RUGIDO VERDE

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Quinta-feira, Agosto 22, 2019

Entrevista a Jordão em 1980

Tem-nos faltado alguma «ronha» em certos momentos capitais

Rui Manuel Trindade Jordão. 28 Anos. Feitos em Agosto. Cidadão angolano nascido em Benguela mas naturalizado português. Profissional de futebol há dez anos. Seu primeiro clube em Portugal, o Benfica, onde jogou durante cinco épocas. Depois aventurou-se uma temporada no futebol espanhol, onde envergou a camisola do Saragoça. Terminado este período, aconteceu o regresso ao futebol português, ingressando no Sporting. Clube que representa há quatro épocas, terminando em 1981 o seu contrato, mas segundo se consta, tudo está de acordo para a renovação de mais um, por um período parece-nos de três anos.

Jordão foi sem dúvida um dos grandes da equipa de Alvalade na conquista do Nacional, do último ano, situação que já não era vivida pelos apaniguados sportinguistas há cinco épocas. Máximo goleador da equipa e do campeonato, com os seus 31 golos, o excelente goleador «leonino» venceu, igualmente, a «bola de prata» troféu instituído pelo nosso camarada «A Bola», facto que aconteceu pela segunda vez, pois, já na época de 75/76, com o «Jersey» do Benfica, o havia conquistado, dessa feita com menos um golo.

Jogador de créditos firmados devido à sua forma felina de jogar e de se entregar à luta, goleador emérito, capaz de obter um golo quando menos se espera, exímio marcador de grandes penalidades Jordão é, sem dúvida um das grandes vedetas do futebol português e europeu. Aliás, as suas capacidades ficaram recentemente bem patenteadas, nos encontros internacionais em que a selecção portuguesa participou.

Em Itália, todo o seu oportunismo e engodo pela baliza ficaram bem demonstrados com a obtenção do único tento de Portugal. Em Glasgow, frente à Escócia, numa missão de sacrifício e nada ao jeito das suas características, Jordão foi igual a si próprio e mobilizou a defensiva contrária.

Cumpridas que foram nove jornadas do campeonato nacional o jornalista foi à procura do camisola 11 de Alvalade, para com ele trocar uma série de opiniões, de algum modo pertinentes. Os temas que escolhemos foram devidamente escalpelizados e assim pudemos recolher as impressões de um dos maiores intérpretes do futebol nacional. Da forma do jogador até à selecção nacional, passando pelas arbitragens e pelo Sporting na corrida para o título de tudo isso se falou. E, aí, Jordão esteve como se de um encontro se tratasse: igual a si próprio, ou seja, sem rodeios, respondendo a todas as questões de forma objectiva.

«Se já me encontro numa boa forma? Penso que sim – começaria por nos afirmar o futebolista – mas ainda não estou no meu normal. Na época passada, nesta mesma altura, a minha forma estava muito mais apurada. O campeonato deste ano não me começou do melhor modo e nos primeiros jogos não consegui grandes exibições, mas nos últimos encontros que realizei, dei indicações de que me aproximo a passos largos do meu melhor».

Ao mesmo tempo que a forma melhora surgem os golos…

Nunca vejo as minhas condições físicas e técnicas pelos golos que obtenho, mas sim pelo que desenvolvo em campo e esse desenvolvimento, sendo positivo ou negativo, nada tem a ver com os golos.

Jordão já foi por duas vezes o melhor marcador do futebol português. Primeiramente em 1975/76, foi o máximo goleador com 30 golos. O ano passado terminou a frente dos demais, com 31. Natural, pois, que o jogador queria voltar a repetir o feito. Posto perante esta interrogação adiantou-nos: – Não tenho a obsessão de querer ser o melhor marcador. Aliás nem nunca pensei nesses termos nos anos em que conquistei a «Bola de Prata». Quando entro em campo é sempre com o objectivo de cumprir em benefício da equipa e parece-me que essa situação foi conseguida na última época. No fundo, consegui aliar o interesse pessoal ao interesse da equipa.

Mas pensa voltar a vencer o troféu?

Como já afirmei isso não será obsessão, mas se surgir a oportunidade de voltar a conquistar o troféu verei esse facto com bons olhos, mas, no fundamental, nunca esquecerei que a equipa está primeiro.

O avançado Sportinguista é sem dúvida um grande goleador. Como já afirmou, primeiro está a equipa, mas o engodo pela baliza é notório. No entanto há quem afirme que Jordão é um grande marcador de golos, porque consegue marcar muitas grandes penalidades.

