RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Quinta-feira, Novembro 26, 2020

Figueiredo: “Recusei Vítor Baptista e indiquei Tomé ao Sporting”


Figueiredo, 73 anos, jogou oito épocas no Sporting mais duas no V. Setúbal. Levantou a Taça das…

Ernesto Figueiredo anda todos os dias por Lisboa, de um lado para o outro, ao volante do seu táxi. Com 73 anos de idade, o Altafini de Cernache está aí para as curvas. Quem? O Altafini de Cernache. Para quem não sabe, é a alcunha de Figueiredo, autor de 147 golos em 233 jogos pelo Sporting, entre 1960 e 1968. É um dos heróis da Taça das Taças-64 e um dos Magriços do Mundial-66. Dividiu a carreira da 1.a divisão entre Alvalade e Bonfim, mas é do Sporting.

Quando atende o telefone ao i desbobina histórias e mais histórias. “Jogava na 3.a divisão, pelo Cernache. Em 1959/60 fui o melhor marcador do campeonato, com 75 golos.” Como? “Só num jogo, marquei nove. Ao Sporting Lamego! Eles ganharam-nos 1-0 e fizeram cá uma festa! Em Cernache do Bonjardim, 12-0 e eu marquei nove. O nosso treinador era o Barrigana, ex-guarda-redes do FC Porto e da selecção nacional. Queria levar–me para o FC Porto mas eu cá não queria nada disso. Fazia muito frio lá em cima. Fui de férias para as Caldas da Rainha para casa de um amigo e quando voltei tinha uma carta do Sporting.”

O Sporting esperava-o. “Tinham três avançados estrangeiros: o Diego, o Fernando [dois brasileiros] e o Seminário [peruano]. Surpreendentemente, fui eu que joguei na festa de despedida do Juca. Ganhámos 3-1 à CUF e marquei dois golos. Nunca mais saí do onze.” Até 1968 foi assim. Golos, golos e mais golos. Sobretudo com o Benfica. Nove em 20 jogos. “É verdade! Marcava quase sempre. Dava–me gozo jogar com o Benfica. E na Luz? Aí era engraçado. Os insultos dos adeptos, as gravatas do Coluna. Metia a bola por um lado, ia buscá-la ao outro e tumba, lá estava o braço do Coluna.”

Mas então, ó Figueiredo, e aquele 2-0, em Junho de 1963? “O Benfica tinha ganho o campeonato mas perdeu a Taça dos Campeões para o Milan, com dois golos de Altafini. Menos de um mês depois, marquei dois golos ao Benfica e fiquei com a alcunha Altafini de Cernache, de onde sou natural. Aliás, tenho uma rua com o meu nome na minha terra: Rua Altafini Cernache do Bonjardim. Ainda hoje me chamam por Altafini.” Na final da Taça de Portugal, com o Vitória, dois golos nos 4-0. Na campanha vitoriosa da Taça das Taças, mais seis, incluindo o primeiro de todos, à Atalanta (3-1), e dois na final ao MTK Budapeste (3-3).

Como se isso fosse pouco, Figueiredo tem uma história na manga sobre o título de melhor marcador do campeonato nacional em 1965/66. “Acabei a época com 26 jogos e 26 golos mas tiraram-me um golo, com o Lusitano Évora. Os jornais desportivos escreveram que foi autogolo do guarda-redes Vital, mas como se eu rematei à baliza?! [o “Diário de Notícias”, por exemplo, dá o golo a Figueiredo, ao contrário de “A Bola”, o jornal que entregava a Bola de Prata ao melhor marcador e esse foi Eusébio, com 25 golos em 23 jogos]. Às vezes, encontro o Eusébio por aí, falo-lhe disso e ele diz-me sempre ”não te metas nisso”. Pois claro que não me meto. Os jornais desportivos queriam dar-lhe a terceira Bota de Prata consecutiva.” E ri-se.

As “quezílias” com o Benfica não se ficam por aqui. “No Mundial-66, o quarteto ofensivo era do Benfica: José Augusto, Torres, Eusébio e Simões. Nada a opor, mas Otto Glória [treinador de campo] estava sempre a dizer-me ”corre, corre, vai treinando, que vais entrar”. Como na altura não havia substituições, iria entrar num jogo de início. Mas isso nunca aconteceu, porque o Manuel da Luz Afonso [seleccionador] era um benfiquista ferrenho e disse a famosa frase ”os do Benfica jogam sempre, nem que tenham as pernas partidas”. Foi o que se viu! Depois daquele esforço todo nos 5-3 à Coreia do Norte, as meias-finais com a Inglaterra [1-2] foram para esquecer. O Torres não conseguia saltar e o Simões não tinha pernas.”

E porquê a saída do Sporting para o Vitória? “Já tinha 31 anos e fui moeda de troca do Pedras. Lá fui e passei grandes momentos. Os treinos do Vaz eram descontraídos. A gente nem treinava. Jogava basquetebol, veja lá bem! Ficámos em quarto lugar, cinco pontos à frente do Sporting, e chegámos aos quartos–de-final da Taça UEFA. Na época seguinte, já com o Pedroto, eliminámos o Liverpool. Sabe o que é que ele [Pedroto] me dizia? Que se ele e o Pinto da Costa trabalhassem juntos no FC Porto, ele seria oito vezes campeão nacional em dez anos. Veja lá, em 1970. O Pinto da Costa ainda era chefe de departamento do hóquei em patins.”

Mas então e o Tomé? “Ah, grande amigo. Fui eu que o indiquei ao Sporting. Perguntaram-me pelo Vítor Baptista mas ele não batia bem da cabeça. Nos treinos do Vitória saía a meio para ir subir árvores e apanhar laranjas. Indiquei o Tomé e também foram o Vagner e o José Mendes.”

