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Quarta-feira, Julho 28, 2021

$UP€R (CINTO DE) LIGA

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Não há como fugir do assunto do momento no que toca ao futebol. A tão propalada Superliga Europeia, cujo conceito primordial já tem uns bons aninhos, parece ter finalmente visto o seu pontapé de saída (ou sentença de morte) no passado fim-de-semana. Eterno sonho molhado de alguns clubes que se arrogam a liberdade de apregoar que são mais que os outros, encontraram finalmente o seu modelo quimérico que lhes permite estar sempre no topo, mesmo que não valham um chavelho. Um verdadeiro míssil em quem aprecia a competição no futebol.

Bem sei que a meritocracia no desporto há muito que foi hipotecada, bastando assistir aos progressivos jogos de poder, concorrência desleal e até mesmo batota “à cara podre” que têm assolado o belo desporto europeu desde há décadas, para entender que a lealdade, fair-play e competitividade puras já foram relegadas para um papel secundário aos anos.

Porém, e apesar de todos os defeitos e mais alguns que assolam o modelo actual, casos houve de belas surpresas no panorama futebolístico europeu que desafiaram a lógica “financeira” da superioridade das equipas no campo desportivo. Tenho até, como opinião pessoal leia-se, que a maior surpresa de sempre na Champions League foi o F.C. Porto campeão europeu em 2004, numa campanha brilhante ao longo de uma época pautada por sucessivos falhanços dos clubes mais poderosos financeiramente. Bem sei que acerca dessa época muito se pode dizer também da frescura com que o clube da Invicta enfrentou alguns dos seus jogos europeus mas isso são outros quinhentinhos. A verdade é que o clube liderado por Pinto da Costa não era, nem de perto nem de longe, o favorito ou um dos favoritos à vitória final e, ainda assim, foram quem triunfou na prova rainha do futebol europeu de clubes, provando que os menos abonados a nível de carcanhol também poderiam erguer o caneco.

Parece então que os clubes ditos “maiores” – se bem que considerar como grandes clubes europeus o Arsenal, o Tottenham ou mesmo o Manchester City seja matéria fundamentada apenas por extractos de conta bancária – decidiram açambarcar os milhares de milhões de Euros que consideram que apenas eles são merecedores. Não será alheia a tão inusitada decisão o aperto que muitos deles devem sentir na garganta depois do garrote financeiro imposto pela pandemia mundial a que continuamos a assistir. A arrogância deste grupelho de megalómanos que se acham mais que os outros estabeleceu unilateralmente que a partir de agora são eles que ditam as regras – que se lixem os desempenhos dentro das quatro linhas!

Já vejo algum pessoal a apregoar que tal modelo pode ser positivo para o futebol, invocando mesmo exemplos americanos como a NBA ou a NFL, sem perceberem puto da lógica cultural radicalmente diferente entre os Estados Unidos da América e a Europa no que toca ao desporto. Nos E.U.A. o desporto foi sempre promovido e catalisado como uma forma de negócio,cabendo a parte de serviço público e comunitário, de acesso generalizado à população, a entidades privadas como clubes desportivos locais e escolas/universidades públicas e privadas, numa forma de competição meritocrática brutal que selecciona no fim de contas um punhado dos mais talentosos para as competições mais exclusivas do mundo. A NBA, por exemplo, tem apenas cerca de 400 jogadores divididos entre as 30 equipas que a compõem – e podem crer que desses 400, pelo menos 350 serão mesmo dos melhores jogadores actualmente no mundo!

Contudo, a paixão e o clubismo são muito menos intensos que no modo desportivo europeu – basta lembrar a quantidade soberba de adeptos que os Chicago Bulls tinham durante a Era Michael Jordan e a meia-dúzia de gatos pingados que sofrem realmente com o desempenho da franquia actualmente. Ou a quantidade imensa de fãs que os Golden State Warriors tinham até há bem pouco tempo quando quase toda a sua vida foram simplesmente medíocres. Os chamados “bandwagon fans” que na Europa são escassos. Na Europa quem é de um clube, é-o para sempre! Pouco importa se são campeões europeus ou se acabaram de ser despromovidos. A paixão pode ficar menos assolapada com um pobre desempenho, mas não deixa de existir. A única analogia com o modelo americano é, possivelmente, a paixão universitária, pois a alma mater onde se estudou é a única que se manterá constante, em teoria, durante o resto da vida.

Os clubes desportivos europeus foram fundados, antes de mais, sob o desígnio da inclusão e do fomento da prática desportiva, edificando os valores do mérito e da superação pelo trabalho na população geral. Em suma, nasceram do povo e para o povo, levando naturalmente a uma ligação emocional muito mais vinculativa que a que se observa geralmente nas falanges de adeptos da NBA, NFL, MLB, etc.

A esse mote não é estranho o lema do próprio Sporting Clube de Portugal – Esforço, Dedicação, Devoção e Glória não é apenas uma expressão bonita para decorar uma parede de um qualquer Estádio ou Pavilhão, mas é sim uma máxima que devemos assimilar e reproduzir na vida, transmitindo-a às gerações seguintes. E representa, a meu ver, aquilo que se deve esperar da prática desportiva e aquilo que devemos almejar na vida.

Não vou ao ponto de ser radical e dizer que o modelo Superliga Europeia não seria/será um sucesso pois haverão sempre pessoas dispostas a gastar rios de dinheiro só para ver futebol à “bandwagon”, nem tão pouco direi que os clubes fundadores não fariam muito mais dinheiro que o que fazem actualmente mesmo que perdessem grande parte das suas massas apoiantes. Mas perder-se-ia/perder-se-à sem dúvida grande parte da ligação afectiva que une os adeptos aos clubes em questão. Seria até mesmo interessante ver até que ponto é que esse feitiço não se voltaria contra o feiticeiro, deslocando as atenções gerais para as competições paralelas à Superliga e, numa lógica de mercado, levar à futura desvalorização da competição exclusiva e dos clubes que a compõem, podendo mesmo levá-los a um estatuto muito inferior ao que granjeiam hoje em dia (e como seria delicioso assistir a isso).

Como disse no início da prosa, este sonho molhado de alguns clubes já é planeado há muito tempo – até me vem à memória o velhinho FIFA 99 para a primeira Playstation e o seu modo European Dream League. Mas os sucessivos desenvolvimentos de prize money a serem distribuídos pelos clubes participantes nas competições europeias vieram a adiar consecutivamente esta ideia que a pandemia precipitou – uma competição semi-fechada em que 12 deles têm direito a lugar cativo e 3 pindéricos escolhidos sabe-se lá com que critérios têm oportunidade de ir beber qualquer coisa ao pote caso se portem bem. Que se lixe a vontade, a garra e o mérito!

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