RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quinta-feira, Maio 28, 2020

Atitude de Leão

Kobe Bryant é uma lenda do basquetebol cuja carreira está prestes a ser consagrada com a sua entrada no Hall of Fame do seu desporto de eleição. O seu trágico desaparecimento no final de Janeiro deste ano deixou o mundo do desporto sensibilizado e consternado, não só pela sua personalidade e pelo seu impacto no desporto em geral, mas também pelas circunstâncias do mesmo.

O percurso de Bryant no campeonato de basquetebol mais importante do mundo não foi um mar de rosas, como seria de esperar num meio tão competitivo como a NBA. Desde ser um rookie directamente vindo do liceu, ao contrário da maior parte dos jogadores que são oriundos dos campeonatos universitários, a ter que conviver com um plantel naturalmente desconfiado do novato nos instantes iniciais, sem esquecermos a atribulada relação com a estrela maior – Shaquille O’Neal – os primórdios da sua carreira foram tudo… Menos pacíficos.

Mas todos os obstáculos, alguns naturais e outros tantos provocados pelo obstinado jovem de Philadelphia, foram sendo ultrapassados diariamente numa luta constante, abnegada, seguindo o exemplo do seu ídolo. Esforço, Dedicação e Devoção foram sem dúvida princípios de que ele nunca abdicou no caminho que se pretendia de Glória.

Não demorou muito tempo a provar o sucesso… All-Star, vencedor do Dunk Contest e, finalmente, campeão da NBA, sendo peça absolutamente fundamental para Shaquille O’Neal vencer finalmente um anel enquanto no auge das suas capacidades. Mas Kobe nunca ficaria satisfeito apenas com esse sucesso momentâneo. Não são difíceis de encontrar os relatos de surpresa por parte do staff dos Los Angeles Lakers ao verem a sua mais jovem estrela a retomar os treinos pouco tempo depois dos festejos.

Com um jogador super-dominante como Shaq os Lakers já eram temíveis, com o jovem Kobe a afirmar-se cada vez mais como uma estrela em paralelo ao gigante… Eram imparáveis. Seguiu-se um 2º anel de campeão. E um 3º. Three-peat para os LA Lakers, um feito só alcançado pelos Boston Celtics da década de 60 e pelos Chicago Bulls (duas vezes) na década de 90.

No entanto, os problemas de comunicação e empatia entre os dois Alfas da equipa levaram a um ponto de ruptura irremediável dentro da organização, que optou por trocar Shaquille O’Neal de forma a conseguir manter a sua estrela mais jovem e com mais anos de carreira pela frente.

Kobe Bryant ficou muito mal visto até pelos próprios adeptos dos Lakers, já para não mencionar a sempre meiga imprensa norte-americana, pois Shaq sempre gozou de uma popularidade imensa devido ao seu estilo bem-humorado e extrovertido. Kobe sempre foi tudo menos isso, focado sempre em melhorar o seu jogo com um misto de reclusão e anti-sociabilidade que não caíam bem nas opiniões das massas.

Só que Kobe Bryant não era um jogador qualquer, uma vedeta qualquer, um homem qualquer. Já era uma lenda desde que começara, só ainda não tinha tido o verdadeiro reconhecimento. Seguiram-se épocas completamente desastrosas para o franchise de Los Angeles em termos de desempenho colectivo… mas com performances simplesmente fantásticas do agora “camisola nº 24”. O Black Mamba nunca defraudou o seu empenho, a sua atitude e o seu compromisso, mesmo sabendo que não teria hipótese de lutar por nada com um elenco tão fraco no seu plantel.

Mas um dia surgiu a oportunidade para a qual ele batalhava diariamente desde a saída de Shaquille O’Neal. Os LA Lakers adquiriram Pau Gasol, brilhante jogador espanhol e que faria uma dupla sensacional com Kobe nas épocas seguintes.

O jogo de Kobe elevou-se, assim como o seu estatuto. Não foi algo instantâneo, pois na primeira ida às finais deste novo ciclo, a sorte acabou por sorrir aos Boston Celtics – recheados de super-estrelas, naquela que foi a primeira super-equipa do século XXI e pioneira do que tem sido uma tendência mais recente da NBA… Quando não consegues ganhar por ti… Junta-te aos outros que podem. Algo a que Bryant sempre foi, e bem (digo eu!), avesso. Só contribuiu ainda mais para o seu estatuto de lenda, que se cimentou definitivamente nas duas épocas seguintes – 2 anéis de campeão e 2 Finals MVP, emancipando-o em fim da sombra de Shaquille O’Neal, e provando que também conseguia vencer sem ele, ultrapassando-o inclusive no número de campeonatos conquistados.

Os seus últimos anos de carreira foram recheados de lesões e outros problemas físicos que o debilitaram e o impediram de ser consistente, numa liga cujas equipas principais seriam os Miami Heat (super-equipa…) e os Golden State Warriors (super-equipa depois da adição absurda que foi Kevin Durant). Contudo, Kobe Bryant nunca quis deixar de ser fiel à sua conduta e aos valores que o guiaram durante toda a carreira. O seu esforço nunca diminuiu, a sua atitude nunca fraquejou. Mesmo não tendo hipóteses de alcançar a Glória, nunca poderia faltar o Esforço, Dedicação e Devoção que o caracterizavam – porque essa era a sua matriz, a sua essência.

Ainda ofereceu aos aficionados do basquetebol mais umas quantas exibições vintage sempre que o seu corpo o permitiu. E deu-nos também a melhor prestação de sempre numa partida de encerramento da carreira, e que dificilmente será igualada ou superada – 60 pontos que ficarão para sempre na História.

Kobe Bryant nasceu a 23 de Agosto de 1978, 1 dia depois do signo do Leão. Mas como muitos outros exemplos do desporto e da vida, não precisou dessa particularidade do zodíaco para ser um durante toda a sua passagem. A sua atitude indomável, imperturbável, implacável, simbolizou-o e simboliza-o como um Rei na Selva que é o planeta Terra.

Uma organização como o Sporting Clube de Portugal, com o lema que tem, com o apoio que tem, com os inimigos que tem… faria muito bem em aprender com o exemplo e competência de Kobe Bryant, ao invés de idolatrar figurinhas menores como ex-jogadores mais assemelhados a ratos que a leões; ao invés de orbitar na esfera de agentes que nada têm de leões mas muito de parasitas, cuja única preocupação é a “fatia de leão” que lhes calha; ao invés de destituir leões e dar vida tranquila a gatinhos que se pensam feras… mas que qualquer cão, serpente ou gorila devora sem problemas na selva onde estão inseridos. E que até as ratazanas comem estes gatos.

Este artigo foi escrito por Valentino de Carvalho

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1 Comentário
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HULK VERDE

Muito bom artigo sobre (um) desporto, (um dos) desportistas e (uma das) equipas/clubes. Não sendo o maior fã de Kobe Bryant (talvez por esse feitio peculiar que tinha, como foi referido, que até aos adeptos dos LA Lakers desagradou, e também por não ser das equipas que mais gosto), foi porém um jogador de muito valor, entre todos os que foram citados e ajudaram a compor e enriquecer o artigo.
Parabéns e obrigado por reavivar a memória e o espírito do que há de mais essencial no desporto.

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