Jordão: concorda com esta opinião?

Penso que o Sporting, o ano passado, marcou muitos penalties, mas não deixa de ter mérito conseguir marcar um golo desse modo, pois quer queiram quer não trata-se sempre de um golo. No campeonato português, ainda há muita gente que não consegue concretizar uma grande penalidade e por esse facto parece-me meritório o facto de ter concretizado todos os penalties a que fui chamado a marcar. Na realidade, consegui 12 golos de grande penalidade, mas há jogadores que marcam muito menos e nem essas conseguem converter. Portanto, relativamente a penalidade foi muito positiva a última temporada.

O Jordão é um exímio marcador de grandes penalidades e raramente falha a concretização desse castigo. Faz algum treino especial para que assim aconteça?

Raramente falho, mas já falhei. Também lhe posso dizer que não faço treinos especiais. Tudo depende da forma como as faltas são marcadas. Quanto a mim a conversão dos penalties depende de dois factores importantes: sangue frio e não se deixar apossar pelos nervos. Normalmente é isso que faço e daí a concretização de penalties ser altamente positiva para mim. Naturalmente que quando sou encarregado de marcar esse tipo de faltas sinto a responsabilidade e agora mais do que nunca pois não falhei nenhuma no ano passado, mas nunca me deixo apossar pelos nervosos. Quando vou chutar a bola penso sempre no melhor.

Faz algum estudo especial sobre os guarda-redes adversários?

Na maior parte das vezes sirvo-me da televisão, pois gosto de tentar saber as características deste ou daquele, e, preocupa-me a maneira como eles tentam impedir que os penalties sejam convertidos, para assim os poder ultrapassar se alguma vez se deparar uma situação desse tipo.

Por mérito próprio e mercê de algumas grandes exibições o Sporting foi no último ano um justo campeão nacional. A equipa demorou um certo tempo a «aquecer», mas quando isso se verificou embalou de forma decisiva para o título. Nesta temporada isso não se tem verificado, ou pelo menos não tem acontecido da forma que as pessoas desejavam. Ao fim de oito jornadas a equipa campeã de Portugal perdeu cinco pontos. Para nós são muitos pontos. No entanto, os jogadores e responsáveis sportinguistas afirmam que a equipa está a subir e que o pior já passou. Relativamente a este assunto o jogador «leonino» confiou-nos:

Na realidade, estou de acordo com essas opiniões. O Sporting está a subir, muito embora comparativamente com o último campeonato as suas exibições ainda sejam um pouco inconstantes. Durante várias semanas fazíamos um jogo bastante bom, para logo a seguir realizarmos um menos positivo. Agora tudo está melhor. Mantém-se o espírito de sacrifício e de conquista e portanto não estamos arredados da reconquista do título como se tem afirmado.

A vitória do FC Porto sobre o Benfica foi bastante boa para o Sporting?

Naturalmente que sim e aliviou a maior parte das pessoas relativamente ao nosso horizonte. Depois do triunfo dos portistas a nossa caminhada para a reconquista do título ficou menos nublada.

Mas o Jordão acredita, que o Sporting ainda pode chegar ao título?

Concerteza que sim, pois o Sporting continua a lutar com a mesma determinação do ano passado. Para conseguirmos a revalidação do campeonato teremos que ultrapassar e vencer os nossos adversários mais directos, que são o Benfica e o FC Porto. Afirma-se que o campeonato se vence, derrotando as equipas menos cotadas. De certa forma estou de acordo com esta afirmação, mas para mim, a decisão final passa, sempre, pelos encontros que se realizam entre as três equipas mais fortes. Os resultados desses jogos são sempre um marco importante na caminhada para o título e este ano isso não será excepção. Na caminhada passa a revalidação do título, considero que são importantíssimos os jogos com o Benfica e com o FC Porto.

Considera então esses jogos tão decisivos?

Principalmente os que temos que realizar frente ao Benfica. São dois jogos em que temos de pontuar, partindo da premissa que é necessário conquistar os dois pontos no jogo de Alvalade e não perder no encontro da Luz. Relativamente ao FC Porto a situação é diferente, pois estamos em desvantagem, mas nas Antas, como é natural, tentaremos anular o desaire do jogo realizado em Lisboa.

