RUGIDO VERDE

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Quinta-feira, Abril 22, 2021

O Processo dos 14 Milhões de Euros: Jorge Jesus, Alves e Benfica

Todas as histórias merecem ser contadas sem omissões nem esquecimentos seletivos, sendo esse um dos desígnios do Rugido Verde. Vamos por isso abordar o processo que opôs o Benfica a Jorge Jesus, até ao dia em que se deu um acordo que contou com as duas mãos do Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting, Rogério Alves, como iremos ver em maior profundidade do que nunca. São nove pontos neste artigo que, acreditamos, irão valer a pena. 

Jorge não vale a pena falares mais alguma vez para mim. O carácter e os valores não os compro no supermercado. Boa noite” 

Luis Filipe Vieira

No dia 13 de Outubro de 2015 deu entrada uma ação judicial contra o então ex-treinador encarnado, no valor de 14.33 milhões de euros. 

Falou-se extensamente sobre o absurdo desse valor e ridicularizou-se o cálculo, com base num criativo número de adeptos no mundo, os quais num curto espaço de tempo passaram de 6 a 14 milhões, tendo inclusivamente alguns Benfiquistas ironizado com “eu não sou um nugget!” (alusão ao menu poupança McDonald’s

Benfica processa Jorge Jesus.

O que foi esquecido mas era determinante, intencionalmente ou não, foi o valor da cláusula penal do contrato que também constava da ação: 7.5 milhões de euros. O porquê de ser preponderante será explicado neste artigo. Como uma SAD cotada em bolsa, com centenas de funcionários a quem tem de pagar o vencimento, com contas auditadas, abdicou desse valor quase seguro, é a questão pertinente que deve ser colocada. 

1- O software roubado 

O software que tanta tinta fez correr por alegado “roubo” consistia somente em dois programas de licença acessível a qualquer clube, nada patenteado, criado ou exclusivo ao clube da Luz. O nome dos programas são PIERO (licença anual, 30 mil euros, marcação de imagens) e SPORTSCODE (licença anual, 3 mil euros, corte e análise de jogo ao vivo). Argumento, sem hipótese de sucesso, com vista a indemnização à parte, fica perfeitamente claro que as razões que levaram o Benfica a temer o conteúdo do computador de Jorge Jesus eram outras

2- As testemunhas 

O rol de testemunhas de Jorge Jesus contava com Júlio Mendes (testemunha do SLB no processo E-toupeira), o agente Jorge Mendes, o amigo Vítor Araújo (financiador da campanha de Frederico Varandas), a esposa de Jorge Jesus, os seus adjuntos, e ainda o então presidente Bruno de Carvalho. Nenhum chegou a depor visto que o processo foi subitamente encerrado a 23 de Fevereiro de 2018. Tal como Bruno de Carvalho assinalou numa intervenção há meses atrás, procurou saber o que se teria passado com um processo no qual era testemunha, e sobre cujo encerramento ficou apenas a saber pelos jornais (juntamente com a restante administração da SAD), apenas para obter como resposta do funcionário com vínculo que “não tem nada a ver com o assunto“. 

3- O início do julgamento que não ocorreu 

O início do julgamento estava agendado para Outubro de 2017, mas eis que 4 meses antes da oficialização do acordo, se dá um adiamento, que foi parar a jornais desportivos no dia 10 desse mês. 

Era um período conturbado para os lados da Luz, com conhecimento de buscas que foram adiadas por um juiz de instrução, revelações bombásticas e imensa polémica, inclusivamente com imensas manifestações de desagrado por parte dos adeptos encarnados. Nove dias após a notícia em imagem, no dia 19 de Outubro de 2017, são feitas buscas da Polícia Judiciária na Luz e às residências de Luís Filipe Vieira, Paulo Gonçalves, Pedro Guerra, Ferreira Nunes (ex-responsável pela classificação dos árbitros), Adão Mendes e Nuno Cabral. Repetimos, com pleno conhecimento, como posteriormente se veio a saber através do processo E-toupeira. O timing da notícia não poderia ter sido mais perfeito. 

4- Os encontros

O primeiro encontro assumido por fontes ligadas entre Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus após a saída litigiosa teve lugar em meados de Março de 2017, menos de duas semanas após a reeleição de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting (5/3/2017), tendo sido no entanto transmitido como casual pelo jornal A Bola

Instado a comentar, o treinador refugiou-se numa alegada etiqueta e moralidade, que uma e outra vez demonstrou não possuir, quer nas ações com diversas partes (incluindo até com o Benfica, o Sporting e agentes da autoridade) quer em intervenções de teor potencialmente racista e misógino. 

