RUGIDO VERDE

Levantar e levantar de novo, até que os cordeiros se tornem Leões!

Segunda-feira, Outubro 26, 2020

O Esgoto Comportamental

Nas décadas de 50 e 60 o cientista John Calhoun realizou uma série de experiências com algumas espécies de roedores que descreveram o colapso comportamental inerente à sobrepopulação atingida. Para isso, concedeu uma determinada área a ratos, fornecendo-lhes água e comida sem privações de modo a deixar que a população primitiva se reproduzisse sem pressões selectivas externas.

O curioso destas experiências foi a constatação de que com o decorrer do tempo e a consequente sobrepopulação atingida, o aspecto comportamental dos ditos ratos iniciou um caminho absolutamente disruptivo em relação ao que seria o seu comportamento natural.

Com efeito, as fêmeas passaram a ter uma frequência de abortos muito superior ao normal, assim como grande parte dos recém-nascidos raramente sobreviviam e as que conseguiam levar a gravidez até ao fim ignoravam os seus tratos maternais.

Também nos machos se assistiu a alterações comportamentais drásticas, incluindo canibalismo e alternância entre hiperactividade e letargia, levando à desconstrução e destruição da organização social das populações.

Calhoun denominou este modelo animal de colapso social como “The Behavioral Sink”, qualquer coisa como “O Ralo Comportamental”, e o seu trabalho sobre este modelo tem sido utilizado frequentemente, mas com as merecidas reservas, nas extrapolações sobre comportamento social, económico e outros na população humana.

Em Alvalade deviam fazer um estudo observacional do género para aferir a proximidade às conclusões de Calhoun. É extraordinário como a partir de determinado momento que eu, pessoalmente, não sei precisar, se assistiu à representação do ralo comportamental numa população dita racional, com a quota parte de emoção, porque o Sporting será sempre uma paixão.

Eu quero acreditar que é racional embora muitas das acções não devam muito à lógica ou à razão… No entanto, não deixa de ser interessante notar que a fauna deste clube é muito mais unida, aguerrida, com sentido de sobrevivência, sempre que a sua existência é verdadeiramente ameaçada – os mais aptos aparecem, reestruturam, reorganizam, reagrupam, os mais inaptos desaparecem no meio da argamassa humana e remetem-se ao silêncio. Em suma, há uma verdadeira hierarquia e funcionamento social moldado segundo os parâmetros da Natureza.

Mas depois dos mais aptos deixarem tudo minimamente preparado para as condições de sobrepopulação – há acesso aos recursos em barda, há evolução notória, há condições para a utopia… – e lá reaparecem os ratos inaptos prontos a romper o tecido social, a divergir radicalmente da hierarquia que se estabeleceu com sucesso visível para toda a sociedade,
iniciando a disrupção comportamental que levará ao colapso. E, eventualmente, desde que não se extinga, a sociedade tenderá a reiniciar o ciclo quando tudo tiver colapsado.

O Sporting em 2013 colapsou, quase irremediavelmente, mas a natureza seguiu o seu curso normal a partir daí e, numa população tão diversa como a sportinguista, a recuperação era inevitável. Contudo, e daí duvidar por vezes da racionalidade, apenas passados cinco anos, assistiu-se a uma abundância de recursos só comparável à do mandato de João Rocha, logo surgindo o advento do “ralo comportamental” que levou novamente a estes desvios da normalidade – decisões absolutamente incompreensíveis para a sobrevivência do grupo como um todo, uma hierarquia completamente partida e náufraga, anarquia de facções que prometem os caminhos
da salvação mas que não passarão de vãs promessas.

Até surgir novamente a nova hierarquia forte quando tudo estiver em ruínas e os ratos inaptos regressarem para as suas tocas.

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Paulo Vieira

No Sporting, a desconstrução e a destruição da organização social é liderada por um rato míope.

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