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Quarta-feira, Outubro 16, 2019

Izmailov acusa Sporting

Izmailov: «Graças a pessoas do Sporting, agora não posso jogar»

Em Munique, capital da Baviera, Marat Izmailov converteu as palavras em tinta para pintar o auto-retrato que ontem foi difundido na forma de entrevista pelo “Soviet Sport”. O que sobressai é a imagem de um homem amargurado com a persistência do problema no joelho direito que espera reparar com a nova intervenção cirúrgica, triste por não poder contribuir com o seu quinhão nas lutas de um grupo “excelente” que diz respeitar e com o qual gosta de trabalhar, e desiludido e magoado com “algumas pessoas do Sporting” em quem, reafirma sem rodeios, “há muito” deixou de confiar. “Graças a elas, agora não posso jogar”, lamenta em declarações ao jornalista russo Maksim Liapin.

Izmailov garante que a decisão de se submeter a outra intervenção cirúrgica correctiva não resulta da opinião do médico do Sporting, mas sim das conclusões a que ele mesmo chegou depois de falar com o especialista alemão Ludwig Seebauer.

“O que aconteceu foi que, depois da consulta, tomei uma decisão. Sabe, há muito que deixei de confiar nalgumas pessoas do Sporting. Graças a elas, agora não posso jogar”, acusa o médio-ofensivo. À pergunta se se refere ao departamento médico ou à Direcção do clube, reage nestes termos: “Os médicos são tão engraçados que nem me apetece falar deles. A Direcção… não sabe cumprir a palavra. O presidente do Sporting [José Eduardo Bettencourt] ainda há um ano me prometeu melhorar as condições do meu contrato, mas depois esqueceu-se das suas palavras e até agora ainda não as conseguiu recordar.”

A operação agendada para Munique foi anunciada há cerca de dois meses pelo clube leonino. Então… porque demorou tanto tempo a realizar-se, retardando a normal incorporação no plantel de Paulo Sérgio? Izmailov apresenta as suas razões: “Pouca gente sabe que, em Julho, fiz uma operação ao joelho direito. Foi uma cirurgia plástica. No início da pré-época, o nosso médico deu-me uma injecção, e depois a pele à volta do meu joelho inflamou. Por isso tivemos de fazer uma operação plástica. Infelizmente, não podia fazer duas operações ao mesmo tempo, na pele e no ligamento rotuliano. Era preciso esperar que a inflamação passasse. Logo que isso aconteceu, fui a Munique para ser observado por Seebauer. Foi ele que me operou há um ano e, como tal, achei que seria lógico o mesmo especialista operar-me novamente. É um grande profissional e confio nele totalmente.”

“Multaram-me em 30 mil euros como se eu pudesse jogar…”

Implacável no desfiar de factos, Izma recorda que “as pessoas que agora diziam” que tinha de ser operado “são as mesmas” que o penalizaram na última temporada. E decompõe o seu ponto de vista: “Essas mesmas pessoas multaram-me em 30 mil euros por na época passada não ter participado num jogo da Liga Europa contra o Atlético de Madrid. Como se eu pudesse jogar, mas não quisesse… Nunca me tinha confrontado com uma contradição tão cruel na minha vida. Como foi calculada a multa? Para mim, também é um mistério de onde vem esse valor. A maior multa da minha vida reportava ao tempo em que estava no Lokomotiv. Um dia cheguei atrasado ao treino e paguei perto de 100 euros. E foi tudo. Claro que contestarei esta decisão em tribunal, porque as acusações do Sporting não são verdadeiras.”

Marat Izmailov – 25.02.2010 – Sporting Portugal / Everton – 16eme de Finale Europa League 2009/2010 , (Photo: Carlos Rodrigues / Icon Sport via Getty Images)

“O que é que Costinha faz no clube?”

A forma e o tom como Costinha pôs em xeque na praça pública o profissionalismo de Marat Izmailov – um predicado que, mais tarde, seria defendido e ratificado por vários colegas de equipa que não fugiram à questão colocada pelos jornalistas – foi uma pancada muito forte no orgulho e na auto-estima do jogador. Porque não houve retractação, desde Março que o relacionamento com o director para o futebol do Sporting parece condenado à inexistência – apelidá-lo de icebergue é… ser simpático. É certo que já podiam estar em coordenadas diferentes, conforme assume e explica o russo, que encontra relação entre o surgimento dos seus problemas em Alvalade e a entrada em funções do (agora) dirigente.