Dias antes (10/3/2017), já se dera um encontro no mítico lugar de encontro predileto de Jorge Jesus, o Hotel Ritz, que a imprensa preferiu transmitir como um “quase-encontro”, tendo Luís Filipe Vieira sido acompanhado pelo vice-presidente Varandas Fernandes. 

O que não foi casual foi o email enviado no mês seguinte, no dia 4 de Abril de 2017, revelado pelo Mercado de Benfica, e que introduziu o lema Unir o Sporting. Não será nada descabido enquadrar este encontro na estratégia que incluía reuniões e contactos frequentes com outras figuras “notáveis”. 

Nesse mesmo mês de Abril (18/4/2017), o reatar de relações já não se ficava por mensageiros à imprensa de ambas as partes, o conforto era absoluto e veiculado de forma clara. 

5 – O plano de partida

Isso nem parece teu recorda bem recorda bem a minha conversa contigo que foi muito profunda Família e ganhares dinheiro e porta sempre aberta e segunda opção disse te claramente e ficares não mexeria no teu salario e a mensagem deixei te pela manhã era bem digna disso mas nem resposta tive

Luís Filipe Vieira

O plano inicial consistia em despachar Jorge Jesus para o Qatar, país com extensas relações na cúpula com o futebol saudita para onde acabaria por ir em Junho de 2018 (Al Hilal, Arábia Saudita), rumo ao clube Al-Sadd, presidido pelo irmão do presidente do Paris Saint Germain. Face às reticências, foi oferecida a renovação, algo que não era desejado devido aos atritos internos criados pelo treinador. O ponto comum entre ambos os destinos, o de 2015 e 2018, além da proximidade geográfica, chama-se, como sempre, Jorge Mendes. Figura central na troca de poder no Sporting Clube de Portugal, com a qual terá obtido um lucro por várias vias (clubes) e intermediações que se estima superior a trinta milhões de euros, o equivalente a três pavilhões João Rocha. 

Vitória de Jorge Mendes e aliados à parte, o plano não se ficou pelo referido acima. Outras tentativas ocorreram, uma das quais deveria levar muitos Benfiquistas a questionar o recente regresso do treinador ao clube da Luz. 

6 – A cláusula penal

Além do pedido de indemnização simbólica no valor de 14 milhões de euros, a ação envolvia um pedido de cláusula penal no valor de 7.5 milhões de euros. Algo que foi mediaticamente ignorado, com imensa gente a pensar que a questão apenas envolvia um pedido absurdo, com poucas hipóteses de sucesso, mas não era assim. Se o sustento para o primeiro pedido era fraco, podendo o Benfica obter apenas uma fração do solicitado, a cláusula penal era um dado praticamente adquirido. 

Em que consistia a cláusula penal e porque era virtualmente à prova de bala neste caso? Vamos ver. 

O não cumprimento desta cláusula seria motivo para despedimento, o que automaticamente iria acarretar o pagamento de 7.5 milhões de euros. Cláusula número nove, artigo terceiro:

Jorge Jesus cometeu vários erros fatais. Um deles, foi soltar informação a sete ventos por vias indiretas, uma prática que lhe é querida. São inúmeras as afirmações na imprensa, de amigos e advogados, a darem conta na altura de negociações, exigências relativas ao plantel, jogadores, envolvimento na preparação, semanas antes da oficialização do vínculo com o Sporting. As testemunhas em tribunal, de um clube que domina os bastidores mediáticos, dariam forma sólida ao conteúdo mediático. No entanto, esta matéria é quase irrelevante face a outras incidências. Jorge Jesus, ainda com vínculo, faltou à convocação ao trabalho, ao qual se deveria ter apresentado no dia 26/6/2015 (convocado três dias antes). 

Tendo invocado não ter recebido a carta, esta foi levantada nos CTT no dia 29/6/2015, prosseguindo com a falta e incumprimento, deixando de poder alegar desconhecimento. Mais um erro grave. 

A este ponto somou-se aquilo que o Benfica enquadrou como “assédio“, pela tentativa de Jorge Jesus levar consigo pessoas de confiança. Não obstante, essas pessoas não eram funcionários de Jorge Jesus, mas sim funcionários vinculados ao Sport Lisboa e Benfica. Ou Jorge Jesus não conhecia as cláusulas do generoso contrato que assinara (quase 5 milhões de euros na última época ao serviço), ou achou que estava acima da lei devido ao deslumbramento resultante de anos de almoços com a imprensa e uma imensidão grotesca de cartilheiros distribuídos pela Comunicação Social nacional. 

