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Terça-feira, Junho 22, 2021

VMOC’s e Outras Histórias

Vamos recuar às célebres Assembleias Gerais de 2009 em que umas centenas de sócios aprovaram o plano financeiro de José Eduardo Bettencourt, apresentado como a tábua de salvação de uma SAD em bancarrota, fruto de uma gestão incompetente e que, pasmem-se agora, mesmo com participação frequente na liga dos campeões e aposta visivel na formação não evitou.

Houve polêmica, houve discussão mas nada que uns Órgãos Sociais que incluíam Dias Ferreira na MAG e José Maria Ricciardi no Conselho Fiscal não resolvessem. Assim, os “esclarecidos” sócios entre outras coisas votaram a autorização, a possibilidade, de emitir VMOC’s,  acrónimo de “Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis”. Mas convertíveis em quê perguntam os leitores. Convertíveis em acções da Sporting SAD.

Ora, se podiam ser convertíveis em acções e perante a conversão a participação do clube ficava reduzida, isto configura uma “alienação ou oneração de participações sociais do clube” e como tal necessitava de uma maioria qualificada de ⅔ para ser aprovada. Com os gênios da gestão, nada disso foi necessário, pois já estava, já estava e era isso ou a insolvência.

Em 2011 concretizou-se a emissão de 55M de VMOC’s com vencimento em 2016, ou seja, o ano em que pela conversão o clube perderia o controlo da SAD. José Eduardo Bettencourt demite-se de imediato pois o plano estava concluído e era perfeito. Ninguém contava com a entrada em cena de uma nova Administração em 2013 que estragou tudo aquilo que cuidadosamente foi sendo trabalhado.

Chegamos a Março de 2013 com um buraco financeiro de 90M cavado pela gestão de Godinho Lopes e com o prazo de conversão dos 55M cada vez mais próximo. a nova Administração consegue o impossível, negoceia uma nova emissão de VMO’Cs, 80M com vencimento para 2026 e resolve o buraco deixado por Godinho, mas não esquece de incluir nas negociações o direito de opção na data de conversão, e não se fica por aqui, inclui na negociação uma extensão do prazo das VMOC’s emitidas em 2011 cujo vencimento é também fixado para 2026.

Existiam agora 135M em VMOC’s com vencimento apenas em 2026 e com direito de opção na conversão da maior parte, já poderia respirar fundo a Direcção eleitas meses antes e planear a estratégia futura para resolver este problema.

Não demorou muito para trabalharem e apresentarem uma solução. Graças à credibilidade e competência que granjearam juntos dos credores, em 2017/2018 é apresentada uma fantástica solução, já negociada com os credores e que inclui opção pela totalidade dos 135M de VMOC’s pelo preço máximo de cerca 40M e sobretudo inclui o resgate da totalidade da dívida bancária do clube e da sua SAD com um elevado desconto.

Assim e de uma assentada, o clube e a SAD viam a sua exposição bancária que totalizava cerca de 285M em condições de ser regularizada por um valor máximo de 150M. Estamos a falar num desconto, num ganho potencial de cerca 135M. Como é óbvio, isso incomodou muita gente, os rivais como é evidente, a Holdimo que via a sua participação enormemente reduzida, os invejosos do costume e profetas da desgraça e aqueles com quem não se contava, muitos Sportinguistas que rapidamente trataram da saúde dos obreiros deste magnífico plano de reestruturação financeira do clube e da SAD destituindo-os primeiro e expusando-os depois.

Rasgada esta negociação, a Administração Varandas/Zenha negocia uma nova reestruturação em que mantém e bem a opção pela totalidade e a fixação do preço nos 40M e reduz uma décimas nas obrigações contratuais de liquidação e amortização da dívida.

Fica “esquecida” nesta “nova” negociação uma das partes mais importantes, a dívida bancária do clube e da SAD e é isso que nos leva para a notícia de ontem, que os bancos credores procuram um comprador para a dívida total do clube e da SAD incluindo como é óbvio, as VMO’Cs.

A Direcção “esqueceu” mas os bancos não esqueceram e procuram concretizar aquilo que já tinham acordado com a direcção anterior, libertarem-se da dívida, que até já provisionaram e tudo o que conseguirem é “lucro”.

Só podemos concluir que, por não encontrarem no clube um parceiro, uma estratégia capaz e credível encarregaram a Rothchild da tarefa de encontrar um parceiro/investidor interessado e caso concretizem a venda, o elevado desconto já não beneficia o clube mas sim o novo credor.

Tenho assistido a uma preocupação crescente com a situação das VMOC’s, preocupação sem dúvida legítima quando vemos uma administração em quem os credores não confiam para reestruturar, quando percebemos que são incapazes de apresentar soluções financeiras para resolver os problemas, quando vemos que apesar das enormes vendas que já realizaram a conta restrita imposta pelos credores apresenta apenas um saldo de 623 mil euros, o que é de facto muito pouco.

É verdade, caso a venda dos créditos aconteça as condições que existem actualmente, opção de compra, prazo de vencimento e valor fixo terão de ser respeitadas pelo novo credor, mas as obrigações contratuais também se mantém e veremos se o novo credor é tão paciente e permissivo nos incumprimentos como por exemplo na falta de reforço da conta restrita.

Mas o mais preocupante, para mim, será a restante dívida do clube e da SAD, dívida que está confrontada com garantias que em caso de incumprimento poderão ser de imediato executadas em pouco tempo e sem mexer nas VMOC’s, sem qualquer consulta aos sócios, o clube poderá perder toda a participação que detém na SAD, pois as acções estão dadas como penhor, como garantia, das dívidas bancárias, dívida que agora poderá mudar de dono.

No limite, nem custa imaginar, que um rival possa comprar as dívidas e certamente será paciente com eventuais incumprimentos das amortizações e pagamento de juros. Gostava de colocar aqui um sorriso mas não consigo pois a situação pode tornar-se muito grave e irreversível e pouco ou nada poderão os sócios fazer.

Não estamos preocupados, pois não? Acreditamos tanto ou mais que os credores na capacidade e credibilidade na  actual Direcção para encontrar soluções e evitar incumprimentos não acreditamos?

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1 Comentário
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Rui Barbosa

A preocupação é ciclopica.