Tomé. «O Figueiredo chocou comigo mas eu fiquei com a bola»

Tomé tem 63 anos e continuar a ser do Vitória. De coração, está visto! E é um castiço. Conta as histórias e ri-se. O i entra na brincadeira e comenta as suas frases em tom jocoso. Mais risos. Gargalhadas contagiantes. Nascido e criado no Vitória, transferiu-se para o Sporting em 1970, por indicação de Figueiredo, segundo o próprio. “Grande Figueiredo. Quando ele chegou a Setúbal foi amizade à primeira vista. Eu ainda era solteiro e ia muitas vezes na casa dele. Ou então, íamos almoçar juntos com o resto da malta. Grandes tempos.” A melhor história que tenho com ele é um jogo em Alvalade, veja lá a coincidência.

Foi um Vitória-Rapid Bucareste, para a primeira eliminatória da Taça das Cidades com Feira 1969/70. Foi em Alvalade porque o Bonfim ainda não tinha holofotes. Naqueles tempos, quando o árbitro apitava para o fim do jogo, a bola era de quem a apanhasse. Nessa noite, eu e o Figueiredo fomos a correr para apanhar a bola e chocámos um contra o outro. Mas eu levantei-me mais depressa e fiquei com a bola. Ainda hoje a tenho lá em casa. Era da marca Drible, feita no Brasil.”

Tomé começou a jogar em 1965. “Ainda não havia Ponte 25 de Abril. Para jogar no Restelo, na Luz ou em Alvalade, íamos de autocarro e depois de barco. Uma aventura. Quando a ponte foi inaugurada, parecia magia atravessar o Tejo de uma ponta à outra.” Mesmo a jogar como médio, Tomé marcava os seus golos no Vitória. Um ao Bayern Munique, do inimitável Sepp Maier. “Perdemos 6-2 lá, mas marquei ao Maier. Isso é uma satisfação enorme, até porque ele nem se mexeu com o meu remate na zona do penálti. Ora se a alcunha dele era o Gato, pelo instinto felino… melhor ainda. Tenho em casa a gravação desse jogo. E de outros. Com o Linfield. Com o FC Porto. Com a Académica, na final da Taça de Portugal.” Outro golo ao Liverpool. “Ganhámos 1-0 em casa e o golo foi ao Ray Clemence, titular da selecção inglesa. Também foi um marco histórico.” Mas nada se iguala àquele hat trick ao Olympique Lyon, no Bonfim. “Não há ninguém na história que tenha marcado tantos golos num só jogo. Há quem tenha feito dois mas três, ninguém. Nem o Torres, nem o Vítor Baptista. E podiam ter sido quatro. Houve um penálti e eu pedi para marcar mas o Fernando Vaz não me deixou. Quis que fosse o Petita, para lhe dar moral que ele estava a passar um momento atípico sem golos. Na altura, admito que fiquei zangado. Ainda há uma semana, o Falcao marcou quatro no FC Porto-Villarreal e eu pensei ”olha se eu tivesse marcado aquele penálti? Também tinha quatro golos num jogo europeu”. Mas pronto, vá, três também é óptimo.”

Isto não é tudo. Tomé foi o primeiro capitão da selecção portuguesa de Esperança em jogos oficiais. “Empatámos 1-1 em Alvalade com a Dinamarca e o nosso golo foi do Quinito.” E foi internacional AA pelo Vitória em duas ocasiões. Sabe de cor e salteado. “O seleccionador era o José Maria Antunes. Estreei-me em Berna, com a Suíça, em Novembro de 1969. Um mês depois perdemos 1-0 em Wembley com a Inglaterra, na estreia do José Henrique [guarda-redes do Benfica].”

De 1970 a 1976 jogou no Sporting onde ganhou um campeonato mais três Taças de Portugal. “Assinei pelo Sporting e vivia em Setúbal, onde estava a fazer a tropa. Mas ia sempre treinar-me a Alvalade, todos os dias à noite. ” E não era cansativo? “Na altura havia poucos carros e o trânsito era quase nulo.” E ri-se. Contagia o i. De volta a Setúbal em 1976, faz mais duas épocas na 1.a divisão até se transferir para a União de Leiria, então na 2.a divisão. Sobe de escalão, na estreia dos leirienses na 1.a Na primeira vitória de sempre da União, adivinhe quem marca um dos golos? Pois claro… Tomé. “Você diz 2-1. Acho que não, veja lá bem. Foi 3-1.” E não é que foi mesmo 3-1?! Essa época não acaba bem e a União volta à 2.a divisão. E, qual iô-iô, sobe novamente. No seu último jogo da carreira, o da festa de campeão do escalão secundário, acontece de tudo a Tomé. “Olhe, marquei um golo ao Estoril, lá na Amoreira, fiz um penálti, levei um amarelo e perdi todas as medalhas ao peito. Sim, porque naquela altura não havia essa proibição. Acabei o jogo, pus a mão no peito e senti a falta do fio e das medalhas. Ainda fui à procura mas qual quê! Nunca mais as vi, até porque o sistema de rega e corta relva entrou logo em funcionamento e nem deu tempo para ver tudo como deve ser.” E ri-se, como é seu jeito. “Paciência, perdi as medalhas e perdi o jogo, mas subi de divisão porque o avanço já era considerável sobre o Estoril e o Rio Ave naquela liguilha para definir o campeão. No ano seguinte, fui adjunto do Pedro Gomes.”

Fonte: ionline.pt

Data: 07/05/2011
Local: Jornal i

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