RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Domingo, Janeiro 19, 2020

Entrevista a Raphael Meade em Janeiro de 1986

Meade um artilheiro em Alvalade

Já passava da meia-noite e o Sporting despachara há mais de uma hora, em grande velocidade, o Atlético de Bilbau para fora da Taça da UEFA.

O estádio esvaziara por completo e os holofotes que iluminaram a noite mágica de Alvalade estavam apagados também. Os outros jogadores tinham saído, mas um grupo de resistentes espectadores não arredou pé da porta 10-A, aguentando firme, à espera de Raphael Meade.

Ele demorara-se lá dentro, em tratamento da pancada (mais uma) recebida de Goekoetxea, à semelhança do que acontecera, quinze dias antes, em Bilbau. Foi o último dos sportinguistas a abandonar o estádio. Quando atravessou a porta e atingiu a rua, O grupo enrolou-o em aplausos e gritaria festiva. Rapidamente cercado pela pequena multidão, Meade sorriu contrafeito a tais manifestações de exuberância da claque: beijos, abraços, pancadinhas nas costas, pedidos de autógrafos. A mulher (uma mulata linda de morrer, que mais parece saída directamente da galeria de beldades dos filmes de James Bond), essa afastava-se ligeiramente da cena, rindo a bandeiras despregadas: ela, que descende de caboverdianos e entende mais fácil o português, apanhara no ar o significado da “boca” de um fã mais atrevido: “O Jordão não fez falta: viva o Meade!”

Exagerada como o são todas as declarações de fidelidade ao Príncipe, aos primeiros sinais de abdicação do Rei, esta declaração espontânea do adepto anónimo não deixa, no entanto de traduzir uma realidade evolutiva do futebol do Sporting. Jordão, que na época passada prestou um contributo intermitente à equipa, flagelado por lesões e pela incompreensão do anterior técnico. colocou Manuel José perante o dilema de, por um lado, procurar recuperá-lo e, por outro, tratar de lhe arranjar um sucessor já que a idade não perdoa e mais ano menos ano Jordão terá mesmo de abdicar.

E se é verdade que já esta época Jordão pôde marcar com o ferro do seu talento e o improviso do seu génio alguns jogos do Sporting (fê-lo, nomeadamente, em Roterdão onde jogou contra o Feyenoord como nos seus melhores tempos), também não deixa de ser verdade que as suas aparições na primeira equipa se continuam a pautar pela irregularidade, que devido a lesões quer, ultimamente, a castigos. Daí os candidatos à bicha para a sucessão.

Em Bilbau, na “catedral” de S. Mamés, a cerimónia da rendição (pelo menos interina) fez-se com pompa a circunstância, a favor de Raphael Meade. Jordão foi expulso e, da linha de “touche”, avançou um rapagão encorpado, completamente desconhecido da exigente plateia local. Decorria o minuto 64.º e não foram necessários mais que outros dez para toda a gente decorar o nome do sucessor de Jordão, na linha de ataque e na função goleadora.

Três defesas do Atlético mostravam-se incapazes de o segurar; Zubizarreta já fora ao funda da rede buscar uma bola enfiada pelo inglês; da bancada central, frente aos jornalistas portugueses, uma voz se ergueu, traduzindo o que se passava lá em baixo, no relvado: “Bolas para o negro, que nos põe brancos”.

Com esse golo de S. Mamés, que principiou a traçar a sentença da eliminatória, e o outro em Alvalade, que a selou, mandando os bascos para as galés até ao próximo ano. Meade conquistava definitivamente a claque sportinguista. O episódio de quarta-feira, dia 11 de Dezembro, à saída de Alvalade confirmou isso mesmo: pelo menos no coração dos adeptos, Jordão já encontrou um sucessor.

Mas quem é este inglês discreto e afável fora dos estádios, poderoso e rápido na grande área, transferido para Lisboa no Verão passado, para abrir aqui as portas da glória que dois monstros do futebol britânico, Paul Mariner e Tony Woodcock lhe bloqueavam no Arsenal de Londres?

Raphael Joseph Meade nasceu em Londres a 22 de Novembro de 1962, filho de um casal oriundo da Jamaica. O pai trabalha no aeroporto de Heathrow e a mãe é funcionária dos caminhos de ferro, na estação londrina de Easton.