Como referido no início do artigo, o que terá levado uma SAD, com acionistas, que inclusive lida no presente com necessidades de cortes salariais transversais, a abdicar dessa elevada verba, é algo que certamente envolveu mais do que bondade.  Após o acordo, Jesus usufruiu de uma lavagem de imagem histórica. 

7 – Um modus operandi

Para que não restem dúvidas, esta atuação não foi um caso isolado por parte do treinador. Não é possível esquecer as múltiplas renovações ao longo de vários anos no Benfica e no Sporting que obteve através de métodos eticamente questionáveis. No ataque mediático concertado sofrido pela anterior administração e por Bruno de Carvalho, poucos estiveram atentos, ligando apenas a parangonas enganosas. Após uma lavagem mediática que num par de meses transformou o treinador em alguém bestial, com o apogeu nas ações do Presidente da República (próximo de Artur Torres Pereira, seu ex-Secretário Geral no PSD, entre outras figuras ligadas de vários partidos) e nos GAJ (encabeçados por Rogério Alves e Ricciardi), criou-se um escândalo artificial devido ao início do processo de despedimento do treinador do Sporting na sequência de um empate caseiro com grande passividade diante do rival, e uma subsequente estranha derrota na Madeira, as quais entregaram ao Benfica o acesso à Champions League. Vamos ver o porquê do referido. 

A maioria das pessoas, por indução mediática, apenas prestaram atenção às notícias no final de Maio e início de Junho de 2018 que davam conta de reuniões e potencial acordo de Jorge Jesus com o clube saudita Al-Hilal. O jogo com o Marítimo ocorreu no dia 13 de Maio de 2018. A reunião que visava iniciar o processo de despedimento ocorreu no dia 14 de Maio. Antes de qualquer um destes eventos, já o modus operandi entrara em prática por parte do leal treinador. A 12 de Maio de 2018:

A esta notícia de 12 de Maio, com o acesso à Champions League em disputa e sem qualquer conversa de despedimento, que dava já como destino o que posteriormente se veio a verificar (a assinatura pelo Al Hilal patrocinada por Jorge Mendes), seguiu-se ainda outra no dia 14 de Maio, com reunião em Lisboa incluída, difundida apenas no dia seguinte pela B24PT. 

Caso as informações acima não sejam suficientes para os infinitamente céticos, somamos a seguinte peça ilustrativa, que recua ainda mais no tempo e aborda conivência posterior (a aquisição de Carrillo pelo Al-Hilal concretizou-se por valores absurdos, com a anuência do treinador):

Apenas Bruno de Carvalho poderá contar como conseguiu despedir o treinador sem indemnização, mas acreditamos que este modus operandi do técnico, que já o comprometera na ação interposta pelo Benfica, é parte da resposta. 

8 – A procuração a Rogério Alves

Recuemos uns meses no tempo, retomando a temática do acordo entre Jorge Jesus e o Benfica. Tendo sido abordado no ponto 4 o reatar de relações, existe um momento determinante e que foi igualmente fundamental para a concretização da queda da anterior administração. No dia 22 de Fevereiro de 2018, Jorge Jesus passou uma procuração com carta branca a Rogério Alves que iria selar o acordo, sendo que ainda não sabemos o que deu em troca de um perdão, no mínimo, de 7.5 milhões de euros por parte da SAD encarnada. 

Se os primeiros encontros de Jorge Jesus com Luís Filipe Vieira tiveram lugar logo após a reeleição de Bruno de Carvalho em 2017, como abordado, o acordo com carta branca teve lugar 5 dias após a Assembleia Geral que legitimou a administração com 90% dos associados a favor (17/2/2018). Depois de cada vitória, uma nova jogada à altura, até ao objetivo final. Várias peças foram movimentadas em diversas frentes para derrubar uma administração que vencera de forma esmagadora em 2017, e que vira a legitimidade reforçada em 2018. Uma dessas peças fundamentais era o treinador, líder do balneário, a pessoa responsável por controlar ímpetos de alguns jogadores e criar foco total em objetivos desportivos. Foi no balneário da equipa de futebol sénior masculino que se incentivou e travou a frente de batalha interna, a mediaticamente mais explorada, e foi de lá que emergiu o futuro presidente. Rogério Alves, por seu turno, passou de advogado de Jorge Jesus a Presidente da Mesa da Assembleia Geral, papel que exerce com poder absoluto sobre o clube. 

