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Sexta-feira, Agosto 14, 2020

Barão em 1978 – De suplente no Sporting e titular na selecção de esperanças, a titular no Sporting e não convocado na selecção


Barão foi um «caso» do nosso futebol. Suplente no Sporting, titular na selecção nacional de «esperanças». Jogador que para muitos tinha lugar na turma principal do Sporting mas que para Jimmy Hagan, então treinador do clube, só servia para estar no banco, e fazer alguns minutos de jogo.

Hoje, Barão é titular da turma leonina e peça de grande valor. Falámos com ele e o jovem futebolista mostrou afinal muita maturidade, muita calma, um grande à vontade para sem receio apontar o que em seu entender estava e está mal, para dar relevo ao que está bem.

– Durante largo tempo, como encarou a sua posição de suplente na equipa do Sporting e tinha lugar na selecção nacional de «esperanças?»

-Pois eu admito que estive muito tempo no banco, talvez devido à minha juventude. É que em certa altura, quando é dada oportunidade aos jogadores novos essa oportunidade é apenas para um jogo. Se nesse jogo eles não conseguirem mostrar tudo quanto podem fazer, geralmente os técnicos depois têm receio de os tornar a pôr na turma principal. Ora comigo aconteceu que eu fui lançado numa altura em que a equipa estava a atravessar um período mau. Continuei a jogar, consegui provar que estava à altura das responsabilidades que me eram exigidas, que podia ser um dos titulares e agora cá estou. Julgo que tudo tenho feito para cumprir e espero francamente continuar a fazê-lo.

– A oportunidade que lhe deram e você soube agarrar deu também ensejo a que o Barão se sentisse mais realizado como futebolista?

– Claro que sim. Um jogador jogador pode treinar bastante, pode aplicar-se mesmo muito nos treinos, mas se não joga, nunca consegue adquirir o ritmo de jogo, o ritmo de competição. É evidente que eu depois de me sentir integrado na equipa, não digo que atingi uma maturidade, mas isso sim que consegui uma qualidade de jogo que logicamente não conseguiria se apenas jogasse de vez em quando e por escassos minutos. Claro que têm que haver qualidades para vingar, mas como eu julgo que as tenho, tudo se processou pelo melhor.

– Aceitou a hipótese de mudar de clube, quanto via que não passava do banco?

– Aceitei sim senhor. Aceitei porque um Sporting, um Benfica ou um Porto, são clubes grandes e como tal, as responsabilidades são sempre enormes, e as dificuldades de se ter um lugar como titular são sempre muito grandes. É verdade que eu estava na disposição de abandonar o Sporting, para me conseguir realizar como jogador noutro clube onde eu visse que podia ser titular que podia jogar sempre. Foram muitas as dúvidas que tive quanto ao continuar ao serviço do meu clube.

– Pode falar dos convites que teve?

– Houve vários. Mas o Belenenses foi o que esteve mais perto de me ter nas suas fileiras. Havia ainda mais dois clubes que também estavam interessados em mim.

– Porque não se consumou a transferência?

– O Belenenses veio falar comigo numa altura em que eu estava sem jogar no Sporting. Falei com os directores e o treinador aqui em Alvalade e o técnico disse-me que não, que contava comigo que eu era elemento com valor para jogar no Sporting. Não aceitou portanto a minha proposta e continuei a trabalhar e agora acontece até que já renovei por mais dois anos.

– Condições boas?

– Condições satisfatórias.

– Qual foi o treinador que achou que você devia ficar?

– Foi o Paulo Emílio de quem só posso dizer bem.

– A saída do Paulo Emílio e a tomada de responsabilidade na equipa por parte do prof. Rodrigues Dias não foi sentida pela equipa?

– Eu pelo menos não notei. Talvez porque os métodos de trabalho não modificassem muito. Havia um plano de trabalho, elaborado e é o que se tem estado a seguir. Aliás, acho. bastante bem que o professor Rodrigues Dias se mantenha à frente da equipa.

– Você agora procura mais ocupar a zona de meio campo. Sente-se mais armador, ou meio campista que homem do ataque?