Em três encontros, da actual temporada, com o Vitória de Guimarães Vitória de Setúbal, para o campeonato, e com o Benfica, para a Super-taça, o Sporting nos instantes finais das partidas viu-se desapossado de resultados que interessavam as suas pretensões. Em Guimarães, a um minuto do termo do jogo um penalty convertido por Ferreira da Costa repôs uma igualdade a dois golos. Em Setúbal, um tento de cabeça, por Garcez igualou o marcador, a um golo. Na Luz a dois minutos do «terminuz» uma cabeça de Vital, fez o 2-1 e possibilitou aos «encarnados» a conquista do troféu.

Três golos importantes em momentos capitais. Poder-se-á pensar que o Sporting está mal fisicamente?

Não posso concordar com essa opinião, pois fisicamente a equipa está até bastante bem. O que acontece é que não tem havido uma melhor segurança em determinadas situações. Fundamentalmente não temos sabido segurar a bola nos momentos finais dos encontros, quando nos encontramos em situações de vantagem. Usando a terminologia do futebol faltou-nos a chamada «ronha» nesses encontros, principalmente, nos do campeonato. Devíamos ter sabido reter a bola e obrigar os nossos adversários a correr atrás dela, não lhes dando quaisquer hipóteses de chegar ao golo.

Naturalmente que os jogadores se sentem preocupados com estas situações…

Não só os jogadores. Também os técnicos, que nos chamam a atenção constantemente, para essas situações. Nas conversas de balneário esses temas têm sido muito versados, como também os golos de bola parada, que felizmente, ultimamente, não tem acontecido. No entanto, os jogadores estão conscientes de todas essas situações e têm dado as mãos para ultrapassarem estes problemas e porem em prática os ensinamentos do técnico.

Com certa insistência, os responsáveis e atletas do futebol sportinguista tem-se manifestado contra determinadas arbitragens, mais propriamente com as verificadas nos encontros com o Vitória de Guimarães, Sporting de Espinho e Benfica, este para a Super-Taça.

Relativamente a este tema, sempre escaldante, pusemos frontalmente, ao ariete de Alvalade, a seguinte questão:

Jordão: O Sporting é perseguido pelas arbitragens?

Não poderei dizer perseguido pois não uso esse termo. O mais correcto será prejudicado e parece-me que quase todas as equipas sofrem os efeitos desta ou daquela arbitragem. De qualquer forma, não podemos deixar de alertar as pessoas nesse sentido.

De uma forma ou doutra todos os conjuntos são prejudicados. Agora o que me revolta é que falta personalidade a certos árbitros. A arbitragem a que assisti em Guimarães foi simplesmente nula e não teve qualquer significado, penso que não só para os intervenientes, como para o próprio juiz do encontro. O árbitro desse jogo deixou-se influenciar pelo ambiente em que o mesmo se desenrolou e em que os dirigentes vimaranenses tiveram uma participação muito importante. Por esse facto fui forçado a protestar contra determinadas decisões.

E o jogo com o Sporting de espinho?

A arbitragem, na realidade, não foi excelente, mas como vencemos os ânimos não estavam tão efervescentes e houve uma certa condescendência da nossa parte.

Relativamente ao jogo com o Benfica.

Não vi na televisão, mas o penalty assinalado contra nós – estava no lance – não existiu, pois se houve falta foi fora de área. Aliás esta opinião foi-me confirmada pelos meus companheiros que viram a TV.

Foi uma grande penalidade pedida pela massa associativa do Benfica, pois notava-se que o árbitro não estava à vontade e tinha que haver da sua parte uma compensação, para o penalty que assinalou contra os donos do campo e que na realidade aconteceu. Estava no lance e não precisei da televisão para confirmar. Inclusivamente a televisão por vezes é ilusória em certos lances e não esclarece dúvidas sobre determinados lances. Bem pelo contrário. Daí toda a minha indignação pela penalidade marcada contra nós, que, repito, não aconteceu. Não digo que o árbitro não tivesse sido isento, mas realmente sentiu-se pouco à vontade, e, influenciado, marcou uma grande penalidade, inexistente, que modificou por completo o cariz do jogo que até estava a correr de feição ao Sporting. Por vezes um penalty mal assinalado deita tudo por água abaixo.

Ficou então aborrecido por ter perdido a Super-Taça?

Não me custa perder um jogo, pois não foi o primeiro, nem será de certeza o último, da mesma forma que ainda poderei perder mais finais. Fiquei, sim, aborrecido por perder um jogo, em que nós, não fomos culpados de absolutamente nada.

