RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Segunda-feira, Dezembro 09, 2019

Querido Sporting,

Bem, parece que voltámos ao mesmo. Durante uns tempos pensei que não fosse preciso voltar a ter esta conversa, mas aqui estamos mais uma vez. Sabes que não gosto disto, sabes que não o faço com gosto, nem faço questão de ter razão… Mas eu avisei-te. Eu disse-te que era a isto que ias voltar. Eu tentei tudo para que não voltássemos a isto.

E agora? Agora é suposto fazer o quê? Começar do zero outra vez? Sabes que começo a ter dúvidas quanto a esta relação. Não sei se isto não será sadomasoquista. Começo a ter dúvidas sobre a tua verdadeira natureza, se alguma vez realmente mudaste ou se foi só uma farsa para me iludir e brincar um bocado comigo. Começo a ter dúvidas sobre se vale a pena tentar ajudar-te outra vez, se faz sentido acreditar que há mais para além disto ou se vamos dar por nós a ter esta conversa constantemente.

Tens de compreender que se torna difícil para alguém que só quer o teu bem, ver-te a voltar aos velhos hábitos, a voltar às más companhias, aos valores com que sabes, perfeitamente, que não me identifico. Eu sei que sempre estive ao teu lado nos maus momentos, mas há maus momentos e maus momentos, e tu sabes.

Sempre estive ao teu lado quando a sorte não te sorriu. Mesmo com lágrimas, apoiei-te quando precisaste, em todas as tuas vertentes. Quando merecias mais do que te deram, ou quando te privaram mesmo das conquistas que eram tuas por direito, eu estive contigo, não estive? Porra, tu estiveste para acabar, Sporting, e eu não te abandonei. Sou incapaz de pôr algum interesse meu à tua frente. Por isso, diz-me, o que é que posso fazer mais por ti?

Não me venhas com a história do apoio incondicional. Tu agora não precisas de apoio, tu precisas é de uma limpeza. Eu nunca consegui torcer contra ti, mas apoiar-te incondicionalmente, actualmente, nem te faz bem. Tens de ser chamado à razão. Estás a deixar-te ser guiado, novamente, por pessoas que só te querem por interesse. Nem tu te deves sentir bem contigo próprio, Sporting – tu não és isto!… Ou és? Quero acreditar que não, mas os tempos conturbados que vivemos deixam-me na dúvida.

Quero acreditar que não és isto, na tua essência, porque não foi por isto que me apaixonei. O Sporting que me foi transmitido foi um Sporting ambicioso, voraz e exigente. Apaixonei-me por tudo, desde as riscas verdes e brancas ao calção preto. Devorei leituras sobre ti, ouvi todas as histórias que podia sobre as tuas glórias e acompanho-te apaixonadamente desde que me lembro.

É engraçado, sabes? Quando era mais novo ainda dizia que não era “doente”, acho que estava em negação. Agora, sinto-me em negação outra vez, mas por começar a pairar na minha memória o cenário de não teres salvação. Sinto que estou a negar que sei que sou impotente perante isto. Sinto-me humilhado, não por o meu coração te pertencer, mas por deixares que se apoderem de ti novamente. Não sei se estou disposto a fazer o meu coração passar por isto outra vez, para ver a minha cara a ser gozada por uma sociedade vil, enganosa e corrupta. Foste parar ao buraco de onde foste retirado com amor, com devoção por uma causa em que eu e outros acreditamos e, sinceramente, não sei mesmo que te diga mais.

Pois é, Sporting. Não é fácil. Eu amo-te, mas a que custo?

Teu, do início ao fim.

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Bom texto. Um dilema inquietante e injusto neste momento para quem realmente ama o Sporting.

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Infelizmente tudo isto é verdade.
Parabéns pelo texto certeiro.

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