RUGIDO VERDE

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Sábado, Setembro 19, 2020

Laranjeira: «Não nos preocupamos apenas com o campeonato, mas também, com a projecção do clube a nível europeu»

Foi uma manhã de muito trabalho em Alvalade. Paulo Emílio, à medida que o tempo passa, vai progressivamente aumentando o tempo de trabalho. O «capitão» leonino João Laranjeira, sem menosprezo para os restantes profissionais do plantel de Alvalade, entrega-se totalmente ao trabalho. A excelente exibição que fez contra o Benfica, fez-nos entender que o magnífico jogador vai ter uma época bastante boa, se as lesões o não apoquentarem.

Sporting (1-1) Benfica (Golo Fraguito) 1ºJ CN em 03/09/1977. Em cima da esquerda para a direita: Fraguito, Manaca, Laranjeira, Da Costa e Vitor Gomes e Artur. Em baixo, pela mesma ordem: Baltasar, Manuel Fernandes, Jordão, Keita e Valter.

– Você esteve bastante bem no jogo frente ao Benfica. Mostrou uma forma quase apurada, o que é bom sinal. A que se deve logo de início o seu bom momento?

Eu, desde sempre, acentuadamente a partir do momento em que ascendi à categoria de sénior, que cuido ao máximo, mesmo em tempo de descanso da minha preparação. Aliás, é normal eu começar bem as épocas. Acontece apenas que sou um pouco azarento com lesões e por vezes não consigo atingir o máximo quando para ele caminho. O ano passado, comecei bem e felizmente não houve percalços e creio que acabei bem. Pois este ano, espero que tudo se repita. Aliás, uma boa preparação em início de época, faz-se sentir pelo campeonato, enfim, durante a época em que é preciso darmos sempre o nosso melhor.

Alguns jogadores, devido a uma preparação adequada, já caminham para uma forma muito considerável!

– Relativamente a todo o conjunto, é de opinião de que os demais companheiros, também caminham para a boa forma?

Como sabem, as características dos jogadores mudam. Há os que não começam muito bem, mas que depois com os jogos, com a intensificação dos treinos, com a esquematização de jogo, vão encontrando a forma. Há também os que a adquirem de um momento para o outro, do mesmo modo que a perdem. Neste momento, francamente eu gostei do início do campeonato, mas aceito que há muito que melhorar como é lógico. Interessa acima de tudo, uma forma colectiva, o tal momento em que todo o conjunto está a render o máximo em todos os sectores. Quando esse ponto é atingido então tudo está bastante bem.

Laranjeira a ler o semanário «Golo» no intervalo do treino.

– Sendo você o «capitão» da equipa e jogando numa posição recuada, pode facilmente aperceber-se da maneira como todos os sectores estão jogando. Que me diz?

Pois é evidente, que tanto a actuação dos jogadores que já cá estavam, como os que vieram cumpriram, para um primeiro jogo de campeonato. Claro que não podemos esquecer, que jogadores como o Jordão, o Artur e o Manaca, são experientes e podem facilmente integrar-se em qualquer conjunto sem grandes dificuldades. Acho que sim, que todos estiveram bem, ainda que logicamente uns melhores que outros o que afinal acontece sempre e em qualquer altura do campeonato ou mesmo em qualquer jogo.

– E relativamente aos mais jovens, aos menos experientes?

Eu acho que o ambiente está bastante bom para que os mais jovens se sintam à vontade. Não há agora aquele problema que havia antigamente, que era o dos chamados consagrados não aceitarem assim à primeira a presença de um júnior, não lhe dando, digamos muita confiança. No Sporting actual há de imediato uma convivência com os mais novos que ascendem ao primeiro time e dessa convivência, nasce um ambiente muito bom em que eles sabem que desde que trabalhem e tenham condições para serem titulares, são. Para já é evidente que terão que discutir o lugar. Eles bem sabem que são ajudados no que é possível e quando chegar a hora de fazerem parte da equipa são bem recebidos.

– Mas vê jovens com possibilidades de ainda esta época fazerem parte do primeiro time?

Claro que vejo. Não falando do Freire que já jogou várias vezes na época passada, há por exemplo o Ademar e outros, para não citar mais nomes, que francamente podem, quando o treinador assim o entender, responder bem a uma chamada.

– O Paulo Emílio, está progressivamente aumentando o ritmo de trabalho. Tudo certo?

– Acho que está absolutamente certo. Já o ano passado, nós tralhámos imenso, começando logo por um ritmo bastante duro. Cada treinador, tem o seu esquema de trabalho e nós jogadores profissionais temos que nos adaptar a esse esquema. É verdade, que de ano para ano, de época para época, quando não acontece na mesma, aos futebolistas depara-se o problema da mudança de treinadores, o que implicitamente, e quase sempre isso acontece, muda também o sistema de trabalho. Em minha opinião, o trabalho feito pelo técnico Paulo Emílio e pelo professor Rodrigues Dias, está a ser francamente bem orientado, com o aumento progressivo de trabalho.