De há anos a esta parte que a equipa sportinguista, fica, quase sempre, pelo caminho na primeira eliminatória das competições europeias em que participa. Este ano verificou-se o mesmo com o Honved. Jordão naturalmente tem uma opinião sobre este facto e disse-nos o seguinte:

Gostava, na realidade, de ter ido mais além na taça dos Campeões Europeus, mas isso a exemplo de anos anteriores, não aconteceu. Umas vezes devido à supremacia dos adversários, outras por erros que cometemos no campo. Este ano tivemos como adversário uma equipa muito forte, que à primeira vista não parecia, mas que na prática veio a confirmar o contrário. Foram na realidade superiores e mereceram vencer a eliminatória. Claro que é sempre aborrecido deixar uma prova tão importante logo no início mas o Sporting está a trabalhar para que no fundo isso não suceda com base numa esquematização forte que englobe igualmente algumas aquisicões.

Sentiu-se então frustrado?

Fica-se sempre frustrado.

Já que falou de aquisições, como é que vê essa situação?

Para lhe ser sincero não sei como é que os responsáveis sentem esse problema. Tem-se falado que, o Sporting, adquiriu poucos jogadores por falta de verba e acho que na maior parte das vezes é isso que acontece. Os bons jogadores portugueses não estão na maioria das situações disponíveis e quando se encontram assim as suas contratações são difíceis. Muitas vezes a única hipótese seria contratar jogadores estrangeiros, mas isso não acontece porque são demasiadamente caros. Portanto, encaro a não contratação de jogadores por parte do Sporting dentro das perspectivas atrás citadas.

No número 10-A, da Avenida Rio de Janeiro, ali no bairro Alvalade, existe um dos mais acolhedores «pubs» da capital lisboeta. Curiosamente o nome do estabelecimento hoteleiro é o número da porta ou seja «10-A», mas nada tem a ver com a célebre entrada do Estádio de Alvalade. Foi pura coincidência. Proprietários do empreendimento: Jordão, Artur, Viana e Pedro Silva. Ali, quem desejar, pode beber o que quiser e comer, à ceia – apenas à ceia – um bife sensacional.

Sobre o empreendimento, de que é sócio, o jogador sportinguista disse-nos o seguinte:

O «10-A» é um lançamento com vista ao futuro, pois como todos sabem o futebol não dura mais que 10/12 anos e perante esta situação, real, é necessário estarmos atentos com o futuro, de forma a que o não descuremos. Inicialmente, o «pub» seria uma experiência, mas felizmente já passou disso, e, hoje, é uma verdadeira realidade. Uma realidade que considero agradável, pois tudo tem corrido às mil maravilhas e para que isso se verifique muito têm contribuído os meus colaboradores que se têm dedicado ao empreendimento de alma e coração.

O último tema da nossa longa conversa foi dedicado à selecção nacional onde Jordão tem sido elemento deveras influente. Confirmou-o ultimamente, como já referimos, nos jogos de preparação e frente à Escócia, na caminhada para Espanha.

«Penso que infelizmente a selecção nacional parte sempre para estas competições sozinha, sem apoios, com excepção, talvez, do último ano. Existe um descrédito por parte da nossa gente que não compreendo. No entanto, lutando contra tudo isso conseguimos na Escócia um resultado satisfatório que sendo um bom desfecho, não é caso para deitar foguetes. No fundo, provamos que temos equipa para estar presente no Mundial de 1982 e eu, todos os jogadores seleccionados e os responsáveis, queremos o apoio do nosso público e dos órgãos de Comunicação Social, pois todos fazem parte da equipa das «quinas». Na realidade, o objectivo é comum e o interesse da selecção, sem esses apoios, soçobrará frente a adversários menos cotados.»

Mas pensa que Portugal está em condições de bater a Irlanda do Norte?

Naturalmente que sim e todos os jogos em casa são para ganhar, mas não nos podemos esquecer que os desaires existem. Se isso acontecer, neste ou noutro jogo, nada nos poderá marcar, nem levar as pessoas, novamente, ao descrédito. Portugal está perante a grande oportunidade de estar presente numa fase final de um Mundial, mas para que isso aconteça é necessário que as pessoas nos apoiem e que acreditem em nós.

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Grande Jordão. Que falta nos fazias agora…

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