É verdade que me sinto mais à vontade no meio campo. Outros lugares que eu tenho feito, não estão de acordo com as minhas características. É realmente no meio do terreno que me sinto no meu verdadeiro lugar. Mas claro, por vezes há necessidade de ocupar outra posição e tenho que procurar fazer o meu melhor para servir a equipa.

– Ao que parece os meios campistas leoninos parece terem-se encontrado!

– Sobre isso direi que o Sporting tem um lote de jogadores bastante bons para ocuparem essa zona do campo. Veja que o treinador tem para meio campo, homens como o Ailton, Fraguito, Manaca, Baltazar, eu e por vezes o Keita, o que é francamente positivo para qualquer equipa.

– Relativamente ao campeonato nacional parece tudo estar perdido. Temos agora o Sporting virado para a Taça de Portugal. Que me diz?

– Eu acredito ainda na equipa do Sporting. O conjunto está novamente a encontrar-se e sabendo bem que para o nacional tudo é francamente difícil. Claro que eu não me esqueço do que nos aconteceu no campeonato do ano passado e aguardo que as jornadas vão passando. Lembro que salvo erro em sete jornada perdemos onze pontos. Ora tudo pode acontecer. Claro que é tudo difícil porque estamos dependentes dos resultados dos outros e com a agravante que há entre nós e os dois primeiros, outras equipas com pretensões. Mas vamos ver. Quanto à Taça temos um jogo bastante difícil nas meias finais, já que temos que ir ao campo do Varzim que todos sabem é um conjunto muito bom e no seu campo, é mesmo muito perigoso. Claro que vamos para ganhar. Não nos podemos esquecer que se passarmos na Póvoa as possibilidades de estarmos na Europa são grandes pois estamos na final. Para já, a nossa presença na Europa está dependente de dois jogos, tal como as outras três equipas. Vamos dar tudo por tudo para não perder esta grande oportunidade. Ora no campeonato bem me parece termos a Taça UEFA ao nosso alcance. Temos pois duas hipóteses e uma tem que ser aproveitada.

– Ultimamente você que é titular do Sporting deixou de o ser na selecção de «esperanças». Como vê isso?

– Não sei. Posso apenas dizer, que no que se refere à selecção, eu sou como qualquer futebolista. Penso ter sempre a honra de representar o meu país de envergar a camisola das quinas. Quanto ao facto de eu agora não ser chamado é que nem sei que lhe diga. Apenas digo que é um caso muito giro o que se passa nas selecções. Vêm-se certas coisas que nos chocam bastante. Eu lembro-me que estive em estágio durante oito dias antes do jogo com a Itália, depois eu e o Zuledo saímos do lote dos convocados. Deram então como desculpa que eu estava sem rodagem. Eu estava realmente como suplente do Sporting… Mas depois de eu já estar integrado na equipa, depois de ter jogado frente ao Porto, e ter continuado a ser titular, portanto já com rodagem. Há o jogo frente ao Luxemburgo e o Barão nem sequer é convocado. É isto que não entendo bem. Quando não tinha rodagem fui convocado, e depois mandado embora. Quando tinha rodagem, não fui sequer lembrado. Ora a verdade é que vão buscar jogadores a outros clubes que desde o princípio da época estão no banco, só actuando muito esporadicamente alguns minutos nesta ou naquela partida. Mas eu sou novo, tenho apenas vinte anos e como tal tenho muito tempo à minha frente.

– Espera sentir-se realizado daqui a dois ou três anos?

– Difícil responder. É que um futebolista tal como qualquer outro profissional anda sempre a aprender. Espero isso sim, atingir uma rodagem e uma maturidade que me permita render mais do que o que rendo agora.

Barão, um jovem com muito futuro no futebol português. Um jovem de que há muito vínhamos falando por ver que ali estava um jogador que era pena estar a ser «queimado» no banco. Hoje Barão é titular. Por mérito próprio, numa das melhores equipas portuguesas.


Fonte: Revista «Golo»

Data: 28/03/1978
Local: Revista «Golo»
Evento: Entrevista

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