má palavra ou gesto impensado.

Esta, a traços largos, a magnífica carreia do jogador sportinguista que no dia 5 abandonará o futebol! Stadium, vaticina-lhe os maiores êxitos e venturas na sua vida particular.

Data: 04/10/1950
Local: Revista Stadium

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