9 – Notas adicionais e considerações finais: incidente, Cintra e a ADBD

Aos elementos abordados neste artigo somou-se um incidente de suspeição levantado pelo Benfica contra a juíza do processo, Anabela Marques, dirigido ao Presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Algo que foi mediaticamente ignorado. Na altura, em Agosto de 2016, ainda a operação Lex e o processo E-toupeira não tinham adquirido qualquer forma, caso contrário as diversas acusações dirigidas à magistrada fariam os advogados João Correia e José Luís Seixas corarem de vergonha. Apesar de que, com a operação Lex, se percebeu de forma clara que Rogério Alves tem influências que não deveria ter num verdadeiro estado de direito. 

No dia 7 de Abril de 2017, o incidente de suspeição foi finalmente indeferido, no entanto, não sendo sequer necessário pois as partes já se encontravam de forma assídua e amigável. O resultado das eleições no Sporting, em Março de 2017, assim o ditara como foi já referido. O acordo secreto nem no processo judicial se encontra, mas Jesus não voltou a derrotar o seu clube do coração, entregando o acesso à Champions numa bandeja, recrutando jogadores ao seu clube, e finalmente regressando à base após um período que Bruno Lage conseguiu adiar com um título. 

Existia um claro sentimento de gratidão “leonino” em relação ao papel do treinador da parte de algumas figuras que venceram a guerra pelo poder no Sporting. Por seu turno, o “novo Sporting” passou a apontar baterias apenas ao Futebol Clube do Porto, não apresentando sequer recurso no processo E-toupeira, e permitindo o regresso de Luís Filipe Vieira à sua tribuna de Alvalade oito anos depois. Sousa Cintra, escolhido por Marta Soares para liderar a SAD, em diálogo constante com elementos de uma das listas, procurou resgatar o treinador do contrato milionário com que tinha sido premiado. Recebeu igualmente indicações para remover o impedimento legal (cláusula de confidencialidade) que impedia Jorge Jesus de atacar o Sporting, pois o objetivo era poder livremente enxovalhar Bruno de Carvalho. Como é sabido, a última afirmação na seguinte imagem é também falsa, com vários jogadores a terem visto o seu salário multiplicado. 

Face ao desenlace mais que provável de condenação avultada, falta saber o que foi materialmente oferecido em troca. Várias pessoas sabem, outras suspeitam, mas não existe dúvida dos papéis desempenhados nesta temática por Luís Filipe Vieira, Jorge Mendes e Rogério Alves. Relativamente ao agora PMAG, talvez numa das suas muitas intervenções públicas sobre todo e qualquer assunto possa ser confrontado com esta e outras questões, sendo que a resposta será inevitavelmente evasiva, redundante e sem conteúdo. 

Jornalistas poderão ainda recorrer a quem ele deve essas aparições com vista a uma resposta: à agência de comunicação do seu escritório Rogério Alves & Associados, a ADBD de António Sousa Duarte. Se já foi revelado e exposto que a PLMJ, escritório parceiro do Benfica e que se defronta em tribunal com Rui Pinto, auxiliou pro bono a Mesa de Jaime Marta Soares e da “presidenta” Eduarda Proença de Carvalho (bem como as suas Comissões, se bem que Marta mais não fez do que seguir indicações superiores finais dadas em Abril de 2018, na Quinta da Marinha), e alguns jogadores contra Bruno de Carvalho na vertente legal, na vertente mediática esse papel coube à ADBD. Para se protegerem e evitarem escândalos por associação, os atores recorrem a vias indiretas e a terceiros, como é ilustrado pelo papel do escritório PLMJ (em estreito contato através de Diogo Orvalho) e da agência ADBD (em estreito contato através de Eduarda).

Sousa Duarte ficou mais conhecido pela presença nos emails de Godinho Lopes, divulgados pelo Mercado de Benfica, nos quais pessoalmente apelidou Rogério Alves de D. Sebastião. Da mesma forma que a agência ADBD garante presença mediática frequente de Rogério Alves nas televisões, foi igualmente fenomenal a forma como assistiu em 2018 a Mesa de Marta Soares, a sua Comissão de Gestão e a Comissão de Fiscalização (a conferência de imprensa desta última no Hotel Intercontinental foi cortesia da ADBD e Godinho Lopes). Se queriam perceber como Jaime Marta Soares pulava de um canal televisivo para outro, com uma velocidade estonteante e agendamento imediato, a explicação está dada, e é extensível a outros elementos. É assim que as coisas funcionam nos bastidores deste país. Coincidências só na ignorância, que é sempre opcional como forma de lidar com a realidade. 

Por último, “agora já está, já está,” caso assim, mais uma vez, o permitam. 

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Manuel Correia

Impressionante a cambada de gente sem escrúpulos e a teia urdida para penalizar pessoas de caráter, profissionalismo e honestidade.
Temos turmas de desqualificados no nosso amado Sporting.
Bem haja ao Rugido Verde!!!