Raph cresceu a dois passos do estádio do Arsenal e garantiu-nos que começou a frequentar o clube com nove ou dez anos de idade, treinando nas escolas ao mesmo tempo que seguia os estudos próprios das crianças inglesas da sua idade. Aos 15 anos, vestiu pela primeira vez a camisola dos “artilheiros”, em jogos oficiais, alinhando na equipa B dos Juniores. Quem lhe seguir os movimentos em campo, hoje que está um profissional quase feito, nota-lhe características típicas dos atacantes ingleses: rapidez de pernas, simplicidade e quase avareza nos gestos técnicos que não apontam para a baliza e para o golo. Nos seus 78 quilos de peso e 1,78 de altura, ele dispõe de uma vantagem suplementar sobre as defesas, a extensão de pernas verdadeiramente incomum para o seu corpo, e que explica a velocidade extra com que embala para selar os lances da grande-área.

Como é sólido também e tem massas musculares desenvolvidíssimas, Raphael Meade esta naturalmente vocacionado para a guerrilha do golo. O resto fá-lo a sua escola britânica, que abdica de tudo o resto a favor do golo.

Aqui em Portugal o futebol é muito lento – diz ele e os avançados preferem fazer-se ao “penalty” do que explorar até ao fim as “chances” de marcar golo”.

Todas estas características não foram ainda aproveitadas a cem por cento no Sporting porque a sua prestação na equipa tem sido irregular. “Preciso de mais jogos, bastantes mais, para a minha integração no estilo da equipa se completar” – disse-nos ele.

A legalização da transferência levou uns três meses. Estreou-se no Porto em circunstâncias ingratas: terreno empapado e um jogo de alta voltagem impróprio para um novato se mostrar. Marcou, depois, um golo fácil ao Marítimo e logo no jogo seguinte, em Guimarães, faltou porque o filho (Daniel, de 16 meses) adoeceu e foi internado em Inglaterra. O pai acompanhou-o e não pode participar no programa semanal de preparação. Reapareceu em Bilbau, para novo período de baixa, desta vez com o tendão de Aquiles à mostra, calcanhar rasgado pelos “pitons” da defesa basca.

Em Tomar marcou novo golo fácil e passou o resto do tempo, como toda a equipa à procura de Manuel Fernandes para lhe oferecer a bola. Em Alvalade, com o Atlético de Bilbau, novo recomeço, mais um golo (e que golo!) e nova pancada a mandá-lo para o estaleiro.

“Não é fácil marcar golos em Portugal!” – comentou Raph para a FOOT. “As defesas fecham-se muito, jogam duro, mais do que eu estava habituado na Inglaterra. Com excepção da estreia no Porto, tenho marcado um golo por jogo: é uma boa média e vou fazer tudo para a manter”.

Meade sublinhou também numa das conversas com o repórter que, por outro lado, a integração no Sporting tem sido relativamente fácil “porque a equipa está a ganhar”.

Tudo corre melhor quando se está a ganhar e até a confiança em nós próprios e nos companheiros se robustece. Mas ainda é muito cedo para nos excitarmos. Ganhámos bem ao Bilbau e mostrámos que a jogar assim podemos chegar à final. Mas tudo tem de ser feito a seu tempo, passo à passo e sem excessos”.

A transferência de Meade para o Sporting custou cerca de 18 mil contos e um a dois jogos a realizar entre o Sporting e o Arsenal quando for levantado o boicote continental aos clubes ingleses. Trata-se de uma verba paga com juros por aqueles dois golos que resolveram a terceira eliminatória da Taça UEFA.

Não são no entanto, apenas a crítica e a claque a destacarem os méritos deste profissional de futebol. Os próprios colegas de equipa começam a falar dele com admiração e ainda há dias, um dos mais novos elementos do plantel leonino garantia em privado que se o Sporting há uns anos atrás era o Jordão e mais dez em breve poderá ser “o Meade e mais dez”.

Mais prudente, mas também mais experiente dos segredos da profissão e do clube, Damas disse a este repórter que Raphael Meade reúne todas as condições para se impor em Alvalade.

Esperem mais uns tempos e vão ver”, avisou o “keeper” internacional. “Para já, não conheço cá ninguém como ele a entrar pela direita e a cruzar bolas tensas, terríveis para os guarda-redes”.

É por estas e por outras que os adeptos do Sporting, tal como fizeram na noite de quarta-feira, 11 de Dezembro, estão a entronizar Raphael Meade como sucessor do grande Rui Jordão.

Texto de Daniel Reis

Fotos de Rui Raimundo e Lobo Pimentel Jr.

Fonte: Revista «Foot» Nº15 Jan86

Data: 13/01/1986
Local: Revista «Foot» Nº15
Evento: Entrevista a Meade

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