“Costinha prometeu-me que, logo que surgisse uma proposta de outro clube, o Sporting não me cortaria as pernas. Mas quando fui ter com ele com propostas sérias, respondeu-me com uma recusa. Isto é só um exemplo. Perdi a confiança nessas pessoas. Se tentei transmitir as pretensões a mais alguém? O que é que dá? Eles ou ignoram, ou a cada dia passam para outro dia, ou empurram a questão uns para os outros”, desabafa o jogador, questionando com laivos de ironia e mordacidade o que é que o director para o futebol faz exactamente no clube. “Pergunte ao Costinha de onde surgiu a acusação de que eu simulei a lesão no joelho… Começo a tentar convencer-me de que, sobre isto, ele não sabe de nada, de que a acusação não foi elaborada por ele e de que não sabe nada de nada. Perguntei-lhe o que fazer com o meu joelho, qual o melhor tratamento para o meu joelho, e ele passou a questão para o médico, dizendo que sobre isso não entende. E quando o questionei sobre a minha transferência do clube, respondeu-me que no Sporting quem decide é o presidente e que ele nada podia fazer relativamente à minha situação. Perante tudo isto, questiono: se esta pessoa não sabe nada e não entende nada, o que é que faz no clube?”

O jornalista que assina a entrevista para o “Soviet Sport” recorda a história do dia em que Costinha se recusou a treinar no Dínamo por causa das botas que não estavam limpas e pega nela para perguntar a Izmailov se o homem-forte do futebol do Sporting terá “aversão” ao que é russo. O camisola sete defende-se, olhando em frente. “Aversão? Não sei. Acho que essa questão deve ser colocada ao próprio Costinha. O meu contrato com o Sporting tem mais três anos, e por isso vou trabalhar da melhor forma, como antes. Temos um excelente grupo de trabalho. Gosto de todos os jogadores e respeito-os. Considero ter muita sorte em estar na companhia deles.”


“O público deve saber o que se passa”

Sem medo das palavras e das eventuais consequências da entrevista concedida ao correspondente do “Soviet Sport” em Munique, Izmailov continua fiel à máxima pessoal de que não se deve – nem pode – fugir da verdade. É por isso que não silencia a inquietação que lhe vai consumindo a alma. “Visto pelo lado das outras pessoas, do público em geral, as minhas divergências com o Sporting parecem misteriosas. Então porque é que as pessoas não deverão saber o que se passa na realidade? Sobre as consequências, não sei, não sou capaz de adivinhar”, atira o russo.

Marat explicita o seu estado de espírito e as motivações que o levam a não recear os problemas que podem surgir depois de se permitir entrevistar pela Imprensa russa sem para isso ter sido autorizado pelo Sporting. “Mas eu deveria ter medo? As ditaduras na Europa há muito que terminaram. Sou um homem livre, por isso posso falar tranquilamente com quem quero e quando quero. Se no meu contrato existe um ponto que me proíbe de me relacionar com os média, então esse contrato terá sido elaborado de uma forma incorrecta, porque estaria em contradição com a Constituição do país. Mas, além do contrato, também existe um regulamento interno. E foi muito interessante lê-lo…”, anuncia o antigo médio-ofensivo do Lokomotiv, para de seguida entrar em pormenores e justificar o seu desencanto: “Entre outras coisas, esse regulamento diz que se eu regressar a casa depois da meia-noite serei multado; e se sair de Lisboa para além de 100 quilómetros também levo multa. Mas é um facto que existem pontos sobre o relacionamento com a Imprensa. Se assinei esse documento? Claro que não. Na prática, não me relaciono com os jornalistas portugueses, porque não falo, não domino a língua deles. Para ser mais claro, compreendo muito do que dizem, mas para mim ainda é difícil construir uma frase.”

“Três meses de paragem? Quem disse?”

Quando se lhe fala numa paragem de três meses, Izmailov contrapõe com um pedido de esclarecimento: “De onde surgiu essa informação? O próprio médico do Sporting nunca se referiu a prazos…” O período de inactividade mínimo foi estimado pelo departamento médico leonino numa comunicação feita no sítio oficial do clube e remetida à CMVM. Informado, Marat riposta: “Penso que será somente uma previsão. Só podemos ter certezas depois da operação. Até pode ser que seja necessário muito menos tempo para recuperar. O meu objectivo é reabilitar-me e readquirir a minha forma. E pode ser que aproveite para estudar a língua portuguesa… ou então a inglesa, na verdade ainda não decidi.” O mais importante, salienta, “é não baixar os braços e estar seguro de que esta fase será ultrapassada”. Este é um toque optimista de Izma, que mantém longe da ideia a possibilidade de retornar à Rússia a curto ou médio prazo: “Não, porque ainda não consegui mostrar o meu melhor na Europa.”

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