RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Domingo, Setembro 20, 2020

Neste dia… em 1940, Sporting goleia o campeão espanhol, At. Madrid (5-1) em jogo particular

OS TEMPOS MUDARAM

O futebol português melhor que o de Espanha

O Atlético de Madrid, campeão da La Liga, deixa-se dominar pelo Sporting, e o confronto dos jogadores é-nos favorável.

Lembram-se do «football» maravilhoso de Espanha? Daquele «football», alegre, artístico, supremamente belo, que desfrutava grande prestígio em Portugal, pelas vocações como Zamora, Samitier, Alcantara, mais modernamente Regueiro, Cilaurren, e outros, e ainda pelo eco do seu comportamento nos torneios entre nações? Lembram-se por certo – nos todos sabemos de cor esses inolvidáveis Portugal-Espanha, quanto mais não seja. Os espanhóis nunca tiveram a certeza dos austríacos, nem a perfeição de técnica dos ingleses, mas o seu «football» era duma beleza, singular e única, fragmentos de agilidade, de energia, de domínio de bola e de elegância. A maneira espanhola era inconfundível. Os seus jogadores podiam usar mascara que um, olhar acostumado ao jogo facilmente descobriria tratar-se de espanhóis, pela graça, característica e própria, o chamado salero. Havia nas suas atitudes qualquer coisa de estatuária, de prodigiosamente belo. Havia…

Pois é verdade. Não foi esse «football» que esteve em Lisboa, mas outro, reminiscência pálida daquele, de qualidade inferior – barro grosseiro. O Atlético de Madrid é do melhor que há nesta fase em Espanha. Quero crer que, no seu ambiente madrileno, em terreno relvado (não se compreende que a relva, condição necessária ao «football» moderno, não tenha ainda nascido no Lumiar, a relva, que modifica o jogo, como a pintura a cara duma mulher feia) sem a perda do avançado-centro efectivo, o grupo valha um pouco mais. Quero e faço por crê-lo, embora aguarde com certa confiança a retribuição, no próximo dia 22, do Sporting a Madrid. Mesmo assim, entrando em linha de conta com todas essas atenuantes, não posso deixar de afirmar a impressão desagradável do Lumiar. Friamente, rememoro o desafio, faço uma revisão, cuidada e imparcial (tanto quanto possível) no desejo duma visão justa, e não vejo erguer-se uma figura grande, e poucas são as jogadas espanholas dignas de recordação. Este Atlético não passa dum agrupamento de homens regulares, alguns bons jogadores, mas só isso, nenhum da craveira dos grandes de Espanha. Há que ter em conta – é claro e não o esqueço – os estragos produzidos pela guerra. Os clubes dão-se à tarefa do ressurgimento com verdadeiro entusiasmo, e não me admira que em tempos próximos volte o prestígio do passado. Por enquanto, não. De resto, «a minha ilusão foi mais completa porque tenho seguido a crítica dos meus camaradas da vizinha nação, e por ter lido há semanas, a propósito duma final, que o «football» espanhol havia encontrado a expressão dos seus tempos de grandeza.

Porque o Sporting pode fazer bem melhor do que o que fez. Note-se uma coisa. A orientação deste clube, a palavra está empregada na acepção de grupo, tem qualquer coisa de desorientação. O clube entra na época de 1940 com os mesmos elementos de 1939. Nem um novo, uma pequena surpresa! Todos antigos, alguns deles com direito à reforma. Ora, está reconhecido, por exemplo, que a linha média sportinguista se mostra deficiente. Que faz o clube para cobrir essa deficiência? Verdadeiramente-nada. Passam-se uma, duas épocas, e o problema, angustioso, não se resolve, nem sequer havendo indícios de solução. Nem se busca cá fora jogadores à altura do cargo, nem se fabrica lá dentro esses homens, pois o habito de escola perdeu-se por completo. Pode afirmar-se – bem o sei – em resposta ao meu comentário, que se trata de coisa difícil, e que um cimento não se faz numa época. De acordo, mas faz-se em duas ou três, e há muito tempo perdido… A única experiência de ontem, o defesa Octávio (porque não José de Oliveira?) foi de pouca duração, pois um acidente roubou-o à luta, por sinal numa altura em que a sua tarefa estava a causar desgostos.