Laranjeira após o treino.

Não nos preocupamos apenas com o campeonato, mas também, com a projecção do clube a nível europeu!

– Esta preparação intensiva de princípio não trará saturação lá mais para diante?

Em minha opinião, todos os jogadores, mesmo os que actuam na segunda divisão, devem começar a época com treinos intensivos, para arranjar a condição física indispensável para fazer frente ao campeonato e no nosso caso, também às responsabilidades de nível europeu. Nunca será no meio do campeonato ou perto do fim, que se vai intensificar o ritmo de trabalho, pois nessa altura é que será tarde. Acho que sim, que como estamos a trabalhar em profundidade é que interessa.

– Será que se vai dar continuidade, ao que de há algumas épocas se vem verificando, de que o Sporting de quatro em quatro anos, ganha um campeonato?

Espero francamente que sim. Já agora, como vai fazer quatro anos que não ganhamos, pois que isso aconteça. Dirigentes, técnicos, jogadores e massa associativa esperamos que este ano o título fique em Alvalade. Tudo se está a fazer para isso. Os adeptos do Sporting bem merecem a alegria de ganhar o campeonato. Estamos uma vez mais a trabalhar a sério, portanto eu confio que tudo corra pelo melhor.

– E relativamente às competições europeias?

Também é muito importante. Temos que nos impor como um clube de nível europeu. O jogar apenas em Portugal, não é o bastante. Há jogadores que precisam ser conhecidos na Europa, ter contactos com outras grandes equipas. Há necessidade do clube ganhar dinheiro no estrangeiro e de nós jogadores sermos lançados. Lamentavelmente tem acontecido por vezes, que não passamos da primeira eliminatória, o que «arruma» por completo as nossas aspirações. Espero que desta vez isso não aconteça e que possamos ir bem longe. Para já, temos que além desta época, nos devemos começar a preocupar, a nível europeu, com a próxima época, fazendo enfim um trabalho a médio prazo, pois o tempo passa depressa.

– O clube despendeu de verbas volumosas com os novos jogadores. Pode ser o mercado europeu que vem ajudar a resolver o assunto?

Bem. Eu sou um profissional do Sporting. Como tal, tenho que me preocupar com a vida financeira do meu clube, o que é lógico. Pois digo-lhe que sim, que os jogos na Europa, com adversários de nomeada, ajudam sem dúvida a realizar verbas boas que vão certamente permitir que o clube realize o dinheiro que despendeu com as novas aquisições.

– Mudando de assunto. Que me diz sobre a presença do Yazalde em Alvalade?

Já se diz muita coisa mas nada de verdade. A presença do Yazalde deve-se apenas ao facto de ele estar em Portugal, em trânsito para a Argentina, pois vai estar ligado ao Independente durante duas épocas. Relativamente ao seu real valor, pois é evidente que ele tem o seu nome ligado ao Sporting, que é um jogador muito bom, um marcador de golos, que é afinal o que mais interessa. Mas neste momento, o Yazalde, até por ser estrangeiro, não poderia jogar no meu clube, por haver o Keita. Não. Não há nada quanto ao regresso do Yazalde.

Após o treino, Laranjeira dirige-se para casa no seu automóvel.

Os jogos contra a Polónia e Dinamarca poucas hipóteses nos deixam para estarmos presentes na Argentina!

– Ainda acredita na presença de Portugal estar na Argentina?

Digo que nos dois jogos frente à Polónia e Dinamarca, só nos resta fazermos bons resultados, ou sejam, resultados que não desprestigiem o nosso futebol. Francamente que até me parece que já toda a gente se esqueceu de que Portugal ainda tem que jogar com polacos e dinamarqueses. Veja que enquanto a Polónia, por exemplo, que tem quase o lugar assegurado não deixa de fazer jogos por essa Europa fora. Nós até parece que não estamos integrados numa série para o mundial e que temos jogos a fazer. O silêncio em que caímos, parece dizer bem, que estamos de todo afastados do mundial na Argentina. De qualquer modo, estou certo que aqueles que na altura forem chamados a representar o país, vão dar o seu melhor, até pelo seu brio profissional. De resto, aspirações, francamente que não devemos ter, o que é de lamentar.

– Temos portanto que o Laranjeira acredita no Sporting, tanto a nível europeu como nacional, mas não acredita na selecção. É isso?

É isso mesmo.

A nossa troca de impressões com Laranjeira tinha terminado, O «capitão» da turma leonina, deixou bem expressa a sua determinação, de que, não pode passar mais uma época sem que o título fique em Alvalade. Como costuma ser de quatro em quatro anos, esta época é realmente a indicada.

Data: 13/09/1977
Local: Estádio José de Alvalade
Evento: Entrevista à revista «Golo»

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Peyroteo

Era um grande central o Laranjeira. Pena que as lesões nunca o deixaram mostrar toda a sua capacidade.

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