Jogo entre portugueses e espanhóis sem chama ou colorido. Em conjunto, domínio técnico do Sporting, ao ponto de dar a sensação de treino nalguns períodos – bola de pé para outro pé, no mesmo sitio, como que em passatempo. O clube não apresenta modificações no seu sistema, já conhecido e reconhecido – o mesmo treinador; os mesmos jogadores; o mesmo método. Jogo a pouca altura, as mais das vezes, caindo principalmente sobre a excelente linha avançada, e neste sector caindo principalmente sobre o avançado-centro (vão repetir-se alguns desgostos do ano passado?) embora o desejo de colaboração deste elemento fulcral seja mais evidente, com uma linha media destrambelhada, não conseguindo qualquer dos três acertar com a posição no terreno – condição fundamental. Ainda uma defesa de redes solidas com duas unidades jogando em força.

Mas, repetindo, domínio do Sporting e inferioridade do Atlético «Football» castelhano muito de acaso, enérgico, mas incaracterístico, e irreconhecível, mesmo nos lances de cabeça em que os espanhóis eram mestres incontestados. O Atlético praticou a utilização insistente dos extremos, por causa da impossibilidade de avanço pelo centro do terreno, e em exploração, porventura um pouco inconsciente, da fraqueza dos medios-asas adversários. Serviu-se, além disso, o melhor que pôde, do seu médio-centro, espírito combativo, e de seus dois defesas, de difícil manobra. Passes, geralmente, rasteiros, mas sem colocação, batendo a bola muita vez no corpo do inimigo. Não são os cinco a um que impressionam – é preciso dizê-lo. O Atlético podia ter perdido até por maior diferença, mas dar-nos alguns momentos de sol – para aquecer, a gente e a competição. Mas não. O seu «football», praticado por alguns jogadores antigos de pouca nomeada – guinda os melhores – e por vários modernos inferiores, sumiu-se.

Dos lances lisboetas há que guardar, como joias raras, a proeza de três «goals» em três minutos, alguns pormenores de encanto, e uma combinação vistosa de João Cruz com o avançado-centro. João Cruz fez coisas de deslumbrar (este homem joga com tamanha souplesse que, quando em má tarde, chega-se a ter a impressão de que é ele que assim quer!). Toda a avançada bem. A anotar, a inteligência de Mourão, o domínio de Pireza, o dribling de Ferreira, e a posição, defeituosa de Peyroteo, inteiramente voltado para o seu campo, portanto, com dificuldades de prosseguimento do lance. Ainda o apreciável trabalho de Cardoso, e o golpe de vista e a serenidade do nosso maior guarda-redes, Azevedo.

A apreciação aos de Espanha está feita. O bloco defensivo impôs-se muito mais do que o ataque. Germán e Vasquez vêm depois na escala de valores. Carlos Fontainhas arbitrou com prazer e gosto. O apito arrancou poucos silvos. O gosto que um arbitro tem quando vê que o que interessa é o jogo pelo jogo, e nada mais. O Atlético seguiu esta manhã para Madrid, encantado, não com o resultado, mas com a amiga recepção, sendo acompanhado até à fronteira pelos srs. Alfredo Dias, director do Sporting, e dr. Salazar Carreira, após o almoço em Setúbal. As relações desportivas entre Portugal e a Espanha apertam-se. O Futebol Club do Porto joga em Sevilha no dia 15, o Sporting em Madrid no dia 22, e o Benfica, em Barcelona, a 24. Antes assim.

TAVARES DA SILVA in Diário de Lisboa

O Sporting alinhou com:

Azevedo; Álvaro Cardoso, Octávio Barrosa ( Rui Araújo 20′) e Aníbal Paciência; Gregório e Manecas; Mourão, Armando Ferreira, Peyroteo, Pireza e João Cruz;

Treinador: Joseph Szabo

Golos do Sporting: Peyroteo (20′ e 67′), João Cruz (57′ e 58′) e Pireza (60′)

Data: 08/09/1940
Local: Estádio do Lumiar
Evento: Sporting (5-1) Atlético Madrid, Particular

Artigos relacionados

Subscreva
Notify of
guest

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários
0
Partilhe a sua opinião!x
()
x